A Última Gota de Escuridão - Capitulo 1
Lovestars
POV: Mirian Tristan
— Depois de todo esse tempo perdido, finalmente te encontrei! — exclamou Mirian, erguendo triunfalmente o batom perfeito.
Após vários minutos diante do espelho e algumas pinceladas de maquiagem, finalizou os lábios com um tom rosado e um sorriso satisfeito.
Correu de um lado para o outro terminando de se arrumar. Vestiu as meias pretas, as sapatilhas purpurinadas e pegou o casaco jeans com renda branca. E, claro, a produção não estaria completa sem algumas selfies para as redes sociais. Girou diante do espelho, analisando-se de todos os ângulos, satisfeita, até que um chamado impaciente veio do térreo:
— Você já está pronta?
Mirian agarrou a jaqueta e desceu correndo. No saguão, o irmão caçula André a esperava junto com o pai, todos prontos.
— Se não formos logo, vamos perder os melhores lugares! — reclamou casualmente.
Os irmãos, Mirian de 17 e André de 16 anos, levavam a vida despreocupada, esforçando-se para seguir as tendências que todo adolescente deveria dominar para ser socialmente bem-sucedido.
E qual tendência fazia mais sucesso além de Lovestars? Todos que eram alguém estavam indo ao show da banda naquela noite. Lovestars não era apenas um grupo musical; era um fenômeno cultural. Num mundo fascinado por magia e poder, raramente artistas conseguiam tanta atenção — e eles haviam conseguido, tornando-se os queridinhos da nação.
— Estou pronta, estou pronta! — Mirian saltitou ao redor do pai e do irmão, sem esconder a ansiedade.
João Felipe Tristan, o pai, afagou provocativamente os cabelos da filha. Ela se afastou de imediato, quase rosnando para o criminoso que arruinara sua obra-prima capilar.
— Pai! — gritou Mirian, inflando as bochechas, a voz duas oitavas acima do normal.
— Se eu fosse você, não me preocuparia tanto com o cabelo. Está indo para um show… só adiantei o resultado! — disse Felipe, de queixo erguido, exibindo um sorriso de escárnio bem-humorado.
Mirian revirou os olhos.
André, alheio à discussão habitual, estava concentrado no smartphone, sacudindo as pernas com impaciência.
— Felipe, pare de mexer no cabelo da sua filha. Mas que coisa! — repreendeu Dora, surgindo com a mesma expressão de desaprovação de Mirian. Apontou para a gaveta do aparador, de onde uma pequena escova emergiu sozinha. Uma luz esverdeada envolveu os cabelos da filha, que se moveram como se penteados por mãos invisíveis até formarem um coque perfeito.
— É, pai! Mantenha as mãos no bolso! — retrucou Mirian, erguendo o queixo e inflando as bochechas. — E obrigada, mamãe, você é a melhor!
Felipe levou a mão ao peito, fingindo o golpe recebido. O rostinho birrento da filha não era nada intimidador — e justamente por isso lhe arrancava satisfação. Quantas vezes mais poderia aproveitar aquele beicinho, agora que ela já não era mais uma garotinha?
— Tanto faz, tanto faz! — resmungou, erguendo os ombros. — As mulheres desta casa não dão valor a um sujeito ultrapassado como eu. — Bateu palmas, mudando o tom. — Quem está com pressa não sou eu. Vamos ou não vamos?
Já a caminho da garagem, tamborilava as chaves entre os dedos.
— Finalmente! — André levantou-se de um salto, guardando o celular no bolso, habituado às galhofas da família.
Dora abraçou Mirian e recebeu de André um beijo rápido na bochecha, antes que os dois corressem para o veículo da família. Não era nada de especial — apenas um aerocarro simples, como os que qualquer casa com magistas mantinha —, mas cumpria bem sua função de atravessar a imensa cidade de Orchestra.
Felipe apoiou as mãos no volante, e a energia amarelada que fluía de seus dedos se fundiu aos sensores. O motor respondeu de imediato, fazendo o aerocarro subir com suavidade. Em poucos minutos, já seguiam pela aerolinha que conectava ao portal da região sul. Antes de seguir para a arena central do show, fariam uma parada para buscar Sarah Davis.
Sarah era amiga de infância dos irmãos. As famílias Tristan e Davis, ligadas pelo trabalho conjunto em um hospital particular, mantinham uma convivência próxima havia anos. Com o tempo, as três filhas dos Davis tornaram-se quase parte da família, e, entre elas, Sarah sempre fora a mais próxima de Mirian e André, já que tinham idades semelhantes e cresceram lado a lado.
Quando crianças, eram inseparáveis. Mas, desde que Sarah partira para o Campo de Treinamento, o contato diminuíra. Aos 16 anos, como André, ela fazia parte do seleto grupo de jovens capazes de manipular espectros de luz, talento que exigia supervisão das Forças Espectrais. Assim, passara os últimos quatro anos em internato, longe da rotina familiar.
Mirian não conteve o espanto ao vê-la na entrada de casa.
— Uau, você está tão alta! — Sarah exclamou, correndo até o carro.
— Menina, e você está tão linda! — respondeu Mirian, saltando do aerocarro com os olhos brilhando.
O abraço que trocaram foi apertado, cheio de risadas e gritos abafados. Sarah parecia diferente: os cabelos curtos, o corpo definido sob o casaco largo, e, sobretudo, a postura firme cheia de confiança no olhar. Ainda era a mesma amiga de infância, mas agora transmitia uma presença madura, moldada pelo treinamento.
Depois da saudação calorosa, Felipe acompanhou os três até a arena de shows. As ruas em volta fervilhavam de estandes vendendo camisetas, bandanas e lembranças, enquanto o cheiro de lanches se espalhava pelo ar. Grandes pôsteres estampavam os rostos dos integrantes da Lovestars.
Os três correram para tirar fotos diante dos mais populares. O vocalista Adam Lima exibia seu sorriso travesso de garoto malvado, enquanto o baixista Eliezer Gerson tinha a expressão suave e quase angelical, criando um contraste evidente. Outros membros reforçavam arquétipos distintos: o brincalhão, o arrogante, o revoltado. Mas nenhum atraía tanto público quanto Dário Khalil, o guitarrista.
Seu pôster concentrava a maior fila. Dário aparecia, como sempre, de semblante rígido e olhar gélido — uma presença misteriosa que, paradoxalmente, só aumentava seu fascínio entre os fãs.
Em questão de instantes, o sol desapareceu atrás do horizonte. Como a arena era aberta, todos puderam assistir ao céu cintilante mergulhar na escuridão. As partículas mágicas, que tingiam o ar com sete cores, foram se apagando lentamente até ceder lugar às estrelas — logo engolidas pelos canhões de luz que varriam o palco.
O show começava.
Um portal reluzente se abriu no alto, derramando efeitos de pura luminosidade. Um a um, os integrantes da banda surgiram em acrobacias aéreas, já dedilhando seus instrumentos no voo até o palco. A multidão entrou em êxtase, empurrando-se para ver melhor.
Dário Khalil entrou por último e não precisou de espetáculo: bastou que os dedos corressem pela guitarra para que a arena fosse tomada por gritos. Só então Adam Lima tomou a frente, surfando o ar montado em um raio que explodiu em fogos. A plateia respondeu em coro, agora acompanhando o ritmo da música.
Para Mirian, André e Sarah, era a primeira experiência ao vivo — e a adrenalina parecia hipnotizá-los.
No meio do show, Adam ergueu a mão pedindo silêncio. A plateia obedeceu de imediato, como se fosse um só corpo.
— Acabei de receber uma notícia incrível — anunciou, sorrindo. — A próxima música é dedicada ao nosso herói nacional e à sua filha, que hoje nos dão a honra de sua presença!
O telão mostrou a imagem de um homem imponente e de uma jovem radiante ao seu lado. O nome bastava: Hugo Martins.
A reação foi instantânea, quase instintiva. A multidão explodiu em gritos de reverência. Hugo foi o primeiro e mais poderoso espectro de nível superior, uma figura lendária que moldara gerações de magistas. Algumas de suas façanhas já tinham virado mitos, mas nada diminuía a admiração que inspirava. E agora, mesmo com os cabelos brancos, mantinha um porte vigoroso e um olhar que ainda transmitia força.
Quando a música recomeçou, os versos exaltando coragem e honra se fundiram às imagens projetadas de suas batalhas contra monstros além da fronteira. Cada acorde da guitarra de Dário parecia intensificar a catarse coletiva.
Ao final, a arena veio abaixo em aplausos. Hugo e sua filha Dandara estavam de pé, acenando emocionados.
Mirian sentia que poderia viver daquele êxtase para sempre. André, tomado pela empolgação, agarrou a mão de Sarah e pulava ao seu lado, até perceber o gesto e congelar por dentro, traído por sua timidez com todos os membros do gênero oposto.
Sem mais nada fora da programação, o show se estendeu por mais uma hora. Um a um, os membros da banda deixaram o palco, até restar apenas Dário Khalil, encerrando a apresentação com um solo de guitarra em meio a um espetáculo de luzes.
Fora o rápido cumprimento a Martins e à filha, não demonstrou emoção alguma. Nem mesmo parecia cansado: apenas o suor discreto denunciava o esforço de ter conduzido uma multidão em êxtase.
Dário era o membro favorito de Mirian e Sarah, assim como da maioria do público. Todos reconheciam nele o verdadeiro astro da banda, rival até da lábia afiada de Adam. Sua postura constante e impenetrável tinha um magnetismo único, um carisma que se impunha sem esforço.
Enquanto a plateia ainda vibrava, o chão tremeu de repente. Os gritos não foram mais de euforia, mas de pânico. Mirian, André e Sarah se agarraram uns aos outros, ajoelhados, tentando não tombar. O abalo, contudo, passou tão rápido quanto surgira. Confusos, os espectadores olharam em volta, sem compreender. Adam retornou ao palco pedindo calma e orientando a multidão, enquanto Dário dedilhava a guitarra com tranquilidade, guiando a atenção de volta à música.
Foi nesse momento que os olhos de Dário se fixaram em alguém na plateia. Mirian sentiu o coração disparar ao perceber que ele a encarava, mas a melodia suave parecia amortecer sua reação. Então, o olhar dele se desviou para o alto. Instintivamente, Mirian acompanhou, e o que viu não fazia sentido: algo jamais registrado no céu.
As gotas de luz — partículas etéreas que caíam do firmamento durante o dia, concedendo poderes aos afortunados — eram um fenômeno conhecido, mas restrito ao claro. Por isso, Mirian não entendeu quando, em plena madrugada, uma dessas gotas luminosas desceu em sua direção.
No instante em que a bolha mágica atravessava o ar noturno, um novo tremor se espalhou, mais violento, carregando destruição. A quilômetros dali, em uma área isolada da cidade, o tecido da realidade se rompeu, revelando uma fenda imensa que rasgava o próprio tecido da realidade.
E, dentro dela, apenas a mais profunda escuridão.
Nyxle
Cara, muito bom!!!! Eu tô tão ansiosa pra ver os outros capítulos 🥰😭😍😭😍😭😍😭 e eu já vi que saiu!! 😭😭 Já vou ler todos!