A Última Gota de Escuridão - Capitulo 12
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Sobre a Gota Que Caiu Durante o Dia – parte 1
POV: Mirian Tristan
Mirian sabia que tinha perdido a consciência e ficou confusa: Estava sonhando? Olhando ao redor, havia uma sensação de eteriedade ao seu redor, como se tudo o que estivesse sentindo fosse real e ao mesmo tempo não.
Parecia um eco da história, como os que costumava ver na dimensão vazia. A escuridão ao seu redor começou a tomar a forma de uma câmara estéril.
Um vulto sombrio surgiu do nada. Parecia não ter forma física própria, era a personificação de uma névoa incorpórea. Ele caminhou a passos lentos e silenciosos em direção a uma maca. Deitada ali, a silhueta de uma mulher elegante e bonita podia ser vista. Ela respirava tão devagar, que nenhum som podia ser ouvido, nem parecia viva.
Surpreendentemente, ela estava coberta por um véu de chamas negras. Mirian observou de perto o movimento da energia que formava aquelas chamas. Eram bem parecidas com as dela, mas havia algo errado.
Mirian poderia dizer, apenas analisando as informações das sinas, que aquilo não era a forma normal como a magia da escuridão deveria se portar.
O vulto terminou seus passos ao lado da mulher e a olhou com a expressão vazia. Ele entrelaçou os dedos por entre os dela, e as chamas que a cobriam dançaram com força, reagindo à sua presença. A névoa que o formava tremeluziu, tornando-se mais densa e escura.
Depois de alguns minutos, o vulto pareceu ter se dado por satisfeito, deu meia volta e desapareceu mais uma vez. O quarto voltou a ficar em silêncio e o eco se dissolveu na escuridão.
A cena mudou.
Dessa vez o vulto apareceu em outro lugar. Raios caiam constantemente e uma enorme fenda, tão grande quanto um edifício de 3 andares, rasgava o próprio tecido da realidade.
Mirian sentiu uma assustadora familiaridade com a fenda. Não havia mais nada além de escuridão depois dela. Era de novo aquele lugar, o vazio. Mirian voltou sua atenção pros arredores daquele enorme fenômeno. Várias gotas mágicas dançavam ao redor daquilo, e logo estavam dançando de acordo com a vontade da silhueta de névoa. Aquela pessoa estava as colhendo!
As imagens se dissiparam mais uma vez e Mirian acordou confusa sentindo a testa coberta de suor frio. Acostumada com tantos pesadelos, aquela tinha sido a primeira vez que tivera um sonho tão estranho, como se tivesse visto as memórias de outra pessoa.
Um tipo novo de mana circulava por seu corpo e ela podia sentir cada poro de sua pele respirar aquela energia com voracidade.
Olhando ao redor, percebeu que estava de volta em seu quarto, aninhada em sua cama.
— Não senhor… — Mirian ouviu a voz de Ramon vinda da poltrona , ele falava ao telefone — Não fiquei sabendo… No prédio da biblioteca? Não fiquei sabendo… Agora? Eu estou em um encontro. Sou bem popular com as garotas… Sim, eu sei que estamos em horário de expediente…
Mirian se impressionou com o quanto ele podia mentir tão descaradamente.
— Agora se o senhor me der licença, não posso deixar a minha senhorita me esperando — Ramon encerrou a ligação. — Como está?
— Como sabia onde eu morava? — Mirian quis saber.
— Essa é sua prioridade no momento?
— Minha família mora aqui. Claro que eu vou querer saber sobre qualquer possível ameaça.
— Eu não sou uma ameaça pra você. — Ramon se justificou deixando os ombros caírem — Ou pra sua família.
— Eu espero que não…
Ramon riu. Mirian pôde sentir a melancolia exalando dele. Então Ramon virou o rosto para uma direção aparentemente aleatória:
— Seu irmão voltou. Tomei a liberdade de mandar mensagens para a sua família usando seu telefone, ele já deve estar sabendo do ocorrido.
Mirian sentiu uma pontada no coração ao ouvi-lo falar. Com raiva, estava prestes a tirar satisfações com o fato dele ter compartilhado informações sem esperar pela decisão dela, mas algo ainda mais absurdo lhe chamou a atenção primeiro: o silêncio.
Fosse o som do bater da brisa movendo as cortinas de uma casa na outra rua misturado com o fervilhar da panela de pressão na casa do vizinho, ou André virando as chaves na fechadura do portão, ela não estava ouvindo nada.
Era como se um interruptor tivesse sido inserido em sua super percepção e pela primeira vez desde que tinha adquirido aquele poder, Mirian sentia que podia controlá-lo à vontade. Surpresa, ela abriu e fechou as mãos e as passou sobre os cobertores, sentindo o tato, depois olhou pro quarto iluminado pela primeira vez em tempos.
Antes que ela pudesse comemorar essa pequena conquista, Ramon desapareceu do meio de seu quarto. Parecia nunca ter estado lá.
Ela se levantou batendo os pés com raiva, mas parou antes de sair do quarto ao ouvir a porta de saída batendo no andar de baixo. Não adiantaria nada confrontar Ramon naquela hora se ele estava decidido a evitá-la. Frustrada, ela desceu as escadas batendo os pés.