A Última Gota de Escuridão - Capitulo 12
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Sobre a Gota Que Caiu Durante o Dia – parte 2
POV: Mirian Tristan
André e Sarah já tinham entrado. Mirian correu escada abaixo, e parou arfando na frente do par.
A tensão palpável entre os três era imensa. André olhava a irmã com uma mistura de antecipação e receio, já Sarah parecia estar vendo-a pela primeira vez.
— É verdade? A gota de luz? — André perguntou baixinho.
Mirian assentiu sorridente.
— Você… está bem? — Sarah perguntou, sussurrando, assombrada com o sorriso.
— Claro que estou! Por que eu não estaria? — Mirian respondeu fingindo tranquilidade, passando a mão pelos cabelos. Mas o tremor em sua voz deixou escapar suas emoções verdadeiras. Seu rosto não estava usando os óculos de proteção, os abafadores de ouvido ou o capuz.
Calmamente, ela baixou a mão e olhou diretamente para a melhor amiga… ainda aturdida. Depois de tanto tempo sofrendo, parecia difícil voltar para onde tinham deixado.
André e Sarah se aproximaram mais, observando as reações de Mirian. Um largo sorriso se abriu no rosto dela ao mesmo tempo que lágrimas escorriam de seus olhos.
— Eu estou muito bem! — Mirian soluçou, vendo-os de verdade pela primeira vez em meses.
Como se tivesse recebido um sinal, André abraçou a irmã com força, inundado por uma sensação instantânea de alívio.
Quando as lágrimas foram deixadas de lado, Mirian e Sarah subiram para o quarto, enquanto André falava com os pais ao telefone.
O espelho de Mirian devolvia uma Mirian garota quase irreconhecível — Mirian viu o rosto não contorcido pela dor constante do excesso de estímulos, nem escondido pelos óculos e outros artifícios. A aparência em si não havia mudado, mas ela poderia jurar que estava vendo outra pessoa completamente diferente da que tinha crescido acostumada a enxergar.
Sarah fechou a porta do closet com o pé, equilibrando a caixa de maquiagem no quadril.
— Você ainda respira como se estivesse esperando acordar de um pesadelo — disse, sem acusação, apenas uma constatação leve e quase despreocupada.
Mirian assentiu de leve.
— Acho que acabou virando um hábito.
Sarah pousou a caixa sobre a cama e começou a vasculhar entre os produtos, guardados a tanto tempo sem uso atrás de algo útil. O nó na garganta veio atrasado, como tudo entre elas desde o desaparecimento. Antes, teria dividido o abraço com André. Agora, houve um espaço criado pelas cicatrizes invisíveis entre as duas.
— Vira pra cá — pediu Sarah. — Seus pais vão surtar quando chegarem.
Mirian obedeceu. O toque do pincel em seu rosto foi suave, calculado. Sarah sempre fora assim: atenta aos detalhes, mesmo quando fingia descuido.
— Me desculpa… eu não queria ter me afastado de você… — Mirian sussurrou.
O pincel tremeu na mão de Sarah e Mirian abriu os olhos para o rosto marejado da amiga.
— Eu pensei… que você me culpava… por não ter conseguido te salvar!! — Sarah desmoronou naquele instante, soluçando com força e se jogando nos braços de Mirian.
Meses tentando parecer que estava conseguindo lidar com tudo o que tinha acontecido. Vendo Mirian retornar uma casca vazia do que tinha sido antes, incapaz de interagir normalmente com qualquer pessoa… Mesmo que Mirian não tivesse dito nada, Sarah não conseguiria se perdoar por ter sido fraca, por não ter conseguido salvar a melhor amiga. Afinal, para que serviram todos aqueles anos de treino e pisar na bola quando finalmente foi necessária?
— Em nenhum momento eu te culpei ou achei que você tinha qualquer responsabilidade. Eu que devo me desculpar por não ter esclarecido as coisas antes. Te deixei carregar esse peso sozinha.
— Eu senti tanto a sua falta…
— Eu também senti…
As duas riram. Sarah se recuperou um pouco e continuou a fazer a maquiagem
— Agora vou ter que começar do zero de novo — Ela riu.
— Faça quantas vezes quiser — Mirian prometeu.
— Se não quiser, tudo bem. Sem pressão. Mas… pode me dizer o que aconteceu? — Sarah perguntou. Mirian fechou os olhos e respirou com força. — Não, deixa pra lá…
— Tudo bem, tudo bem… — Mirian assegurou a amiga, então suspirou — Não é que eu não queira, tudo o que eu podia falar já foi dito. Realmente não tem mais o que falar. Depois de cair naquele buraco, eu fiquei presa em um lugar muito escuro. E assim que consegui fugir, voltei pra casa.
— Eles te torturaram?
— Eles?
— Os espectros da escuridão! — Sarah acusou, emanando uma quantidade incrível de ódio e ressentimento — Você voltou com tanto medo de tudo, mesmo que alguém de confiança se aproximasse, você fugia como se fosse apanhar. Até falei com meu psicólogo… ele disse que seu comportamento era claramente um sinal de estresse pós traumático.
— Eu… não sei… — Mirian engoliu em seco, sem saber o que dizer. Por sorte, a narrativa de seu desaparecimento tinha sido completada sozinha. Com tanto ódio emando de Sarah, nem podia imaginar o que ela diria se descobrisse que tinha se tornado um espectro da escuridão.
— Enfim, águas passadas — disse Sarah, desistindo de conseguir uma resposta. Ela se inclinou e ajustou uma mecha do cabelo de Mirian atrás da orelha, um gesto íntimo, automático, um resquício da amizade que nunca morreu, só ficou suspensa.
— Seus pais vão adorar ver isso — disse Sarah. — Não a maquiagem. Você.
Mirian riu suavemente, se admirando no espelho.
— Obrigada por não desistir de mim — murmurou.
Sarah fechou a caixa com um estalo suave.
— Isso nunca foi uma opção.
Quando o casal Tristan chegou em casa e viram o rosto vivido e sorridente da filha, também não puderam conter as lágrimas de felicidade.
Mirian sentia como se o peso do mundo tivesse sido removido de suas costas e que poderia finalmente relaxar de verdade sem ter medo de ser perseguida em uma caça às bruxas.
— Então… — Você vai ficar desse jeito agora? — André perguntou esperançoso, indicando o rosto exposto de Mirian.
— Não force a barra… — Mirian o cortou baixo — Eu só estou me sentindo… qual seria a palavra… confiante! Isso, só estou confiante em casa, não sei como vai ser minha reação na rua… e mesmo que eu consiga sair de boa na rua, se eu fizer isso agora vai ser o mesmo que escancarar o fato de que tem algo diferente em mim. Não quero fazer publicidade com o fato de que virei um espectro. Principalmente contigo, ainda sendo menor de idade.
— Mirian tem razão. É melhor continuar agindo como sempre enquanto a poeira baixa. Você já é de maior, mas ainda precisa se registrar. O melhor é fazer isso nos seus próprios termos — Dora concordou.
— Pelo menos agora eu não vou precisar fazer dever de casa sozinho — André comemorou, lembrando que ainda tinha que descarregar seu excesso de mana daquele dia.
Noite adentro, uma chuva leve começou a cair e André saiu com Sarah para acompanhá-la até em casa. Ela se despediu dos dois resistindo ao impulso de tirar onda com o irmão. Desde que tinha tirado um tempo do trio, as coisas estavam mudando entre os dois.
— Bom, agora só temos que cuidar do que interessa! — Dora puxou a filha pela mão para o lado do balcão da cozinha.
— Você já sentiu alguma outra diferença? — Felipe perguntou, enquanto Dora se sentava ao seu lado.
— Acho que sim… — Mirian respondeu depois de pensar como não precisaria mais viver com medo de ser descoberta como espectro da escuridão. Ninguém sabia ainda que era possível se tornar os dois.
— Tente se concentrar na sua mana. Pode focar para que ela saia pela ponta de seus dedos? — Dora perguntou, mostrando um simples encantamento de luz, fazendo verde sair da ponta de seus dedos.
Mirian observou a estrutura do movimento da mana usada pela mãe e uma projeção mental apareceu imediatamente em sua imaginação. Contra todas as chances, um raio de luz violeta brotou dos dedos de Mirian, que tinha imitado as ações de Dora.
Mirian reparou primeiro na forma da aura da mãe. Antes obviamente excitada, mas com um leve toque de autocontrole, agora estava completamente desordenada.
Dora piscou algumas vezes e olhou para o marido boquiaberto.
Determinar o nível de um espectro era bem simples: Bastava observar a cor natural que a mana de uma pessoa era capaz de refratar em seu estado mais puro. Vermelho e laranja para baixo nível, amarelo e verde para médio nível, azul e anil para alto nível e, por fim, violeta para nível superior. Portanto, era compreensível a excitação dos dois.
Violeta. Essa era a cor da luz criada por Mirian.
Mirian baixou a cabeça até que a testa encostou nos joelhos, com medo de acordar a qualquer momento de um sonho.
Dora se virou para a filha sem conseguir conter o sorriso cheio de dentes.
— Você está bem? Não precisa ficar nervosa… — Ela passou a mão apreensivamente nas costas de Mirian.
Mirian só conseguiu deixar escapar um grunhido abafado.
— Tome, beba um pouco de água! — Felipe disse já entregando o copo que tinha enchido enquanto Dora tomava a frente.
Mirian levantou a cabeça devagar e respirou fundo, aceitando a água. Tinha que admitir que estava mais ansiosa que o normal.
Dora e Felipe trocaram olhares preocupados. Não era exatamente essa a reação que se esperava de alguém que tinha recebido um espectro Violeta. Os dois se perguntaram se isso tinha alguma coisa a ver com o trauma que ela guardava?
Depois de beber um pouco, Mirian puxou os cabelos para trás respirando fundo. Quando reparou na reação preocupação dos pais, ela respondeu:
— Eu estou bem, apenas um pouco tonta. Parece muita coisa para processar.
Ela arrumou um pouco os cabelos em um coque e se recostou na cadeira com uma postura melhor. Nesse meio tempo, André retornou da estação onde tinha deixado Sarah.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — André perguntou ansioso, olhando as reações estranhas dos outros Tristans, então seus olhos pararam sobre Mirian sentada com uma expressão pálida e frágil.
— Qual o resultado?
— Violeta. — Dora respondeu.
— Não importa o nivel, Mirian vai ser…Espera, Violeta?
Felipe quase não conseguiu manter a compostura olhando para o rosto paralisado do filho. Ele mesmo estava atônito com aquele resultado. Eles não estavam falando de qualquer repolho em fim de feira, mas de espectros Violetas! Quantos desses existiam publicamente na cidade? Dez? Quinze? E a maior parte deles eram velhos importantes, figuras históricas e heróis de guerra.
— Uau… vocês deviam jogar na loteria ou coisa assim… — André comentou de queixo caído, olhando da irmã para os pais.
Dois filhos com espectros nível superior… nem sequer Hugo Martins tinha tido tanta sorte, já que Dandara era apenas de alto nível.
Depois de mais aquela surpresa, Mirian estava emocionalmente exausta. Dando um saudoso beijo de boa noite para os pais, ela subiu até o quarto e sentou-se na espreguiçadeira de sua varanda, olhando a chuva continuar a cair enquanto organizava os pensamentos.
Havia muito o que pensar, não apenas quanto a seus poderes, mas quanto a Ramon. Depois de refletir sobre o assunto, ficou óbvio que Ramon com certeza sabia o que iria acontecer e isso a deixava inquieta. Apesar de não querer se envolver com uma desova que deu errado — com certeza iria sobrar pra ela — , pela primeira vez, Mirian se viu questionando qual era a origem real do rapaz.
Outra coisa que estava corroendo seus pensamentos, era o estranho sonho que tivera mais cedo. Apesar de ser um sonho, ela tinha um forte pressentimento de que era real, de algum lugar de Orchestra. Ela definitivamente não queria ter que se envolver com mais problemas ainda.
O seu consolo, é que dessa vez ela tinha alguma escolha sobre o que fazer da sua vida. Claro, possuir magia da escuridão era como andar por aí segurando uma granada armada na mão, mas com a magia de luz como um escudo, era possível proteger sua identidade.
Enquanto revirava milhares de pensamentos, os outros habitantes da residência embarcaram no mundo dos sonhos e a madrugada chegou sem esperar por ninguém.
— Você está b-bem? — Alguém sussurrou perto de Mirian.