A Última Gota de Escuridão - Capitulo 13
A Distância Entre os Dois – parte 1
POV: Dário Khalil
Dário estava nervoso. Depois de tanto tempo, ele tinha conseguido escapar mais uma vez estava chovendo aquela noite, mas Docinho não tinha aparecido. Não que eles tivessem marcado um encontro ou coisa do tipo,
Talvez ela tivesse ido na primeira vez que choveu e ele que não tivesse aparecido.
Talvez ela só tivesse dito aquilo como cortesia e não tinha uma intenção real de ve-lo novamente.
Talvez já estava muito tarde e ela provavelmente não iria aparecer mais.
Talvez. Talvez, talvez!
Dário saiu voando por aí sem rumo debaixo daquela chuva, quando deu por si, estava flutuando sobre o conjunto residencial que ficava nas proximidades.
Dário não tinha uma super percepção, mas seus sentidos eram bem mais aguçados que os de um espectro normal depois de tanto tempo treinando como magista de nível superior, então não foi nenhuma surpresa que ele tenha conseguido vê-la a distância sentada na varanda, coincidentemente, quando olhou para aquele mar de casas. Quase como se seus olhos tivessem sido atraídos naquela direção.
E lá estava ela, brilhando no meio da escuridão, como se fosse uma estrela além das coisas mundanas. Inconscientemente, ele se aproximou e pousou no batente da varanda. Docinho estava distraída, pensando em alguma coisa enquanto olhava para o nada, deitada em uma espreguiçadeira sem nenhum medo do vento frio da chuva. Ele sentiu o coração galopar sem controle, quase pulando para fora do peito.
— Você está b-bem? — Dário perguntou um pouco preocupado.
Docinho se levantou de uma vez da espreguiçadeira, surpresa. Dário sentiu que deveria se estapear naquele momento. Ele sempre a assustava toda vez que se viam, mesmo os dois tendo se encontrado casualmente durante o último mês.
— Quindin? — Ela perguntou confusa e até um pouco alarmada, depois de recuperar o fôlego. — O que está fazendo aqui?
— Choveu… você não foi hoje… eu esperei — Dário tentou explicar apontando nervosamente para a chuva, passando a odiar a própria falta de articulação. Ela deveria pensar que ele era um idiota. — Desculpe… não vim antes.
Ela o encarou com tanta intensidade, que Dário sentiu um calafrio escorrer por sua espinha.
— Como descobriu onde eu moro? — Ela voltou a se sentar na espreguiçadeira e indicando a mesinha ao lado para Dário.
— Estava passando. Te vi lá de cima… — Dário respondeu se sentando no local indicado, com a postura toda reta como um bom menino.
Obviamente ele não ia dizer que tinha voado por toda a região até conseguir sentir sua presença. Ele já tinha aprendido que isso era errado, mas não conseguiu evitar. Dessa vez, ela o olhava, não com intensidade, mas com curiosidade.
— Bom, então acho que a culpa foi minha. Foi um dia bem cheio… Nem pensei em sair de casa hoje… não levei em consideração que você poderia estar me esperando. Sinto muito.
— Tudo bem… — Dário assentiu.
— Você trabalha nesta região agora? — Docinho continuou perguntando. Não era realmente incomum encontrar agentes numerados fazendo patrulha.
— Não… tempo livre… passeando… — Dário sentiu mais vontade ainda de bater com a cabeça contra a parede. Ele só precisava colocar as palavras em ordem e falar sem usar um roteiro! Por que isso era tão difícil?
— Entendi… — Docinho disse, ainda sem desviar o olhar — Espere um instante…
Sem explicações, ela levantou e correu até o quarto. Dário ficou curioso sobre o que ela queria fazer, mas apenas aguardou obedientemente.
Não demorou muito e Mirian voltou carregando uma enorme sacola cheia de lanches e um sorriso cheio de dentes. Dário relaxou. Se ela estava trazendo lanches, pelo menos significava que ela não queria que ele fosse embora… não é?
Os dois se acomodaram na varanda e mesmo sem conversar muito, estavam aproveitando aquele momento.
— Por que… — Dário começou a perguntar, tentando falar bem lentamente para não gaguejar ou engolir palavras — Por que não saiu hoje?
Docinho levantou uma sobrancelha, olhando-o de esguelha. Ele sabia que ela estava pensando no óbvio. Ele que não conseguia identificar ainda o que o óbvio era.
— Dia puxado… — Docinho exalou com força.
— Entendi. — Dário respondeu, observando-a de esguelha. E para variar, Docinho era sempre bem perceptiva, então é claro que ela logo entendeu que ele estava curioso.
Os lindos olhos brilhantes dela o fitaram ainda mais intensamente, o avaliando como se pudesse ver todo o passado e futuro do garoto apenas com o olhar. Tomando uma decisão, ela disse:
— Pensando bem agora, eu estava imaginando se você poderia me ajudar em algo.
Dário arregalou os olhos. Era a primeira vez na vida que alguém lhe pedia ajuda. Inseguro, duvidou de sua capacidade de ser útil para ela.
— Eu n-não… não sei se consigo. M-mas vou dar o meu… o meu melhor! — Ele respondeu com intensa seriedade.
Docinho riu.
— Você nem sabe em que eu preciso de ajuda!
— Mesmo assim! — ele disse com convicção.
Ela continuou calada por um bom tempo. Talvez o que quisesse falar não fosse algo fácil, mas com certeza era louco. Quando se recompôs, Docinho respirou fundo mais uma vez tentando escolher as palavras.
— Antes de qualquer coisa, o quão posso confiar em você? — Docinho perguntou.
Dário hesitou em oferecer uma resposta. Ele era de confiança? Claro que não. Sua vontade não lhe pertencia então não dependeria dele decidir se ela estaria segura ao lado dele. Principalmente por desconfiar sobre o que Docinho queria falar. Mesmo assim, Dário desejava receber a confiança dela, só precisava de mais informações… Ele já tinha revisado todas as regras e ordens que tinha recebido em sua vida e sabia de cor todas as brechas. Se ele fosse de confiança ou não, iria depender de tais brechas.
— Vai me pedir algo ilegal? — Dário perguntou ficando com o corpo ainda mais tenso.
— Talvez? Vai depender da sua resposta… — Docinho respondeu levantando um canto da boca com um meio sorriso e um olhar travesso.
Dário ficou surpreso. Talvez? Que tipo de resposta era essa? Levando isso em conta, ele pensou muito e pensou seriamente. Realisticamente, eles não tinham nenhum envolvimento, apenas dois conhecidos andando juntos para lanchar porcaria e jogar conversa fora durante a madrugadas. Até onde ele estaria à disposição dela? Até onde ela poderia confiar nele?
Ele estava perfeitamente ciente do tipo de reação que estava tendo ao interagir com ela e isso o deixava ao mesmo tempo maravilhado e nervoso. E se ela fosse algum tipo de meretriz que estava intencionalmente brincando com ele para fazer uso de suas habilidades, ele teria percebido. Ele tinha lido livros com personagens assim…
Dário desejava poder ser sincero com ela e queria ver onde aquela situação estranha iria levá-lo. Colocando as ideias no lugar, Dário se decidiu:
— Você não quer… não quer matar ninguém, não é?
Mirian arregalou os olhos e riu em voz alta. Foi tão repentino e espontâneo que Dário se viu momentaneamente em transe, enfeitiçado pelo som de sua gargalhada.
— É claro que não! Eu não sou uma assassina — Ela riu, acreditando que Dário não estava falando sério.
Dário colocou as mãos nos bolsos antes de continuar:
— Então também não é p-para esconder um-um corpo…
— Exato. Não tenho nenhum corpo para esconder — Os olhos dela estavam quase fechados pelas as bochechas altas do sorriso.
Dário riu também, junto com ela.
— Se você não quer m-matar ninguém, o-ou esconder um corpo, você pode confiar em mim. — Dário disse com toda a firmeza que conseguiu juntar para falar.
A garota o fitou, novamente com aquela intensidade como se estivesse olhando diretamente nas profundezas de sua alma. Dário sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. Suspirando com um pitada de conformidade, e ao mesmo tempo suando frio, ela apertou os punhos com força e disse:
— Hoje eu… eu recebi um espectro de luz. Nível superior…
Como se para provar seu ponto, Mirian deixou escapar uma energia extremamente pura da ponta de seus dedos, iluminando brevemente a varanda com uma luz violeta.
Eu sabia! Dário arfou para si mesmo. Ele tinha algumas dúvidas ainda por conta da forma tão diferente como ela se comportava durante o dia, mas era realmente ela. A garota da biblioteca. Ele sabia que não era possível que sentisse aquele magnetismo estranho com outra pessoa.
Mirian torceu as sobrancelhas ao perceber as mudanças na aura de Dário. Ela estava observando cada uma das mínimas reações que ele demonstrava.
— Pra te falar a verdade, eu estou fazendo uma grande aposta aqui — Mirian explicou, suspirando, aliviada com alguma coisa que tinha visto em Dário. Depois, torcendo as sobrancelhas com uma expressão contrariada, ela continuou — É meio estranho dizer isso, mas… mas eu tenho a impressão de que você vai me ajudar da melhor forma, seja lá qual for ela.
— Eu não sei o que fazer com esse poder. Eu tenho medo de que alguma coisa dê errado e eu acabe implicando minha família… eu não quero colocar ninguém em risco por minha causa. Eu sei que isso se resolveria facilmente se eu me alistar ao campo de treinamento das Forças Espectrais e receber o treinamento que eles oferecem para novos espectros. — Mirian se sentou na ponta da espreguiçadeira, olhando de perto para Dário, depois de se aproximar mais um pouco — O problema é que eu queria ficar mais um tempo sem revelar minha identidade, sabe? Claro, eventualmente vou fazer meu registro… só queria esperar mais um pouco.
Dário engoliu em seco com a proximidade da garota. Ele desejava fazer uma coisa, qualquer coisa… por ela.
— Qual ajuda… precisa especificamente? — Ele perguntou com a boca seca.
— Eu quero aprender a usar meus poderes! — Mirian disse com fervor — Esse é o único jeito de eu poder continuar vivendo com minha família sem colocar eles em risco com a minha identidade. Mas… mas se você disser que é melhor eu ir logo para as Forças Espectrais, então…
Mirian desviou o olhar para baixo, fingindo hesitação.
— Entendo.
Com muito esforço, Dário pensou seriamente sobre o assunto. Ele não tinha como ser completamente imparcial ao aconselhar, mas também não podia deixar de falar pela razão. Docinho era uma boa garota, pelo menos disso ele tinha certeza. Ela merecia uma opinião sólida.
— Eu posso entender por que… porque o governo recomenda o treinamento com as Forças Espectrais — Dário começou a explicar, escolhendo o que dizer com cuidado, para variar, sem tropeçar com as palavras, olhando atentamente para as próprias mãos, como se segurasse algo indescritível entre elas — lidar com magia não é fácil. Esse mundo… não é bonito. E o Campo de Treinamento… lá não é lugar para você.
— Não entendi… eu deveria ir ou não?
— Vou ajudar… — Dário disse estendendo a mão. — Aqui, nós dois. Sem campo de treinamento.
Mirian hesitou por um momento, mas apertou a mão dele de volta.
— Vou ensinar! — Dário disse, com um sorriso enorme no rosto. Um feixe de energia violeta escorreu da ponta de seus dedos e controlou um dos pacotes de salgadinhos no ar.
— Quindim! — Ela chamou, uma mistura de ansiedade e euforia da voz, como quem anda de montanha russa pela primeira vez, grata pela disponibilidade dele.
— Vou ensinar você a ser forte!