A Última Gota de Escuridão - Capitulo 10

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Instituto Heidrun – parte 1

POV: Dário Khalil

Alguns dias depois, já era a data programada para o inicio das aulas no Instituto Heidrun e Gabriel entrou com tudo em seu novo plano para Dário. Os treinos de alta intensidade física foram pausados e no lugar, Dário estava sendo treinado — programado — para lidar com o público.

Sempre que pensava no que viria a seguir, a resposta não era uma expectativa, mas uma instrução pronta, encaixada na mente como um caminho inevitável — Aja assim. Responda assim — Ele sabia exatamente o que faria antes mesmo de querer fazer — era sufocante.

A ausência temporária de missões, o afastamento das patrulhas e dos espectros, o confinamento no apartamento — tudo vinha acompanhado de uma sequência interminável de roteiros mentais. Diálogos possíveis. Reações aceitáveis. Gestos calibrados. Até o silêncio tinha uma forma correta. Mesmo quando queria contrariar os comandos, o controle apertava, reajustando seus movimentos, como quem endireita um objeto torto.

Havia, no entanto, brechas.
Dário percebeu que os comandos eram específicos demais — Dário Khalil deveria obedecer… apenas Dário Khalil. Outros, Número 01 que deveria seguir. Quase nunca os dois. Dentro dessa brecha, Dário aprendeu a observar. A sentir sem reagir. A existir sem chamar atenção do mecanismo que o guiava.

No dia marcado, o corpo levantou antes mesmo de ele decidir. Vestiu-se conforme o esperado. Ajustou a postura perfeita diante do espelho. 

Eliezer já estava acomodado no aerocarro quando Dário, Carlos e Gabriel entraram. Não disse nada, mas o modo como permanecia um passo atrás, atento a tudo menos aos holofotes, era diferente do olhar de Gabriel. Havia um traço de antecipação nas feições do colega de banda.

Ao chegarem no destino e desembarcarem na entrada principal do Instituto Heidrun, os flashes começaram imediatamente. Paparazzi posicionados com precisão demais para serem coincidência. O roteiro assumiu o controle do corpo de Dário, distribuindo acenos, expressões leves e controladas, a versão pública autorizada de si mesmo. 

Gabriel fingiu constrangimento e apontou aleatoriamente para um dos repórteres que estavam no local dando a oportunidade de ele fazer algumas perguntas rápidas, para agradar o público.

O repórter se aproximou, gesticulando quase imperceptivelmente para Gabriel que tinha tudo sob controle e começou a perguntar:

— Dário, muita gente se pergunta se fama e música são suficientes para justificar sua entrada no Heidrun. Você se sente preparado?

Como esperado, Dário já tinha sido treinado para responder aquela exata pergunta:

— O Instituto não avalia popularidade. Avalia disciplina, estudo e responsabilidade. Estou aqui para aprender como qualquer outro aluno.

— Eliezer, e você? Também concorda em estar à altura desse novo desafio?

— Eu sempre estive focado em estudar. O Heidrun é um lugar sério. Não entraria aqui se não achasse que merecia a vaga.

Diferente de Dário, que aparentava calma e controle, Eliezer mostrava um sorriso cheio de dentes, e uma empolgação quase contraditória com suas palavras.

— Então não é um capricho de vocês?

— Não — respondeu Dário, curto. — É um compromisso.

— Não somos crianças mimadas. Assim como a gente se dedica com tudo que temos pra música, também também vamos nos dedicar aqui. — Eliezer completou, ainda sorridente.

— Falando sobre música, os shows estão em pausa desde a Segunda Chuva. Vocês têm planos para deixar os palcos de lado definitivamente?

— Apesar de ser uma figura pública, poucos me conhecem fora dos palcos. Recebi minha gota de luz bem cedo, por isso antes de ser músico, sou magista. Com os shows em hiato, o caminho natural foi focar onde meu poder possa ser útil agora. Dito isso, abandonar os palcos não está nos meus planos, mas também não está fora de questão. 

— Verdade. O foco agora é construir nossa base técnica. Estudar e crescer como pessoas. Não queremos abandonar nossos fãs, mas também não podemos desperdiçar nossos dons, não é?

— Com certeza. Falando nisso, existe pressão por serem figuras públicas em um ambiente tão seletivo?

— A pressão existe, claro. — Dário manteve o mesmo tom neutro. — Mas ela não muda o que eu preciso fazer.

— E você Eliezer? Empolgado?

— Vocês me conhecem. — admitiu, rindo de leve. — Eu sempre fico animado com coisas novas, mas pode ficar tranquilo. Não vou levar meus estudos na brincadeira.

— Ok, ok! — Gabriel interferiu, a pura imagem da simpatia, colocando as mãos nos ombros dos garotos — Hoje não é uma ocasião pública, e meus meninos gostam de ter uma vida privada mais discreta. Só demos uma paradinha aqui para não decepcionar os fãs.

Deixando os repórteres para trás, o grupo entrou no campus, e foram recebidos diretamente na reitoria. Professor Antônio já era um senhor de idade avançada, mas muito bem conservado. Usava uma barba cheia, grisalha e bem penteada e um terno casual sem gravata. Parecia mais um tiozão descolado do que um professor de renome com mais de 80 anos de idade.

Enquanto Gabriel tagarelava sobre os procedimentos de transferência, Dário olhava para o professor pelo canto do olho, sabendo que também estava sendo avaliado. Porém, depois de perceber que Gabriel talvez fosse continuar por horas, Antônio suspirou e colocou um fim na conversa dizendo que lamentavelmente tinha outros compromissos.

Ele se levantou, deu a volta pela mesa e olhou para Dário frente a frente. Como foi instruído, Dário devolveu o olhar com simpatia e um sorriso suave padrão. Podia ver nos olhos do professor uma certa astúcia, desconfiança e talvez até pena . As pupilas de Dário dilataram ao se dar conta da reação dele, mas ele continuou fingindo não perceber. Antônio não se incomodou em dizer nada diretamente para Dário, apenas deu umas palmadinhas no ombro dele, sabendo que Dário não teria nada para oferecer em uma conversa, e voltou sua atenção para Eliezer, que estava ao lado. Depois de avaliar os dois alunos novatos, ele disse:

— O professor assistente da turma já está lá fora. Ele vai apresentar o campus para os rapazes e acompanhá-los até a sala.

— Sim, sim. Muito obrigado pela sua atenção! — Os olhos de Gabriel encolheram com satisfação.

— Por falar nisso, o segurança dele vai seguir do lado de fora do campus, não é? — Antônio perguntou, apontando para Carlos, levantando uma sobrancelha. Estava claro que ele não aceitaria uma segunda opção.

Gabriel não estava em posição de contestar. Antônio ocupava um posto alto demais em Orchestra — magista de nível superior, da mesma geração de Dmitri e Martins — para que qualquer objeção de um mero assessor fosse levada a sério. 

Dário percebeu que Gabriel já tinha ido longe demais ao forçar a inclusão de dois alunos fora do prazo. Ainda assim, ele lançou um último olhar de esguelha na direção do garoto, como quem confere se a reprogramação tinha funcionado, e desviou para Eliezer logo em seguida, o cenho fechado, claramente se contendo para não ralhar com os dois em público. 

— Ótimo! — Antônio bateu palmas uma vez e abriu a porta sem esperar a confirmação verbal de Gabriel — Acho que ele já chegou. Vamos?

Dário se sentiu intrigado com o interesse de Antônio por tal monitor. A postura do professor deixava claro que era alguém que gostava, ao falar dele duas vezes em menos de um minuto. De fato, na secretaria do lado de fora, além da recepcionista, havia mais uma pessoa.

Dário olhou de relance para o rapaz. Ele usava uma camisa comum de gola alta e manga longa e o cabelo assanhado, com um corte estranho, irregular. Talvez o visual fosse um pouco desleixado, mas isso não seria nenhum sinal de espanto, considerando o restante de sua aparência. Tanto que Gabriel nem mesmo foi capaz de esconder o choque que tinha recebido.

— Mas que diabos? — ele praguejou em voz alta, recuando para trás de Dário, com um esgar no rosto.

Apesar de ser bem alto com excelente físico, mais ainda que Dário, e ter uma postura decente, o pouco de pele que ele tinha exposto, principalmente do lado esquerdo do rosto, estava completamente marcado por cicatrizes de queimadura. 

Ele usava uma máscara hospitalar e óculos, deixando o cabelo cobrir o restante do rosto, mesmo assim das marcas de queimadura descendo por seu pescoço e no dorso de sua mão ainda eram perfeitamente visíveis.

Se ele tivesse sido um rapaz bem apessoado um dia, isso era irrelevante, pois seja lá qual tivesse sido sua aparência original, não devia haver mais nenhum vestígio sobrando. Ele estava completamente desfigurado.

Dário reparou que a expressão dele não demonstrava nenhum descontentamento com a reação indelicada de Gabriel, nem havia sinal algum de que ele tivesse a autoestima ferida. Ele se aproximou casualmente, com os polegares nos bolsos e foi diretamente até o professor Antônio, sem dedicar uma parcela sequer de sua atenção para o grupo.

— E aí, prof! Mandou me chamar? — Ele falou com a voz grave, mas jovial.

Professor Antônio abriu um sorriso satisfeito e orgulhoso, passou a mão sobre as costas do rapaz, ignorando completamente a aparência dele e o apresentou com bastante ânimo:

— Este é Ramon Cezar! Ele é um achado excelente que fizemos nos últimos meses e foi contratado como assistente responsável pela turma especial de Magitecnologia. Ramon vai apresentar o campus para os dois e levá-los até a sala de aula.

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Ambientação Futurista, Controle Mental, Distopia, Dois Protagonistas, Identidade Secreta, Magitecnologia, Múltiplas Identidades, Pós-Apocalíptico, Protagonista Anti-Herói, Protagonista Overpower, Protagonista Subestimado, romance, Transtorno Pós Traumático

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