A Última Gota de Escuridão - Capitulo 14
Sentimentos – parte 2
POV: Dário Khalil
Ao contrário de suas expectativas, André e Sarah tinham chegado lá primeiro e conversaram de cabeças juntas com Mirian. André logo percebeu a chegada de Dário e sem quebrar contato visual, cochichou alguma coisa no ouvido da garota, que, pra variar, Dário não conseguiu ouvir. Era interferência mágica, A garota magista estava decidindo o que ele podia ouvir.
Sarah sentou-se ao lado de Mirian, e também começou a encarar Dário no que não poderia ser outra coisa além de um sorriso arrogante de desafio.
— Sabe quem foi que eu peguei jogando olhares na sua direção hoje? — Sarah perguntou para Mirian num sussurro.
— Arg… por favor… não vamos falar disso! — Mirian reclamou, sussurrando de volta com tom de voz exasperado.
— Então, como foi hoje com Ramon? — ela abriu um sorriso que beirava a malícia, deixando Dário ouvir apenas essa pergunta. — Ouvi dizer que você correu atrás dele hoje…
Dário não queria se intrometer na conversa do trio, mas infelizmente, seu autocontrole não era bom suficiente pra isso… e ele também queria saber da resposta.
— O que mais poderia acontecer? — Mirian revirou os olhos.
— Você que me diga, não gosta dele? — Sarah disse, levantando uma sobrancelha.
— Aff… nem pensar! — Mirian refutou com exaspero.
— Como pode ter certeza? Se eu fosse você, não perderia a oportunidade enquanto ele está por baixo! — Sarah atacou.
— Besteira… — Mirian grunhiu, evidentemente confusa com o rumo daquela conversa.
— Eu não entendo por que ele ainda não pagou pra consertarem aquelas cicatrizes. Trabalhando aqui, ele deve receber uma bolada. — André comentou.
— Não é? Um magista de nível médio, solteiro, jovem e com bom emprego é um pecado. E ele tem um ótimo físico, a oportunidade de capturar o partidão é agora, antes da recuperação. Duvido que ele seja feio sem as cicatrizes.
André riu:
— Ouvi dizer que as meninas dos outros cursos até fizeram um bolão sobre quem iria garantir ele antes da recuperação.
— Só sei que quem não gosta dele sou eu. Meio que o santo dele não bate comigo. Ele sempre parece em guarda quando fala comigo e mantém sua distância. Aliás, com todas as garotas. Ele tem aquele sorrisinho no rosto que é de boa, mas não faz amizade com ninguém. — Sarah comentou objetivamente, mas voltou o sorriso malicioso pra Mirian — Mas se você quiser investir nele, eu aprovo.
Dário levantou as orelhas esperando mais da conversa. Ele se sentiu muito nervoso pelo o que quer que Mirian fosse responder.
— Por que está perguntando essas coisas? Não é como se a gente tivesse algo em comum… — Mirian perguntou desconfiada.
— Bom, eu não disse que a pessoa que eu descobri lançando olhares na sua direção foi Ramon… — Sarah riu, ela e André observando Dário pelo canto do olho.
— Shiu… Você está na biblioteca! — Mirian reclamou, empurrando a cabeça de Sarah para baixo, depois perguntou com modesta curiosidade — E aí, quem foi que você viu?
Sarah abriu a boca, indicando que ia falar, mas esperou um momento, deixando o suspense crescer.
— Fala logo! — Mirian pediu já começando a se sentir agoniada. Mesmo que ela não estivesse interessada em ninguém, conversar sobre potenciais parceiros românticos era o entretenimento natural de todos os seres vivos.
— Não vou dizer! — Sarah e André colocaram com as mãos sobre as bocas tentando não rir alto.
— Quem? — Mirian perguntou de novo, fingindo irritação.
Sarah pegou a mão de Mirian e começou a escrever um nome na palma. Mal terminou os traços, ela acenou:
— Oi, Dário!
Nesse meio tempo, Mirian arregalou os olhos com incredulidade, até perceber que Sarah estava acenando para ele. Dário voltou a se mover e entrou na biblioteca, retribuindo o cumprimento da colega, que ainda trocava risinhos com André.
— Aff… você estava só tentando me provocar. — Mirian bufou um pouco também cumprimentando Dário.
— Quem disse? Pois já que você não vai acreditar em mim, não vou dizer quem é. Mas ele gosta de você. Eu consigo ver, tenho sexto sentido para essas coisas — Sarah empinou o nariz.
As palavras de Sarah bateram de frente com Dário, enquanto sentia um redemoinho revirar seu estômago. Sarah não só estava caçando conversa com Mirian, como também estava intencionalmente tentando provocá-lo, sabendo que ele estava ouvindo. Então essas coisas estranhas que sentia quando se aproximava de Mirian significavam gostar? Ele arrastou os pés para fora da biblioteca, dando de cara com Eliezer que o espiava com uma cara contrariada de espanto.
— Você é bem popular com as garotas, não? — Eliezer comentou enquanto os dois caminhavam para a saída. Eliezer com certeza também tinha ouvido a conversa, considerando que ele era um magista de alto nível credenciado pelo Campo de Treinamento, mesmo que não tivesse se tornado um agente numerado das Forças Espectrais.
Parando para pensar até aí, os passos de Dário pararam e ele olhou para Eliezer com intensidade.
— Você vai comentar sobre o que ouviu hoje com alguém? — Dário perguntou enquanto uma certa pressão começou a se acumular entre os dois.
Naquele instante Eliezer sentiu o abismo de diferença entre os poderes dos dois. Aquela pressão não era coisa que um mero magista de alto nível fosse capaz de exercer. Os olhos de Eliezer se comprimiram por um momento. Ele sabia muito bem a que tipo de alguém Dário estava se referindo. Alguém tipo Gabriel.
E mesmo sentindo a ameaça velada o atacando de frente, Eliezer apenas devolveu um sorriso despreocupado para Dário, o primeiro que conseguiu oferecer desde que tinham se conhecido.
— Essa é a primeira vez que você age como um ser humano… estou bem curioso para descobrir se a especulação de Sarah é verdade… — Eliezer deu meia volta e continuou andando — E não precisa se preocupar, se você não me tratar como um, eu não vou ser seu inimigo… nem delas… seria triste ver essas meninas serem linchadas por uma multidão de fãs indignadas com a profanação do ídolo delas.
A cabeça de Dário ficou uma bagunça depois de ouvir as últimas palavras de Eliezer. Começou a pensar nas consequências do que estava fazendo e sentindo.
Frustrado com aquela situação nova e desconhecida, Dário saiu do Instituto, parecendo um cubo de gelo. Tão frustrado que estava, só veio perceber que Mirian tinha se sentado ao lado do portão de saída quando estava frente a frente com ela.
Mirian ainda estava com a mesma postura distraída de sempre e parecia ter corrido um pouco, olhando para o pôr do sol enquanto balançava uma perna sobre a outra, o queixo sobre a mão. Era estranho vê-la ali, quando ela costumava esperar na biblioteca até o campus esvaziar.
Dário respirou fundo e tentou se concentrar o melhor que pôde. Não dava para usar as habilidades comunicacionais de um estudante de pré escola na frente do instituto, nem queria tratá-la como uma qualquer usando roteiros programados.
Dessa vez, ela não tinha se surpreendido com sua aproximação, tendo-o visto chegar de longe.
— Não estava na biblioteca até agora a pouco? Aconteceu alguma coisa em que eu possa ajudar? — Ele perguntou, bem devagar, tomando cuidado extra para não engolir ou embolar nenhuma palavra.
— Não, não… — ela respondeu desviando o olhar enquanto mexia no cabelo — Só estou esperando aqui.
— Se estiver tudo bem, eu poderia lhe oferecer uma carona — Dário sentiu uma crescente ansiedade.
Mirian finalmente o fitou. Havia uma certa inquietação na postura dela, mas Dário não fazia ideia do que ela estava pensando, sem poder ver sua expressão.
Depois de engolir em seco algumas vezes, ela respondeu, um pouco acanhada:
— Eu iria adorar, mas hoje não vai ser possível… — o tom de arrependimento era óbvio em sua voz.
— Não tem problema — a expressão neutra de Dário era a única coisa visível em seu rosto.
Quando Dário pensou em dizer mais alguma coisa, Mirian se levantou com um salto.
— Desculpa. Eu tenho que ir agora! — ela se despediu apressadamente e parecendo um gato saiu correndo se jogando na frente de um aerocarro que ia saindo lentamente do estacionamento de funcionários, antes de alçar voo.
O aerocarro freou de uma vez, e sem perguntar se o motorista autorizava ou não, Mirian abriu a porta do passageiro e entrou no veículo.
Depois de um minuto inteiro, enquanto Dário esperou que Mirian fosse sair da mesma forma absurda que entrou, o aerocarro deu partida e foi embora com ela.
Dário sentiu o estômago afundar ao reconhecer o motorista.
— Ramon outra vez… — ele rangeu os dentes.
Uma sensação de incapacidade, como se não importasse o que fizesse, Mirian ainda estaria fora de seu alcance brotou nele. A frustração era tamanha, que apareceu em seu rosto.
Depois de relembrar as palavras de Sarah, ele tomou uma decisão.
Dário precisava confirmar e entender esses sentimentos. Lidar com eles sozinho não iria funcionar.