A Última Gota de Escuridão - Capitulo 15
Habilidade Inata
POV: Mirian Tristan
— Se eu não te conhecesse, eu poderia jurar que você é algum tipo de stalker… — Ramon caçoou sorridente, girando o volante.
— Por que você sente a necessidade de ser tão irritante? — Mirian revirou os olhos e eles acabaram girando na direção de Dário, que ainda estava parado no mesmo lugar, olhando na direção dela.
Havia uma forte aura de frustração e confusão ao redor dele. Mirian tinha que admitir que o nome que de Sarah tinha escrito discretamente a deixara desconcertada. Seria absurdo demais acreditar que alguém com tantas opções como Dário estaria interessado por ela e isso a deixou perturbada.
— Será que você não preferiria ir embora com ele? — Ramon disse, seguindo a linha do olhar de Mirian. Apesar do sorriso em seus olhos, sua voz fria pingava com sarcasmo.
Mirian respirou fundo tentando se acalmar. Ramon tinha esse talento especial de fazer com que ela saísse do sério e ela não podia cair na dele. Não naquele momento.
Receber uma gota de luz foi uma dádiva, mas ainda havia muita coisa que ela precisava entender naquela história.
Colher uma gota de luz… Isso era sequer possível?
Tudo o que Mirian mais queria na vida era viver em paz com a família sem ter que acordar a noite depois de ter pesadelos horríveis sobre como seria executada por se tornar uma espectro da escuridão.
— Qual é a sua, a final?
— Você vai precisar ser um pouquinho mais específica que isso… — Ramon tamborilou os dedos no volante enquanto pegava a saída principal para a aerolinha.
Mirian ficou furiosa.
Naquele instante, tudo ao redor dos dois escureceu. Como se ambos tivessem sido teletransportados de volta para aquele mundo vazio. Ramon olhou ao redor e as únicas coisas que conseguia ver eram ele mesmo e Miran. Ele sabia que ainda estava sentado no aerocarro no mundo real, mas fora isso, não dava para sentir mais nada.
— Desde quando você consegue fazer algo assim? — Ele perguntou, distraído ao observar a natureza daquela magia, nem um pouco preocupado com o que pudesse acontecer.
Mirian se deu conta do que estava fazendo e respirou fundo. Massageando as têmporas, as trevas retrocederam e os dois se viram novamente dentro do aerocarro. Ela se abraçou e baixou a cabeça. Mirian estava grata por ter perdido o controle na frente de Ramon.
— Me desculpe… Você sabe que eu posso replicar qualquer tipo de magia que eu tenha presenciado…
— Bem, agora que você tem os dois tipos de mana, você pode muito bem virar a rainha da cocada preta…
— Chega, Ramon! — Miriam sussurrou. Não havia mais raiva em sua voz, apenas cansaço — Eu mereço uma explicação! Você não pode continuar me tratando como se eu fosse incapaz de entender o que está acontecendo!
Mirian respirou fundo antes de continuar:
— Você sabia o que ia acontecer! E você fez de propósito! Me conduziu a perder o controle, por que você sabia que a minha mana faria uma gota de luz cair! Como isso é possível? Por que fez aquilo? Por que agora? Por que só agora?
Ramon parou de tamborilar no volante e não havia mais nenhum sorriso dançando nos olhos dele. Querendo ou não, ele sabia que os dois iriam acabar tendo que ter aquela conversa.
— Como você sabia o que iria acontecer? — Mirian insistiu, depois de um tempo em silêncio — Como aquilo foi possível?
— Eu apenas… tive um palpite… — Ramon limpou a garganta com dificuldade, mas respondeu para variar.
Mirian olhou para as pontas dos dedos, sentindo ambas luz e escuridão correrem por suas veias.
— Fui eu? A minha mana que chamou a gota de luz?
— … Sim. habilidade inata.
— O que é isso?
— Todo espectro de nível superior tem uma habilidade inata. Algo que ninguém mais consegue fazer.
— Meu poder da escuridão também é de nível superior? — Mirian deixou o queixo cair.
Mirian se sentiu ainda mais atordoada e ao mesmo tempo perdida. Durante todo aquele tempo, ela tinha a capacidade de chamar por uma gota de luz e ele sabia, mas não disse nada…
Quando saíram da dimensão vasia, ele já sabia?
— Você sabia que eu poderia me tornar um espectro de luz à vontade… — Não foi uma pergunta — Como você soube sobre minha habilidade inata primeiro que eu?
Ramon permaneceu calado.
— Você deixou que eu passasse por todo aquele sofrimento durante os últimos meses de propósito?
Só de pensar nisso, Mirian estava se sentindo nauseada e traída. Mirian tirou os óculos de proteção e olhou diretamente para Ramon.
Ramon ficou em choque e encarou Mirian de volta com os olhos arregalados. Ele claramente não estava esperando por isso. Mirian respirou fundo, tentando conter suas lágrimas e praticamente cuspiu as palavras entre os dentes cerrados:
— Você mentiu para mim!
As mãos de Ramon apertaram contra o volante e o olhar dele ficou afiado, como se tivesse sido ofendido.
— Eu nunca, nunca menti para você.
Mirian se surpreendeu que, de tudo, era com isso que ele se importava.
— Mas omitiu. Qual é a diferença?
— Você pediu — Ele disse, seco.
Mirian cobriu o rosto com as mãos e esfregou com força. Era esse tipo de coisa que a deixava confusa sobre confiar ou não em Ramon. Na época, ela pediu para ele não contar algo que pudesse colocá-la em risco, o que não era o caso naquela situação. De qualquer forma, tudo isso era irrelevante. Ela tinha que entrar no assunto principal.
— Então agora eu quero saber. Eu ainda estou em perigo? — Mirian olhou diretamente para Ramon, que parecia concentrado no trânsito, mas ainda tinha os punhos apertados com força contra o volante.
Os olhos de Ramon estreitaram.
— Sim — Ele respondeu depois de pensar um pouco, voltando sua atenção para o lado de fora, olhando para o começo do anoitecer.
— Como? Por que isso?
Mais uma vez, Ramon não respondeu de imediato, continuando apenas olhando para o lado de fora. Depois de um tempo, ele disse:
— Você já notou? O céu está mudando…
Mirian estranhou a mudança de assunto, mas olhou pro céu mesmo assim. Ainda havia vários vestígios de gotas de luz pairando no ar, por conta dos últimos raios de sol e bem mais além delas, as finas rachaduras quase transparentes podiam ser notadas por aqueles que tinham olhos bons o suficiente.
— O que você quer dizer? — Mirian perguntou, sem entender o ponto de Ramon.
— Quero dizer que… você precisa ser mais forte.
Mirian respirou fundo.
— O que força tem a ver com tudo isso? Se o céu está mudando, problema de quem se importa! Quem for mais alto que o segure. Eu só quero viver em paz com as pessoas que eu gosto. Todo o resto não é da minha conta. Mesmo assim, ela sentiu um mal pressentimento, e se apertou com mais força contra o banco do aero carro.
— Você viu algo nas sinas recentemente?
— O que isso quer dizer?
— Como as visões que tinha na dimensão vazia.
Mirian se lembrou do sonho que teve logo após receber a gota de luz e o contou para Ramon, que escutou em silêncio.
— Então? O que significa? — Ele continuou calado — Por favor, me explique o que eu preciso saber! Eu não quero ser uma marionete que você usa para brincar controlando os movimentos da minha vida!
— Eu nunca brinquei com você — Ramon fechou a cara. Parecia que também tinha ficado ofendido com isso.
— Sei…
Havia uma barreira separando os dois. Mirian não falou de novo até eles chegarem na entrada de sua casa. Ele estava chateado e Mirian se odiou por se sentir culpada por isso.
— Ramon… eu…
— Está tudo bem.
— Será que poderia me fazer um favor?
— Se for algo que eu puder fazer, darei o meu melhor…
— Será que você poderia não interferir mais na minha vida? Eu não acho que estou em condições de te ver por um tempo…
Mirian baixou a cabeça, olhando para os dedos enquanto os remexia. Era egoista depois de toda ajuda que recebeu, mas ela não queria mais ter que lidar com ele.
Ramon a olhou intensamente. Havia uma forte aura de melancolia emanando naquele instante, como uma criança perdida que não sabia o que fazer. Mas no fim ele concordou.
— Como quiser…
Mirian desceu do carro e foi para casa se sentindo igualmente triste e perdida.
Nunca houve nada entre nós dois… ela repetiu para si mesma.
Se ele ao menos explicasse as coisas…
Mirian arrastou os pés para o quarto e se jogou na cama. Estava cansada e estressada demais. Ela sentia que, se quisesse, poderia passar o resto da vida sem dormir, mas nada curava uma mente exausta como de uma boa noite de sono.
No que Mirian dormiu, seus sonhos mais uma vez formaram um eco com aquela silhueta enevoada, um corpo alto que se movia com languidez.
Havia um ar de desprezo e superioridade ao redor dele, como se tudo fosse apenas um detalhe insignificante.
A silhueta estava irritada com alguma coisa. Estranhamente, ele segurava uma partícula de luz na mão… o que quer que tenha tentado fazer com ela não tinha dado certo.
Mirian o observou atentamente. Até o dia anterior, ela poderia jurar que era impossível qualquer um controlar as gotas de luz, mas aquela entidade também parecia ter uma habilidade similar à dela.
A silhueta se virou e saiu de uma vez, completamente furiosa. Nesse instante, Mirian acordou.
Sem perceber, sua super percepção tinha se ativado sozinha enquanto dormia e ela pôde sentir a presença de Quindim pousando silenciosamente na sua varanda.