A Última Gota de Escuridão - Capitulo 13
A Distância Entre os Dois – parte 2
POV: Dário Khalil
Depois do encontro, Dário retornou para o apartamento no meio da noite. Carlos suspirou aliviado e retornou para seu posto. Gabriel estava dormindo, sem fazer ideia de que a pessoa que deveria estar cuidando tinha passado a noite quase inteira fora.
Dário ainda estava se sentindo tão excitado que era difícil sequer esconder o sorriso no canto de sua boca, muito menos dormir. Ele se sentou em sua poltrona e começou a pensar: Qual seria a melhor forma de ajudar Docinho? Ela era uma garota esperta, com certeza ela não teria problemas em se adaptar e se tornar uma magista um dia.
Infelizmente, as Forças Espectrais guardavam todos os conhecimentos sobre magia de luz já descobertos dentro de seus arquivos. Se ela não se alistasse, ela nunca poderia atingir seu potencial máximo.
Também não era como se existissem tão poucos magistas de nível superior, era apenas que todos os outros que não podiam ser controlados antes de se tornarem fortes o suficiente eram silenciosamente eliminados.
Até mesmo o Instituto Heidrun possuía apenas os conhecimentos de domínio público e o que conseguiram construir em cima deles graças à experiência de Prof. Antônio. Qualquer novo encantamento precisaria passar pela aprovação dos líderes antes de passar para o domínio público e poder ser ensinado para os civis.
Sentindo as pontas dos dedos coçarem, Dário olhou na direção do quarto de Gabriel.
Uma decisão impulsiva: Dário cobriu-se de chamas negras.
Sua visão de mundo mudou na sua frente. Em seus olhos, o mundo real começou a ser coberto por aquelas cordas misteriosas. As sinas estavam por toda parte e até mesmo a mais irrelevante delas poderia causar efeitos imprevisíveis.
Dário olhou com desprezo para as várias sinas que saíam de seu corpo, como grilhões, amarrando suas ações e das quais não poderia escapar. E reparou em uma nova que estava se formando, ainda frágil e translúcida, criada por sua decisão de ajudar Mirian, ligando o destino dos dois.
Mesmo sem um plano definido na cabeça, Dário seguiu em direção ao quarto de Gabriel, atravessando as paredes sólidas como se não estivessem ali.
Os grilhões que prendiam seu corpo começaram a apertar, impedindo que ele se movesse normalmente. Quando Dário tocou no tablet de Gabriel ao lado de sua mesa de cabeceira, já estava sentindo como se uma corda em seu pescoço estivesse prestes a enforcá-lo. Dentre as suas várias habilidades desnecessárias, hackear era uma delas.
Respirando com dificuldade, Dário lançou um olhar rápido para Gabriel, ainda entregue aos sonhos, sem nem ideia do que estava acontecendo ao seu lado. Sem margem para demora, ativou o modo de inspeção profunda do sistema, ignorando a interface padrão e navegando direto pela árvore de diretórios. Filtrou metadados, cruzou tags de assinatura mágica e isolou os pacotes marcados como encantamentos restritos. A extração foi limpa e validada antes que qualquer rotina de alarme pudesse disparar.
Quando encerrou o processo, executou uma varredura rápida deixando os rastros fragmentados o suficiente para parecerem ruídos — não havia pistas de que esteve ali. Já fechando a aplicação, percebeu algo. Três pastas permaneciam isoladas do restante do sistema, encapsuladas em camadas adicionais de segurança, com criptografia reforçada.
Uma delas, ao menos, poderia adivinhar sobre o que se tratava apenas pelo nome. O Projeto Estrela do Amor era bem óbvio, com certeza os planos futuros para a banda. Mas Projeto Estrela Cadente e Estrela Aurea… Dário não conseguiu sequer imaginar do que se tratavam. Nunca tinha visto Gabriel trabalhar diretamente com qualquer outra equipe, mesmo assim, uma premonição ruim cresceu em seu peito. O que as Forças Espectrais estariam tramando?
Dário respirou fundo com certa dificuldade e olhou para Gabriel no canto da mesa.
Dário avaliou as camadas extras quase por reflexo. Autenticação biométrica em cascata, chaves criptográficas rotativas, verificação cruzada de hardware. Cada etapa exigia tempo, que ele não tinha. As sinas apertaram mais um pouco. Não era uma questão de capacidade, mas de janela operacional. Insistir ali significaria falhar antes mesmo de concluir a primeira brecha.
Por hora, Dário desistiu da ideia de investigar as informações dos projetos. Colocando o tablet milimetricamente no mesmo lugar, ele mergulhou na escuridão, retirando-se como se nunca tivesse estado por lá.
O dia seguinte começou sem surpresas ou imprevistos. Dário compareceu ao instituto acompanhado de Carlos como sempre. Aproveitando a deixa, antes de descer do carro, ele pediu para Carlos imprimir os arquivos que tinha roubado de Gabriel.
— Onde conseguiu isso? — Carlos arregalou os olhos ao reparar no que tinha nas mãos.
— Roubei — Dário respondeu sem sequer piscar.
— Mas por que quer isso impresso? Já não sabe a maior parte desse conteúdo de cor?
— Segredo — Dário sorriu.
Dessa vez, até mesmo o queixo de Carlos caiu. Ele não sabia o que era mais chocante: Dário ter roubado ou ele estar sorrindo. Ao menos, sorrir era um bom sinal.
— Você ainda vai me matar do coração… — Carlos balançou a cabeça em resignação, mas aceitou os arquivos e foi embora. — So tome cuidado com o que vai fazer com as cópias depois. Pode acabar ferrando com a vida de alguém caso descubram que isso vazou.
Dário caminhou para sua sala de aula, pensando dessa vez, no que mais poderia fazer para ajudar Mirian.
Ele estava muito impressionado com a sua incapacidade de reconhecer a garota imediatamente, apesar de suas suspeitas, mesmo nunca tendo visto seu rosto durante o dia. Mirian e Docinho pareciam ser pessoas completamente diferentes pela forma de agirem e falar.
Percebendo a aglomeração habitual se formando ao seu redor, Dário passou rapidamente pelas regras — aproximação, contato, abordagem — e pelo único desvio viável: Ele não teria que seguir as regras sobre como lidar com fãs, se nenhum fã se aproximasse…
Dário começou a manipular sutilmente a própria aura, chamando a atenção discretamente de todos que estavam o seguindo. Com olhos curiosos, todos que seguiam Dário naquele momento sentiram que havia algo ainda mais belo, quase sagrado na aparência do garoto.
Um grupinho de garotas que estava prestes a pará-lo no meio do caminho foi interceptado por outro grupo aleatório, já afetado pela aura modificada.
Um comentário atravessado, depois outro, discutindo quem tinha — ou não — o direito de se aproximar. A discussão cresceu às suas costas, com vozes defendendo que todos eram indignos e que se aproximar seria uma ofensa para a identidade nobre dele.
Até chegar na sala de aula, todos os pequenos grupos de fãs que o seguiram acabaram entrando em pequenos conflitos uns com os outros. Até o fim do dia, nos fóruns do Instituto, todos ficaram chocados e confusos ao se dar conta que as fãs tinham entrado em consenso de que Dário era uma estrela preciosa demais para ser profanada pelas mãos sujas de reles mortais como elas e qualquer uma que se aproximasse dele seria considerada inimiga pública de todo o fandom de Heidrun.
Mesmo assim, nem isso foi suficiente para apaziguar os ânimos alvoroçados de todos os alunos que testemunharam a queda da gota de luz no dia anterior. O fenômeno tinha dado o que falar. E convenientemente, após a queda de energia, não havia nenhum registro sobre quem tinha frequentado o prédio.
Na hora do almoço, Dário chegou na biblioteca a tempo de observar a interação entre Sarah e Mirian.
— Estamos indo ao centro comprar alguma coisa diferente para o almoço. Vai querer alguma coisa? — Sarah perguntou, todo sorridente.
— Qualquer coisa doce… — Mirian respondeu, parecendo cabisbaixa como sempre.
Desejou se aproximar, mas pensando melhor, talvez isso fosse ser inconveniente para ela, mesmo com a modificação de sua aura, dado como ela se comportava tão diferente do dia para a noite.
Mas diferente dos outros dias, ela não correu e tentou se esconder assim que o viu. Ela deu a volta nas mesas de estudo e se aproximou.
— Posso falar um pouco com você a sós? — Mirian perguntou fingindo se ocupar em mexer nos cabelos.
— Ouvi dizer que você vai se juntar com o grupo de André e Sarah para o projeto de sua turma… — Mirian comentou distraidamente, olhando ao redor enquanto andavam para um canto escondido entre as estantes.
— Eu vou? — Dário respondeu confuso.
— Ah, me desculpa… — Mirian voltou sua atenção completamente para Dário — Eu só estava me garantindo de que não tinha ninguém ouvindo nossa conversa.
Dário estava nervoso. Talvez ela também tivesse percebido sua identidade.
— Eu queria agradecer por não ter dito nada até agora e pedir que você não conte para ninguém sobre ontem… — Ela disse em um sussurro firme.
Depois de um breve surto mental onde ele se deu conta de que quem estava conversando eram Mirian e Dário e não Docinho e Quindim, Dário conseguiu se situar no que estava acontecendo. Ela deveria ter se dado conta que o Dário Khalil teria percebido quem tinha recebido a gota de luz.
Do ponto de vista dela, os dois conversaram pela primeira vez no dia anterior, e ela ainda não sabia de sua outra identidade. Como só sobraram duas pessoas no prédio, quando ele foi embora, e das duas, apenas Mirian ainda não era um espectro, a conclusão era óbvia. Quanto a ele fingir para ela que não sabia de nada, estava fora de questão. Seria um insulto para a inteligência dos dois.
— Sem problemas. Somos amigos… não somos? — Dário perguntou, um pouco inseguro.
Dário mal pôde ver o sorriso que se abriu no rosto dela, escondido por trás de todo aquele cabelo.
— Sim, claro que somos amigos! — Ela disse com alegria.
Sentindo uma mistura de alívio e felicidade, Dário devolveu um sorriso natural para ela, que ficou completamente rígida, parando de respirar por um instante com as bochechas coradas.
— Você… cof cof… você parece um pouco diferente hoje… — Ela disse com dificuldade, cobrindo a boca com a mão, enquanto desviava o olhar.
Dário não entendeu sobre o que ela se referia até que ficha caiu:
— Ah! Me desculpe! — Ele respirou fundo, recolhendo a aura mágica que o circulava, sentindo um pouco envergonhado — Feitiço de charme… para afastar fãs. Não conte a ninguém.
— Oh… — Mirian ficou surpresa. Ela não esperava que ele realmente fosse fazer alguma coisa para diminuir a concentração de pessoas ao redor deles.
Dário sentiu uma grande satisfação e desejou poder fazer mais. Apesar de os dois estarem perto o suficiente para se tocarem se quisessem apenas esticando o braço, Dário ainda tinha a impressão de que não estavam perto o suficiente.
E se ele contasse para ela, que Quindim era ele? Assim, os dois também poderiam conversar durante os dias…
Ele queria Mirian por perto, mais e mais. Sem pensar no peso e nas consequências, ou sequer decidir conscientemente fazer isso, Dário tomou ação nesse pensamento:
— Mirian… você pode me chamar de…
— Estou interrompendo alguma coisa? — Alguém chamou da porta com duas batidinhas suaves..
Os dois se viraram para trás, pegos de surpresa, onde Ramon — surgindo do nada como um fantasma — estava novamente os olhando com um sorriso desconfiado.