A Última Gota de Escuridão - Capitulo 18
Do Outro Lado da Luz – Parte 2
POV: Mirian Tristan
Esse talvez fosse o pior pesadelo que ela pudesse imaginar e ainda assim, estava acordada. Mirian se obrigou a se acalmar o suficiente para fazer o que podia. Jogando a cautela fora, ela retirou os óculos e os tampões de ouvido encarando o dia de frente.
Sua super percepção, que se esforçava tanto para suprimir, foi atiçada ao máximo espalhando-se por centenas de metros em todas as direções. Nem sequer seu medo de que alguém pudesse perceber a presença da magia da escuridão a impediu.
Cada grão de areia, e o movimento da brisa podia ser percebido nos mínimos detalhes. Os passos apressados das pessoas fugindo para longe da barreira de proteção, os gritos por socorro e os choros de desespero foram todos aglomerados na mente da garota. Em instantes, ela localizou a maior parte dos alunos correndo na direção indicada pelos alertas de evacuação ecoando no alto falante. Ela olhou todos os estudantes e funcionários e quem quer que estivesse nos arredores do instituto sem deixar passar ninguém.
Ela forçou seu alcance até a borda da barreira de proteção, sentindo que era impossível forçar além daquela magia. Com um esforço excruciante, Mirian separou todas as informações absorvidas as analisou uma por uma. Não havia sinal nenhum de André ou Sarah em nenhum lugar.
Voltando a restringir seu poder, Mirian abriu o grupo de bate papo da turma especial de magitecnologia usando a senha de André. A maioria já tinha entrado em contato informando onde estavam e tentando entender o que estava acontecendo, mas ainda sem nenhum sinal do irmão ou de Sarah.
“Caramba, o que diabos é aquele domo?”
“Alguém já tem alguma notícia?”
“Meu deus, um grupo da turma de Engenharia está lá no centro…”
“Estão dizendo que foi um atentado terrorista.”
“Meu pai disse que está a caminho, vamos todos nos encontrar próximo ao prédio da reitoria…”
Mirian começou a rolar pelas mensagens dos colegas, até chegar nas mais recentes.
“Alguém está conseguindo transmitir ao vivo de lá de dentro aquele domo estranho. Olha aqui o link…”
Mirian abriu o link. Era de um canal de tv que já estava no local fazendo a cobertura de outra matéria quando a explosão aconteceu.
Com apenas uma breve legenda na parte de baixo das imagens explicando o testemunho de um atentado terrorista, o cameraman se esforçava para transmitir tudo o que estava acontecendo. Enquanto sirenes soavam por todo lado, uma quantidade enorme de poeira e fuligem estava se misturando no ar, Pessoas corriam às cegas sem saber de que lado o inimigo estava vindo.
Do lado de fora, não era mais possível sentir o impacto graças a barreira de proteção, mas do lado de dentro, sucessivas explosões ainda estavam acontecendo. Não havia um lado certo para correr. Não havia um lugar seguro para se esconder.
A cada nova explosão, fumaça, névoa, ou seja lá o que fosse aquilo que estava brotando dos escombros tingia o espaço de preto, espalhando uma escuridão sobrenatural. Parecia que o fim do mundo tinha mesmo chegado sem aviso prévio naquele pedaço do mundo e o céu estava despencando sobre as cabeças dos inocentes.
Para quem estava lá, em questão de minutos, uma tarde normal, com o clima fresco e ensolarado tinha se transformado em um armagedon de caos e terror. O céu estava escurecido com um manto sombrio que cobria o sol enquanto enormes bolas de fogo brotavam do nada e despencavam sobre os prédios.
O trânsito estava movimentado na hora do incidente e muitos dos veículos eram verdadeiras fortunas sobre rodas. Modelos de luxo e requinte, capazes de fazer até mesmo aqueles que só sabiam diferenciar os carros pela cor reconhecerem suas formas, estavam calmamente sendo distorcidos em sucata durante o pandemônio.
E infelizmente, junto com os motoristas que não tiveram reação rápida o suficiente para fugir da maré de destruição.
Muitas pessoas que já tinham começado a escapar se desesperavam com as mãos na cabeça enquanto outras gritavam de dor pedindo socorro por conta dos ferimentos deles e de entes queridos.
O cameraman apontou suas lentes para um grupo de espectros que estavam se voluntariando para ajudar na evacuação dos feridos.
Os olhos de Mirian se arregalaram ao reconhecer a dupla que estava se destacando facilmente no meio daquele grupo.
Os dois estavam sujos e esfarrapados, tinham coberto a cabeça com seus capuzes e escondido o rosto, mas pareciam bem. André carregava 3 pessoas nas costas, enquanto Sarah dava cobertura criando barreiras que impediam que destroços e estilhaços alcançassem os demais.
Mirian sentiu o corpo todo esfriar em uma mistura de alívio e terror. Os dois ainda estavam bem. Mas naquela situação, era difícil prever até quando.
— Ataque a caminho! — A voz distante de Sarah soou entre a gritaria e o barulho de sirenes e explosões.
Os espectros por ali que ainda estavam resistindo sentiram um tremor escorrer por suas espinhas. Algumas dezenas de metros acima deles, o que parecia ser uma bola de fogo… não, uma estrela cadente… um meteoro? Seja lá o que fosse, estava se formando e caindo em direção a eles.
A pressão do ataque era tão grande que eles sequer conseguiam se mover, muito menos se defender.
— Eu vou atrasar essa coisa, você tira essas pessoas daqui! — Sarah gritou para André.
Ela levantou os braços torneados e uma magia anil poderosa envolveu o meteoro, que desacelerou ao ponto de parar em pleno ar. Largas gotas de suor começaram a brotar da testa dela.
— Não, o que quer que seja, eu não vou sair daqui sem você! — André gritou de volta, se recusando a sair.
Quem podia correr, já tinha começado a correr. Quem conseguiu ajudar, ajudou, mas muita gente acabou ficando para trás, caídos nos chão sem conseguir escapar.
André colocou as mãos na cabeça sem saber o que fazer. Por mais que ele fosse um espectro de nível maior que o de Sarah, ele não era um magista, no máximo um especialista em um ou outro encantamento que esteve aprendendo em segredo com os pais pra gastar mana. Não tinha como ele ajudar em uma situação como aquela.
— Você é burro? Não precisamos morrer os dois. Por favor, não me faça ter mais remorsos por ter te trazido aqui! Vá embora… — Sarah retrucou rangendo os dentes enquanto fazia força para manter o status quo.
André sabia que ela estava decidida. Ele olhou para trás. Ainda havia algumas centenas de vítimas que eles conseguiram reunir e proteger à duras penas depois de terem ficado presos junto com aquela onda de ataques. Outros espectros de médio e alto nível apareceram, mas era óbvio que eles também não estavam preparados para um apocalipse. Eles estavam cercados. Mesmo que ele escapasse mais uma vez, não seria possível continuar indefinidamente. Principalmente carregando tantas pessoas.
André sabia que precisavam apenas ganhar tempo, mas eles não tinham mais como suportar.
— Mas vocês dois não são uns fofos brincando de heróis? — uma voz horripilante soou, ao redor de todos eles, o som estivesse diluído no ar vindo de todos os lados.
As imagens tremeram, quando o cameraman não soube para onde apontar, até que conseguiu identificar a origem daquelas palavras.
Uma silhueta feita de chamas apareceu exatamente entre André e Sarah e sem encontrar nenhuma resistência, estendeu as mãos como garras demoníacas, cujos dedos pareciam anormalmente longos e agarrou as gargantas da dupla, que não conseguiu sequer reagir.
—Vocês só não estão mortos agora porque eu prefiro que estejam vivos quando eu começar meu pequeno show. Não é tão fácil encontrar espectros de qualidade dando sopa. É melhor para mim que todos possam ver… todos vão entender do que eu sou capaz. Do que a escuridão é capaz!
André e Sarah começaram a se debater e tentar usar os poderes para se libertarem, mas alguma coisa diretamente em suas almas estava sufocando-os. Por mais que Sarah tentasse, ela não tinha mais energia para suprir e manter o meteoro estático. Logo a magia iria cessar e todos ali seriam atingidos.
Ninguém mais tinha força nenhuma para se defender. Todos sentiram o que era a sensação desesperadora de estar indefeso.
O terrorista desconhecido desapareceu como fumaça carregando os dois e reapareceu na frente da câmera.
André estava se debatendo cada vez menos e Sarah já tinha praticamente parado de se mover. Satisfeito com sua obra, o espectro da escuridão exibiu os dois como se fossem troféus.
— Eu vou mostrar para vocês que toda essa resistência é inútil contra a escuridão. Nem mesmo suas armas mais poderosas são capazes de me enfrentar de igual para igual!
O cameraman recuou, assustado pelo aparecimento súbito do terrorista, mas não se atreveu a parar de filmar. O garoto nem se debatia mais com o pescoço preso entre as garras daquele monstro. Era evidente que ele não tinha mais forças para retaliar.
Era o fim. Até mesmo um espectro de nível superior era inútil… não havia mais nenhuma esperança.
— Eu vou mostrar a vocês, como é o verdadeiro medo do escuro… — o terrorista falou erguendo André mais ainda.
Ele parecia querer torturar André lentamente, para que todos vissem como o garoto tinha se tornado indefeso em suas mãos.
Era uma cena assustadora. Uma verdadeira execução em praça pública.
Naquele instante, o celular de Mirian caiu no chão. Não havia mais ninguém ali para segurá-lo.