33 Depois de salvarem o mundo - Heróis - Capítulo 27
Irmã
Antes que os presentes conseguissem ver o rosto de quem tentava atravessar, a pessoa misteriosa atirou uma adaga na direção de Valmir, mas André, que já havia previsto o movimento, se atirou na frente, protegendo Valmir, a adaga atravessou o seu braço esquerdo, justamente o que mais havia sido danificado no retorno.
Sobre o último degrau estava uma mulher, pele bronzeada pelo sol, cabelos pretos amarrados em rabo de cavalo, usava um conjunto de couraça fino e leve, típico de assassinos do Leste, no cinto várias adagas de metal preto.
– Olá, Deco! Quanto tempo! – falou a mulher para André, ignorando os demais.
– Você não devia estar aqui! – gritou André.
– Quem é essa? – perguntou Zita, metade era curiosidade, metade ciúmes.
– Essa é Shiduu! A terceira dos filhos do Leste, minha irmã mais velha…
Shiduu começou a descer a escada, parecendo não baixar a guarda, André caminhou em direção a ela, eles pararam a menos de um metro um do outro. A adaga ainda estava atravessada no braço de André, e o sangue descia lentamente, pingando no chão.
– Precisamos de você! – disse Shiduu – Por isso vim lhe buscar de volta.
– Que interessante, esse portal foi aberto há poucas horas e você conseguiu achá-lo tão rápido… O que você está querendo fazer? – André disse enquanto encarava sua irmã.
– Isso é forma de falar com sua querida irmã depois de tanto tempo? Não vai ao menos dizer que sentiu saudade? – Shiduu perguntou fingindo uma expressão amarga.
– O QUE ACONTECEU AQUI? – gritou André apontando para o cadáver do cientista – Aquele corte foi feito por alguém com uma espada longa! Não as adagas que você usa… quem mais está com você?
Shiduu suspirou forte, e falou lentamente.
– Não matei ninguém, apenas vim para pedir ajuda. O este precisa de você mais uma vez.
– Você disse que precisava de mim, explique bem suas palavras, e em consideração à nossa mãe, eu não deixarei que eles te matem! – esbravejou André enquanto apontava para os heróis prontos para atacar a qualquer momento.
A atitude de André assustou qualquer um dos presentes, a maioria deles não estavam acostumados com esse lado de André que grita sem paciência, ele sempre havia sido mais do tipo que mata em silêncio e depois sorri.
Shiduu ajoelhou-se e, enquanto uma lágrima descia pelo lado direito do seu rosto, disse:
– Nossa mãe sumiu, ela foi embora! Deixou apenas algo que achamos ser uma mensagem na parede do quarto, mas está naquela porcaria de língua que só você consegue ler… Surii e eu estávamos no Reino de Cristal, buscando informações, então encontramos aquela heroína, Victoria, ela me trouxe até a “porta” e disse para esperar que em breve você viria, isso foi há duas horas, Surii não acreditou nela mas eu sim, quando eu cheguei já vi a cena assim, achei melhor esperar dentro da luz azul, eu não matei ninguém aqui…
André e os outros no local permaneciam imóveis, enquanto isso Shiduu continuava a falar:
– Desde que encontraram o seu diário, há dois meses, nossa mãe começou a agir estranho, sempre sorridente, até cantava… Uma noite ela foi de quarto em quarto, se despedindo de nós, não conseguimos impedi-la de partir, e nunca mais a vimos…
Essa última parte pareceu ter afetado André, ele deu dois passos para trás e baixou a cabeça, Shiduu continuou o seu monólogo:
– Renee por ser o mais velho vivo, assumiu provisoriamente a posição de governante, mas nem mesmo ele se acha capaz, e há uma guerra vindo, você sabe bem disso, falta menos de um minuto para o pôr do sol! E quando mais precisamos, você e Miraa desapareceram.
André levantou a cabeça, tocou o ombro da garota com o punho direito e disse:
– Não se preocupe com a nossa mãe, ela sabe exatamente o que está fazendo! Precisa ter mais fé nela e seus planos, por enquanto eu estou terminando umas coisas aqui e em breve voltarei com todos os outros heróis.
Shiduu balançou a cabeça concordando com seja lá o André tivesse falado.
– O que foi que você quis dizer? – Perguntou Josiley.
– Que acredito nela e vou ajudar. Mas antes precisamos achar quem matou os cientistas, lembremos que Jonas não usa lâminas! – disse André.
– Como assim lâminas? Se não foi Jonas, Vic ou a sua irmã ali, quem poderia ter sido? – Josiley perguntou movendo os braços.
– É isso que vamos descobrir. – André se moveu – Felipe, deixo o portal com você!
Felipe concordou com André, chamando Kawã, Lucas e Anne para ajudar, os demais iriam em busca do assassino.
Enquanto andavam a passos largos, Zita se aproximou de André, dizendo:
– Vai mesmo acreditar nisso? Sei que ela também é do Leste, mas aparecer justamente aqui…
– Não me resta escolha senão acreditar… – Murmurou André.
– Você está com uma adaga dela, bem aí, fincada no braço!
– Se Shiduu quisesse me matar, essa adaga ou qualquer outra já teria atravessado meu tórax…
Zita permanecia inquieta, mas André segurou na sua mão com os dois punhos enfaixados, e disse baixinho:
– Acalme-se e confie em mim! Lembra quando dançamos pela última vez?
Zita primeiro fez uma cara de que não tinha entendido, mas pensou um pouco e começou a sorrir, em seguida soltou as mãos de André e correu na frente enquanto dizia:
– Léo! Venha comigo… Precisamos resolver o outro assunto, o senhor Valmir também vem…
Leonardo não perguntou nada, apenas seguiu Zita e Valmir, ele sabia que algo estava errado mas preferia não perguntar, sua experiência de herói lhe ensinou a não demonstrar suas suspeitas na frente de possíveis inimigos.
André se virou para a porta dando as costas para Shiduu dizendo:
– Você vem comigo, se ficarmos aqui iremos atrapalhar o trabalho do Felipe.
Shiduu não deu uma palavra sequer, apenas seguiu André pelo corredor em direção à saída da Divisão de Pesquisa e Desenvolvimento, Josiley foi com os dois, na metade do corredor eles começaram a ouvir sons de tiros, os três apressaram o passo, e mesmo que Shiduu nunca tivesse visto um arma de fogo, ela podia entender parte da situação, mesmo André ainda não estava familiarizado com esse tipo de armamento.
Ao chegarem na parte externa, André viu um monstro humanóide feito de terra, madeira e entulho, atrás dele estavam escondidas algumas pessoas, enquanto na direção oposta, escondidos atrás das árvores, cerca de quarenta ou mais soldados com armas semelhante à de Valmir estavam atirando sem pena de gastar munição.
Os heróis protegidos atrás do monstro de entulhos estavam conseguindo se proteger das balas, e o monstro humanóide de terra se recompunha tão logo era acertado, até mesmo as granadas de mão não surtiam efeito algum que fosse permanente.
– Isso não estava nos meus planos – comentou André – Eu sabia que eles seriam rápidos, mas acreditei que teríamos mais ou menos umas duas horas.
André, Josiley e Shiduu estavam parados na porta, escondidos da visão dos atiradores, mas eles não estavam sem opções. Usando a velocidade de herói, Josiley verificou a parte externa sem se arriscar.
– São os soldados da Aliança! – alarmou o herói veloz – Eles não querem que investiguemos o que aconteceu aqui, com certeza. Isso é um problema!
– Eles devem estar aqui para impedir que destruamos a máquina que abre o portal… – murmurou André – O interesse da Aliança, segundo o Felipe, é nos recursos do Outro Mundo, e aquela coisa é a estrada deles para riquezas infinitas e acesso à magia.
– Por que nós não os matamos? – perguntou Shiduu com um sorriso maligno.
– Porque antes de você chegar lá com essas faquinhas eles terão transformado nós três em peneiras! – Josiley falou de forma dramática.
– Então o problema são essas armas barulhentas deles? – Shiduu ficou curiosa.
– Josiley! – chamou André – Preciso que dê cobertura aos outros! Não precisa fazer nada contra os soldados, apenas traga todos para dentro em segurança.
O rapaz veloz concordou balançando a cabeça e correu em direção às pessoas que se protegiam, mais rápido do que a velocidade do som. André estava ajoelhado olhando a situação, e sua irmã mais velha atrás dele.
De repente, André sentiu uma lâmina tocar seu pescoço, Shiduu estava apenas esperando uma oportunidade para capturá-lo, mas não esperava que fosse tão fácil.
– Então tudo aquilo era mentira? – perguntou André erguendo as mãos em sinal de rendição.
– Não… – Shiduu falou em tom pesaroso – A única parte em que menti foi sobre Surii estar comigo no Oeste, sabia que falar o nome dela era a forma mais fácil de te fazer baixar a guarda e ganhar sua confiança, mas o que disse sobre a nossa mãe é tudo verdade… Precisamos de você, e não posso deixar que fuja mais uma vez!
– Que bom que não mentiu… – disse André – Assim você não precisa morrer…
Um segundo depois o local ficou muito quente, sons elétricos foram ouvidos e atrás de Shiduu a parede se desfez, surgindo a figura de Zita coberta de chamas, Leonardo soltando raios dos braços, acompanhados por Valmir e sua arma longa, e um herói careca.
– Posso atirar? – perguntou Valmir engatilhando a arma com o cano encostando na nuca de Shiduu.