A Última Gota de Escuridão - Capitulo 18
Do Outro Lado da Luz – Parte 1
POV: Mirian Tristan
Mirian se desequilibrou e observou os estilhaços da janela crescerem à sua frente. Ao mesmo tempo, Dário reagiu, agarrou-a pela cintura e a puxou para perto de si, forçando sua cabeça para baixo enquanto a envolvia com os braços. Ainda no mesmo instante, uma barreira emanou usando os dois como centro e os envolveu protegendo-os da onda de impacto e dos estilhaços de vidro.
Mirian sentiu como se o mundo estivesse virando de cabeça para baixo enquanto seus ouvidos zumbiam com força ainda sofrendo com o impacto da explosão, mesmo com a proteção de Dário.
Talvez estivesse muito pior se ela não estivesse usando os tampões de ouvido de sempre. Com a visão girando, ela olhou para Dário, preocupada que ele tivesse se machucado.
Ele já estava de pé e olhava para o lado de fora com uma expressão séria e ameaçadora. Mirian nunca tinha visto ele tão alarmado assim.
Mesmo no show que tivera a sorte de presenciar, ela lembrava que ele estava bem calmo na ocasião… considerando a magnitude dos primeiros terremotos.
Mirian lembrava claramente quando os olhos dos dois tinham se encontrado quando a gota da escuridão caiu. Ele também tinha olhado diretamente para aquele fenômeno que mais ninguém tinha visto. Um detalhe tão importante tinha escapado completamente da memória de Mirian.
Se fosse esse o caso, Sarah estava errada. Dário ficava olhando para ela, não por interesse, mas por que ele a tinha reconhecido? Por acaso ele suspeitava dela? Isso era perigoso. Enquanto sua cabeça girava, Mirian prendeu a respiração em choque com a possibilidade de seu maior segredo ser conhecido por uma terceira pessoa.
Vendo que a garota parecia desnorteada, Dário levantou Mirian, praticamente a carregando nos braços para fora da sala. Várias sirenes tocavam de todos os lados enquanto alguém anunciava pelos altos falantes um alerta de evacuação dos prédios.
Ele correu facilmente pelos degraus, sem franzir os rosto em nenhum momento. Dário não colocou Mirian no chão até que ambos já estivessem do lado de fora. Nem sequer sua respiração estava desordenada depois de correr um lance de escadas com uma pessoa inteira nos braços.
— Você pode andar sozinha? — Ele perguntou com a voz frígida colocando Mirian no chão, mas a segurando pelos ombros.
Mirian conseguiu apenas balançar com a cabeça, espantando os pensamentos confusos que circulavam por sua cabeça. Seja lá qual fosse o motivo do interesse de Dário, era claro que ele não tinha nenhuma má intenção, se não, o fato de ela ser um espectro da escuridão já estaria no domínio público. Ela podia relaxar por enquanto e se preocupar com a emergência do momento. Olhando ao redor, vários estudantes corriam em pânico sem entender o que estava acontecendo.
Poeira e fuligem cobriam o ar e era possível ver aqui e acolá gente que tinha ficado ferida com as consequências da explosão.
Mirian virou os olhos na direção do centro comercial e como esperado, uma assustadora nuvem negra crescia em todas as direções por cima dos prédios engolindo tudo que estava à sua volta. Dário também se virou para aquela direção e apertou os ombros de Mirian, deixando claro que ele estava ali, como uma forma de conforto.
O barulho de uma notificação despertou os dois de seu estupor. Dário pegou o celular do bolso, e o desbloqueou rapidamente. Gabriel tinha acabado de enviar uma mensagem.
Mas qualquer esperança que Dário tivesse de que fosse um chamado para ação foi estraçalhado quando leu aquelas palavras.
— Aguarde instruções.
Dário se sentiu lívido. Como que aquilo era uma ordem vinda de um líder responsável?
Não era ele a maior arma e escudo preparado pelas Forças Espectrais para lidar com todos os tipos de emergência?
Era uma emergência real acontecendo bem na frente de seus olhos e ele não podia agir? Tudo o que ele tinha passado para se tornar um respeitado Agente Número 01 tinha sido uma piada de mal gosto?
Não. Dário não iria aceitar isso. Sem ter onde extravasar sua raiva naquele instante, Dário socou a parede próxima com força, enquanto deixou escapar um grunhido que mais parecia um rosnado do fundo de sua garganta.
Mirian arregalou os olhos e recuou alguns passos, assustada com o rompante repentino dele. Ele parecia estar botando tanta força naquele instante que era possível ver os músculos de seu pescoço se contraindo e veias dilatarem em baixo de sua pele. A aura dele brilhava com pura raiva, ao mesmo tempo que o concreto rachava a partir do lugar que sua mão, ensanguentada, fez contato.
— O que houve? Você está bem? Recebeu alguma notícia ruim quando olhou o celular? — Mirian engoliu em seco para conseguir coragem de perguntar.
Dário estava parecendo mais assustador do que aquele pandemônio. Os instintos de Mirian estavam gritando que além de assustador, ele era perigoso. Mesmo assim, Mirian não sentiu nada além de preocupação depois de ver um fio de sangue começar a escorrer das narinas e ouvidos de Dário.
— Você está sangrando! Você se machucou com a onda de impacto da explosão? É melhor nos apressarmos e…
Mirian agarrou Dário pelo braço e tentou puxá-lo para longe, mas ele não saiu do lugar. Delicadamente, ele afastou Mirian e esfregou o dorso da mão nas narinas ensanguentadas, olhando para o próprio sangue como se fosse algo irrelevante.
Mirian não sabia o que estava causando isso, mas ela sentia que Dário estava com muita dor.
— Você acha… q-que consegue ir até um local seguro… sozinha? — Dário perguntou ignorando a própria condição e fazendo o sangue desaparecer com um estalar de dedos.
— O… o que você vai fazer? — ela agarrou na camisa dele mais uma vez, enquanto tremia da cabeça aos pés.
— Foi apenas uma mensagem do meu agente no celular. Vou ver meu segurança. Ele deve estar me procurando. Não se preocupe.
Dário sorriu suavemente para ela tentando tranquilizá-la. Mesmo assim, havia uma seriedade indiscutível no tom de voz dele. Nas poucas semanas que eles conviveram, ele sempre mostrou um comportamento mais lânguido e distante, como se nada no mundo fosse capaz de afetá-lo. Até sua forma de falar normalmente era diferente. Mirian engoliu em seco e deixou Dário ir. Preocupada como estava, ela pensou em pedir para ir junto, mas ela podia sentir que ele não queria ser seguido.
Havia uma urgência e seriedade tão grande na aura dele, que Mirian tinha a impressão de que ele estava prestes a ir para a guerra. Ela sentia que ele estava lutando contra alguma coisa muito poderosa que o restringia por dentro e isso lhe causava dor. Sem ter como intervir, a única coisa que Mirian podia fazer era rezar para que ele não fizesse nenhuma besteira.
— Vai ficar tudo bem. Vamos nos encontrar depois, quando tudo se normalizar, ok?
Ele disse, afagando o topo da cabeça de Mirian. Pareado com o sorriso suave e gentil que ele mostrava, Mirian sentiu o rosto esquentar descontroladamente. E como se pressentisse que ele estava prestes a fazer algo incrível ou imprudente… ou os dois, Mirian disse:
— Vou ficar esperando. Tome cuidado.
Dário levantou as sobrancelhas com surpresa, mas voltou a sorrir.
— Vou tomar. — E correu para outra direção, enquanto Mirian o observava sumir de vista em uma curva.
Forçando suas pernas, que mais pareciam uma pilha de gelatina a correrem na direção indicada pelos alertas de evacuação, Mirian sentiu uma grande onda de magia sendo invocada do centro comercial.
Um flash de luz incendiou o céu. Logo em seguida, essa luz se convergiu em domo cobrindo várias quadras ao redor do local da explosão de mais cedo. Mirian pode sentir uma rajada sem precedentes de mana pura emanando de lá. Depois de ter lido todo o conteúdo das impressões que Quindim tinha lhe dado, Mirian soube instintivamente o que era aquilo.
— Trava dimensional! — Ela exclamou com assombro.
Era uma barreira capaz de isolar totalmente o espaço do lado de dentro. Normalmente era usada em guerras para limitar o impacto de magistas de nível superior ou impedir que alguém muito poderoso fugisse em um curto espaço de tempo.
Mirian sentiu a vista escurecer e titubeou, precisando se apoiar na parede depois de lembrar de um detalhe muito importante. Com as mãos tremendo mais do que nunca, ela pegou o celular e fez uma ligação.
— O número que você discou está desligado ou fora da área de serviço. — A voz gravada da operadora soou do outro lado.
Com dificuldades, Mirian conseguiu digitar um segundo número depois de errar várias vezes.
— O número que você discou está desligado ou fora da área de serviço.
Dessa vez, Mirian começou a hiperventilar. Procurando um canto escondido, ela se encolheu no chão e depois de abraçar os joelhos com força, olhou para o celular sem conseguir entrar em contato com André ou Sarah. Ambos tinham ido até o centro comercial mais cedo e não tinham voltado.