A Última Gota de Escuridão - Capitulo 16
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Fogos de Artifício e Gritos Internos – parte 1
POV: Dário Khalil
Dário saltou 2 metros de altura e quase fugiu voando de susto quando a porta da varanda se abriu sem nenhum sinal. Mirian o olhou com o rosto amassado e o cabelo virado para todas as direções. Ela estava obviamente dormindo até aquele momento.
— Cara… eu estou quebrada! — ela bocejou enquanto esticava os braços — Eu sei que dormir não importa muito para os espectros de alto nível, mas você vai acabar estraçalhando meu horário biológico vindo aqui de madrugada.
— Ah… perdão… Vou embora…
Dário balbuciou sem saber o que fazer com as mãos enquanto se repreendeu mentalmente por ter cometido um erro tão básico. Claro que ele tinha que ser inconveniente e estragar tudo. O que Mirian iria pensar dele naquela situação?
— Relaxa, tá tudo bem… — Mirian balançou a mão distraidamente e bocejou novamente, voltando para dentro — Eu estava mesmo precisando de alguém pra conversar…
Dário pousou novamente, sem se decidir sobre o que fazer.
— Pode ficar a vontade… — Mirian disse, despreocupadamente, enquanto arrumava a nuvem de cabelos em um coque — Vou lá embaixo um instante pagar alguma coisa pra beliscar… meu estoque aqui já acabou depois da noite passada.
Antes que Dário pudesse dizer qualquer coisa, ela abriu a porta e desceu as escadas arrastando os pés.
Sem saber o que fazer, ele permaneceu na porta, olhando para o quarto dela. Apesar de estar completamente escuro, ele pode ver que era bem espaçoso e dividido em 3 áreas diferentes. Havia uma grande escrivaninha com um computador e várias almofadas gigantescas espalhadas pelo chão ao redor de uma mesinha redonda e em cima de um tapete felpudo. Do outro lado ficava uma grande cama de dossel com pesadas cortinas de veludo azul marinho com pontos brilhantes e ao fundo um closet com penteadeira e a porta para o que parecia ser um banheiro particular. Havia até mesmo vários pôsteres de Lovestars na parede, ao lado do computador, especificamente posters de Dário Khalil.
Antes que Dário pudesse se sentir desconcertado, a porta do quarto se reabriu e Mirian entrou carregando uma bandeja.
— Por que ainda está parado aí? Eu não vou ficar do lado de fora hoje… não está chovendo.
Mirian colocou a bandeja sobre a mesinha redonda e se sentou no chão, em cima se uma das almofadas.
Vendo que Dário ainda estava sem reação, ela franziu as sobrancelhas.
— Oh, você está incomodado com o escuro? — Mirian perguntou levantando a mão e mana saiu de seus dedos, ligando o interruptor de várias pequenas luzes de led espalhadas pelo ambiente. — Que tal? Sou esperta, não sou? Um dia e eu já aprendi um pouco de manipulação cinética.
Dário fitou os olhos brilhantes da garota, que se gabava com o nariz empinado e quando deu por si, já estava sentado em uma almofada em frente a ela. De cara, ele percebeu que o controle preciso que ela tinha demonstrado não era coisa que poderia ser aprendido em um dia, mas não contestou. Pelo contrário, tal detalhe lhe escapou completamente da mente apesar de ter sido registrado.
— Você parece mais distraído do que o normal hoje. Aconteceu alguma coisa? — Mirian pigarreou, desconcertada com a falta de resposta dele.
— Oh… ah… — Dário desviou o olhar ao se dar conta do que estava fazendo — Trouxe presente. Ajuda. — Ele se apressou, puxando uma pilha de impressões de dentro do casaco.
Mirian estendeu a mão para receber as impressões com uma sobrancelha erguida. Ao mesmo tempo, um pequeno abajur de leitura veio voando da escrivaninha para que ela pudesse ver o que tinha escrito.
— Isso é… — Mirian arregalou os olhos. — Métodos de treinamento e encantamentos exclusivos das Forças Espectrais exclusivos para nível superior… Você tem certeza de que está tudo bem eu ficar com isso?
Dário sacudiu os ombros, sem se importar realmente com qualquer consequência.
— Decora, depois queima. Ninguém vai saber.
Mirian respirou fundo e cobriu a boca com a mão, pensando em coisas que Dário não conseguia imaginar.
— Eu confesso que estou bastante surpresa… — Ela sussurrou com um tom mais calmo — Deve ter sido arriscado… Me desculpe. Não esperava que você fosse ir tão longe.
— Não… fácil de pegar. Faria de novo… — Dário se apressou, e depois cobriu o rosto com as mãos. Estava envergonhado com a sua dificuldade.
— Por que que você se importa tanto? — Mirian levantou uma sobrancelha parecendo um pouco contrariada, sem se importar nem um pouco com a forma que ele falava.
Distraído mais uma vez com os olhos da garota, ele se lembrou das conversas que ouviu durante a tarde e sentiu o rosto esquentar, mas conseguiu se acalmar. Por que ele iria correr riscos para ajudar ela?
— Vi você hoje. Aerocarro. Rapaz das cicatrizes.
— Oh, e você conseguiu me reconhecer? — Mirian arregalou os olhos com surpresa e se distraiu de seus pensamentos. — Você estava andando por aí com sua forma civil? Pode falar comigo diretamente na próxima vez…
— Não! — Dário a interrompeu.
Mirian se sentiu sem jeito com a forma como ele a cortou.
— Ok… desculpe. Eu não estava tentando descobrir sua identidade, nem nada do tipo… — Ela baixou os olhos para a bandeja e começou a mordiscar os cookies que tinha trazido.
Encabulado, Dário também baixou a cabeça. Enquanto não olhava pra mais nada além de suas mãos, um cookie entrou em seu campo de visão. Mirian sorria encorajadoramente, sem parecer ter se importado com o ocorrido. Dário recebeu e também começou a mordiscá-lo. Ele tinha que entender o que era aquilo que sentia por ela, mas de repente, as consequências de tudo aquilo invadiram sua mente.
Uma das regras que ele tinha que seguir é que ninguém poderia descobrir que Dário e Número 1 eram a mesma pessoa até Gabriel decidir o momento certo. O que aconteceria se ela descobrisse quem ele é? Havia um protocolo para situações assim. E mesmo que conseguisse burlar os comandos, o que aconteceria se descobrissem que ela estava envolvida com ele? Já estavam surgindo conversas no Instituto, e os dois só tinham se falado por um momento na biblioteca. O que Gabriel não o obrigaria a fazer caso ouvisse algo sobre o que estava acontecendo?
Com mais dificuldade do que o normal, e isso levando em consideração o quão difícil era para Dário formular sentenças normais, tentou entrar no assunto como quem não quer nada:
— Docinho… — ele começou, mas travou completamente depois disso.
— Hum? — Mirian perguntou, demonstrando sua curiosidade pelo que ele tinha a dizer.
— Você… triste… se eu nunca mais vir… vir aqui?
O rosto de Mirian franziu com força pela primeira vez aquela noite.
— Eu sabia. Você entrou em problemas por que me trouxe isso não é? — Ela acusou.
— Não, não! Eu só… queria saber…
Dessa vez, Mirian ficou confusa sem entender onde ele queria chegar.
— Por que está me perguntando isso? Você pretende não aparecer mais por aqui?
Dário baixou a cabeça mais ainda. Ele tinha que reconhecer que estava assustado de uma forma completamente diferente. Tão assustado que estava, ele respirou fundo e falou com um tom frio e decidido.
— Eu sou perigoso. Você não tem medo de ter alguém como eu por perto? — Ele informou em um raro momento de eloquência.
— Pensei que já tínhamos passado dessa pergunta no primeiro dia? — Mirian quase riu.
— Eu sou alguém capaz de demolir essa casa com um estalar de dedos.
Dessa vez, Mirian parou de rir. Ele estava falando sério. Mas em vez de assustada, ela sentiu raiva:
— Você pretende fazer isso? — Mirian perguntou com igual frieza no tom de voz. Naquele momento, Dário teve certeza de que se respondesse sim, algo assustador aconteceria.
— Eu poderia, se me fosse mandado… — Dário respondeu mesmo assim. Ele tinha que deixar claro para ela.
— Você está me ameaçando? — Ela franziu os olhos, enquanto eles brilharam com mais intensidade do que nunca.
Dário engoliu em seco. Mesmo assim decidiu continuar. Seria mais fácil se ela o odiasse e o mandasse embora.
— Não estou. Estou avisando. Você deveria me temer e nunca mais querer me ver. Apenas diga, e eu nunca mais apareço na…
— Chega!
Mirian disse batendo com força na mesa. A jarra de achocolatado até fez sérias ameaças de entornar, respingando um pouco sobre o prato de cookies. Dário ficou tão chocado com o rompante da garota que deu para ouvir seus dentes batendo uns contra os outros quando fechou sua boca com força. Ele esperou quieto que Mirian tomasse a fala:
— Se você não quer mais aparecer, não apareça! Por que você está jogando as responsabilidades da sua escolha pra mim? — Mirian reclamou evidentemente irritada. Ela tinha facilmente percebido as intenções dele, mesmo assim, pegou a pilha de impressões e as jogou de volta para Dário — Nós não devemos nada um ao outro. Não invente desculpas para me forçar a decidir o que você não quer.
— Calma, não foi… — Dário levantou as duas mãos tentando se desculpar, mas ele só piorou as coisas.
— Eu estou calma! Não se atreva a mandar eu ficar calma! Nunca, na história da calma, alguém se acalmou depois de pedirem por calma. — Ela disse, fazendo com que um arrepio escorresse por suas costas. Mas então ela realmente se acalmou, voltou a se sentar normalmente e respirou fundo algumas vezes antes de continuar — Eu não sou uma garotinha ingênua que acredita em qualquer um, principalmente em uma ameaça em potencial para mim e minha família. Você pode achar que é besteira da minha parte, mas eu acredito é no meu julgamento e não em você. Eu te deixei entrar aqui, foi minha decisão. Você que tome as suas.
— Me desculpe… — Dário estava completamente desnorteado.
— Não se desculpe… — Mirian disse, massageando as têmporas — Francamente, você tem que trabalhar essa sua baixa autoestima. Até me deu nos nervos.
Dário se encolheu mais ainda, sem ter coragem de falar mais nada e por um tempo apenas o som dos dois mastigando pôde ser ouvido.
— Por que essa coisa sobre medo novo? — Mirian decidiu perguntar.
— Eu… eu… assustado… — Dário respondeu voltou ao seu bom e velho eu inarticulado. — Se… se… descobrirem, v-você… em perigo.
— Por causa desses arquivos? — Mirian estranhou.
Dário respirou fundo e tentou explicar lentamente o que tinha que ser explicado.
— Não, irrelevante. P-por causa de mim… N-não deveria estar a-aqui, falando com outra pessoa. Proibido. Você seria minha fraqueza. E e-eu… eu não posso ter… fraquezas.
Mirian o olhou com atenção, pacientemente esperando que Dário terminasse suas palavras. Ela estava ainda um pouco relutante, ele podia ver que pensava bastante. Até que os olhos de Mirian pousaram na estampa com o número 01 prateado no peito esquerdo do uniforme dele, parcialmente coberta pelo casaco que ele usava. Era a primeira vez que os dois se falavam sob a meia luz e ela finalmente reparou naquele mínimo detalhe. Mirian arfou se colocando de pé.
— O que? O que foi? — Dário perguntou igualmente confuso com a reação da garota, também se colocando de pé e se aproximando com as mãos estendidas, preparado para acudi-la a qualquer momento, se necessário.
— Não… eu apenas… — Mirian não conseguia colocar seus pensamentos em palavras, como se os dois tivessem trocado de lugar. — Por acaso, você não vestiu o uniforme errado hoje não, né?
Dário baixou os olhos para o uniforme e observou atentamente suas roupas.
— Não. Tudo certo. Algum problema?
— Não, nenhum.