A Última Gota de Escuridão - Capitulo 17

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Se – parte 1

POV: Mirian Tristan

A silhueta da mulher continuava imóvel, deitada sobre a maca, ainda parada na mesma posição. As chamas negras faiscavam lentamente cobrindo todo o corpo dela como um manto.

Mais uma vez, o vulto sombrio de névoa apareceu do nada e se aproximou dela, a observando de cima, sem qualquer emoção. A olhava como quem olha para algo irrelevante, mas havia uma certa obsessão na forma como não desviava o olhar. O vulto disse para a mulher:

— Finalmente vamos ter a chance de ver as estrelas cadentes. Já tenho até uma marionete perfeita. Logo, logo…

Mirian acordou assustada. A primeira coisa que viu foi o próprio corpo completamente coberto por chamas negras como as que vira no vulto adormecido. Ela sacudiu os braços desesperadamente tentando apagar as chamas e não conseguiu se acalmar até ter voltado ao normal.

Já era estressante o suficiente o medo constante de perder o controle de sua magia em público, e ainda mais esses sonhos agora. Depois de passado o susto, ela olhou para sua palma e acendeu uma versão menor das chamas, observando calmamente como aquilo era possível.

— O que é isso afinal… — Mirian sussurrou para si mesma ao replicar as chamas e sentir o que elas queimavam. Eram como as da mulher misteriosa.

Mirian estava certa que testemunhava pessoas reais nesses sonhos. Logo, a magia também era real. As informações que ela tinha coletado passivamente mostravam que a estrutura das chamas da mulher inconsciente eram diferentes das usadas pela silhueta e também diferentes das que tinha visto durante o incêndio.

Mirian tentou relembrar aquele dia e imediatamente uma projeção 3d foi feita em sua mente.

Depois disso, foi muito fácil replicar o mesmo. A faísca em sua mão mudou completamente. Ainda era uma espécie de chama negra, mas Mirian sabia que era algo exponencialmente diferente.

— Então é por isso… — Mirian concluiu sentindo a chama queimar mana de luz e de escuridão ao mesmo tempo.

 Depois de um tempo contemplando aquele fenômeno, Mirian abanou a mão, apagando-o de novo. Não conseguia decidir se devia ou não ignorar essas coisas. Ainda mais depois da profecia meia boca de Ramon sobre o céu estar mudando.

Não é da minha conta! — Mirian pensou, jogando os sonhos cada vez mais recorrentes para a última gaveta de suas memórias.

Afinal, o vulto de névoa era sinistro demais pra lhe deixar tranquila. Aquela tinha sido a primeira vez que tinha ouvido ele falar alguma coisa e não parecia ser nada bom.

E o que mais ela poderia fazer sobre isso? Nada. Ela ainda não sentia que podia confiar completamente em Ramon. E quanto a Quindim… Bom, Quindim era Número 01, não era? E mesmo antes disso, ela já sabia que não poderia confiar nele, sendo um agente numerado. Menos, mal, já que ele tinha desaparecido desde o beijo que tinham trocado. O que quer que o assustasse tanto também era algo além de seu controle.

Mirian passou várias noites em claro depois de ter pesadelos e crises de pânico imaginando que alguém como ele, ou ele mesmo iria aparecer em sua casa na voadora.

Depois de interagir o pouco que pôde com ele, Mirian não conseguia associar a imagem de um assassino a sangue frio que aparecia na tv com o rapaz inocente e inseguro que ele tinha se mostrado.

Não era uma questão de acreditar, mas saber. O Número 01 que ela conhecia não era alguém capaz de fazer o que ele fazia quando aparecia nas notícias. Mas ele certamente tinha feito, e isso não fazia sentido.

Mirian se levantou em meio a um longo suspiro e tomou um longo banho enquanto esperava o coração parar de palpitar. Quando sentou na frente da penteadeira, viu apenas o reflexo esmorecido e com olheiras de si mesma.

Não adiantava tentar entender tudo aquilo sem informações. Só lhe restava a opção de seguir em frente.

Para todos os outros, a temporada das chuvas estava chegando ao fim. Terremotos ocasionais ainda importunavam a cidade, mas todos já estavam se acostumando. Orchestra já tinha chorado o que tinha de chorar e todos deram a volta por cima.

Mirian passava os dias repetindo a mesma rotina e sempre que podia: estudava na biblioteca de dia e fugia escondida para o mesmo prédio abandonado, onde praticava encantamentos para controlar seus poderes.

As informações caóticas na sua mente eram ótimas para aprender rápido, diga-se de passagem. Mirian só precisou de uma lida rápida para decorar todo o conteúdo no material que Número 1 tinha lhe trazido antes de destruir as provas. Restava apenas conseguir experiência, essa era a parte difícil.

Enquanto Número 01 parecia ter sumido das notícias sem razão aparente, ataques de espectros da escuridão estavam cada vez mais frequentes. E junto com eles, o mesmo espectro misterioso que também usava duas fontes de mana, Nox, aparecia para resgatar pessoas e controlar os danos. Por mais que as Forças Espectrais tentassem encobrir, algumas pessoas começaram a notar. Ele não era um terrorista maligno. 

Já no instituto, o que tinha mudado tinha sido Ramon, que não tinha voltado a importuná-la, como prometido. Ele mal aparecia para cumprir suas funções de assistente. Mirian não entendia como alguém podia continuar com o emprego assim.

Com isso, as coisas pareciam estar se movendo lentamente.

Tudo o que Mirian precisava fazer era evitar agentes, espectros da escuridão, viver normalmente, aproveitar a vista de seus ídolos preferidos durante suas visitas à biblioteca… e praticar mais. Apenas praticando ela poderia distrair a mente de todos aqueles pesadelos, visões e problemas e garantir que não iria perder o controle de sua magia em público.

Falando em ídolos, Dário quem estava a evitando por algum motivo, E pensar que ele mesmo tinha dito que queria ser amigo. Sem pensar demais, Mirian se jogou sobre sua mesa quando chegou numa quarta feira qualquer e ficou lá deitada esperando o fim do mundo ou o fim do turno, o que viesse primeiro, para pedir o almoço junto com André.

Os alunos entravam e saiam em grupos conversando animadamente. Sarah apareceu, também com um sorriso cheio de dentes enquanto trocava algumas ideias com os colegas, mas o sorriso travou e recedeu lentamente quando viu Mirian jogada sobre a mesa parecendo um menor abandonado.

— Garota, você está com a aparência péssima! — ela disse depois de hesitar um instante para se aproximar, mesmo sem conseguir ver diretamente o rosto da amiga.

Mirian apenas grunhiu sem desencostar a cabeça do tampo da mesa.

— Por acaso você passou outra noite em claro pensando em garotos? — Sarah tentou brincar sentando-se calmamente ao lado da amiga.

— Com certeza, os namorados imaginários dela ficariam decepcionados caso ela não desse atenção a eles — outra pessoa ouviu e entrou na conversa.

— Dandara! Não está ajudando… — Sarah ralhou apertando os olhos na direção da colega.

Dandara revirou os olhos enquanto jogava uma mecha dos cabelos dourados para trás.

— Eu não estava tentando ajudar.

— Então o que você quer, vossa alteza? — Mirian levantou a cabeça um pouco impaciente.

Dandara apertou os lábios e parecia querer responder, mas apenas virou de costas e se sentou na mesa mais distante da biblioteca.

Mirian e Sarah se olharam e riram. Sarah sussurrou aliviada. 

— Do que vocês estão falando? — André se aproximou ao ver a animação de Sarah.

— Cara, você nem imagina! — Sarah brincou, jogando suspense no ar, mas sem dar nenhuma resposta.

Os três começaram a bater papo como se não houvesse mais amanhã.

Mirian se recostou novamente sobre a mesa, olhando distraidamente para a algazarra.

— Melhor? — Sarah sussurrou também parando apenas para olhar os habitantes da biblioteca.

Mirian assentiu.

— Eu só estou cansada… — Com as palmas da mão aberta, ela esfregou o rosto com força. 

O capuz de seu casaco virou com o movimento deixando os cabelos livres.

Sarah arregalou os olhos e balbuciou um pouco pensando em comentar algo, mas no fim não disse nada.

— Você parece diferente esses dias, aconteceu alguma coisa? — Sarah questionou, levantando a mão para afagar as costas de Mirian, como Mirian costumava fazer quando eram mais novas.

— Eu só… não ando conseguindo dormir bem… — Mirian explicou.

— Pesadelos de novo… — André explicou baixinho do outro lado de Mirian.

Era conhecimento de ambos que Mirian passara a ter pesadelos constantes desde que tinha voltado. Mesmo que tivesse conseguido se recuperar o suficiente para interagir um pouco, ainda tinha um longo caminho a percorrer.

— Tá tudo bem, — Mirian tentou tranquilizá-los com um sorriso vazio — Eles tem estado bem menos assustadores… — Já que o maior deles são apenas ecos hoje em dia, ela completou mentalmente.

POV: Dário Khalil

No meio da algazarra, ninguém reparou nos punhos de Dário se apertando com força debaixo de sua mesa. Por mais que tivesse decidido se afastar, ele não conseguia deixar de se preocupar. E ter a capacidade de escutar o que o trio sussurrava não ajudava muito.

Apesar de saber que havia alguma coisa que a assustava, Dário não sabia o que podia ser perturbador o suficiente para causar pesadelos. Mirian tinha recebido o espectro de luz a pouco tempo. Um acidente poderia acontecer se ela não conseguisse controlar a magia por conta de alterações emocionais. O primeiro ano era o mais vulnerável de todo mundo.

— Eles são mesmo bem animados… — Eliezer comentou ao lado de Dário.

Dário não respondeu, ainda olhando casualmente para o trio. Eliezer balançou a cabeça com um suspiro, acostumado com as atitudes do companheiro. Seguindo a linha do olhar de Dário, ele comentou:

— Ela está desconfortável, não está? Eu já reparei que ela detesta estar no meio de um monte de gente… 

Dessa vez, Dário enrijeceu. Eliezer deixou escapar um sorriso pelo canto da boca e tamborilou o indicador no tampo da mesa.

— Pena que você não se interessa o suficiente para ajudar… tsc, tsc…

Os lábios de Dário se abriram por um instante, mas ele logo os fechou de novo sem dizer nada. Foi naquele instante que a voz alta de Dandara soou pedindo silêncio do meio da algazarra:

— Eu disse que já basta! Cho! Cho! Vocês estão atrapalhando a minha preciosa concentração — todos se calaram imediatamente.

A Biblioteca sempre virava uma algazarra durante os intervalos. Dário olhou para Dandara que voltou a se sentar, se fazendo de desentendida. Ela conseguia mesmo criar um espetáculo e adorava baderna. Não era dela pedir por silêncio… 

— Outra especialista em fingir… — Eliezer riu.

Dandara estava com os olhos arregalados para os últimos que ainda insistiam em fazer barulho, mas logo voltou a se sentar com o queixo erguido e as pernas cruzadas. Dário voltou sua atenção na direção de Mirian. Ela suspirou, aparentemente aliviada e relaxou um pouco a postura tensa. Era a primeira vez que ele a via com o capuz abaixado durante o dia.

Sentindo o próprio rosto esquentar, Dário voltou sua atenção para o seu pequeno projeto acadêmico. Afinal, ele tinha que mostrar resultados. Excelentes resultados.

O dia passou bem lentamente. Mirian o tempo todo olhava para a janela, enquanto Dário olhava para Mirian. Isso não passou despercebido. Aparentemente, as únicas pessoas que ainda estavam sem nenhuma noção quanto ao interesse do rapaz eram os dois principais envolvidos.

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Ambientação Futurista, Controle Mental, Distopia, Dois Protagonistas, Identidade Secreta, Magitecnologia, Múltiplas Identidades, Pós-Apocalíptico, Protagonista Anti-Herói, Protagonista Overpower, Protagonista Subestimado, romance, Transtorno Pós Traumático

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