A Última Gota de Escuridão - Capitulo 2

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Sobre a gota que caiu durante a noite.
 

 

POV: Agente Numerado – Capitão das Forças Espectrais

Quando as transformações trazidas pela chegada da magia se estabilizaram, os governos sobreviventes retomaram o controle. A vida precisava continuar. Se o mundo estava acabando ou não, não era algo com que as pessoas comuns podiam se preocupar. Sem ter como descer, só restava seguir viagem.

As gotas de luz mudaram tudo. Ninguém podia prever quem se tornaria espectro até que o poder despertasse em suas mãos — e com ele, a capacidade de criar e destruir como deuses. Antes, dinheiro era poder; agora, poder era dinheiro. Quem dominava essa nova força controlava também o destino da Era Mágica.

Orchestra foi reconstruída das cinzas do velho mundo com ajuda da magia e erguida sob sua proteção. Ali, os espectros eram venerados como entidades superiores — e se comportavam como tal. Heróis e lendas surgiram entre os comuns, como Martins. E ainda atrás dele havia incontáveis soldados anônimos, rostos apagados pela guerra, que sacrificaram e ainda sacrificavam suas vidas diante da magia.

Esses soldados estavam sob comando das Forças Espectrais, criadas para enfrentar e conter os desastres mágicos. Apenas os melhores espectros integravam seus quadros, e apenas soldados que alcançassem reconhecimento como magistas recebiam um código e se tornavam agentes numerados.

— Terminaram a perícia? — perguntou o capitão das Forças Espectrais, inspecionando o perímetro.

O espaço diante dele estava isolado. Tremores violentos irradiavam de um epicentro impossível de decifrar. Um fenômeno nunca registrado: um vórtex massivo havia engolido casas inteiras numa vila rural, abrindo rachaduras por todos os lados. Até o ar e o céu pareciam se partir e serem sugados para dentro dele.

A gravidade ao redor era tão intensa que ninguém conseguia chegar a menos de dez metros sem risco de ser tragado. Os soldados recuperavam algum controle, enquanto outros agentes numerados eram mobilizados para conter os tremores.

— Interrogatórios concluídos. — Um soldado entregou um tablet ao capitão. — Apenas uma residência possuía câmeras funcionais.

Na gravação, o espaço entrava em colapso. Raios despencavam do céu e emergiam da terra. Vinda de uma fenda que rasgava o próprio espaço-tempo continuo, a energia girava em fúria até condensar um vórtex negro, em torno do qual partículas brilhantes surgiam e dançavam.

— Partículas? — o capitão questionou.

— Confirmado. Não são de luz. — respondeu o soldado.

— Todas elas?

Pela quantidade de energia registrada, se fossem gotas de luz, cada uma poderia originar um espectro de alto nível. Mas se não eram, como explicar? A patente dele não cobria implicações daquele tamanho. Ainda assim, sabia o que fazer. Separou o que seria enviado ao Quartel-General e transmitiu as ordens: 

— Isolem toda a região. Não haverá sobreviventes. 

O soldado acatou sem hesitação. Executar testemunhas era apenas protocolo. Aparências precisavam ser preservadas — e apenas os mortos guardavam segredos. 

O capitão voltou a assistir ao vídeo, procurando pistas do surgimento daquilo. O senso comum dizia: além do fenômeno em si, o mais perturbador eram aquelas partículas. 

Nunca antes uma gota de luz havia caído durante a noite. Pelo visto, o mundo mudava mais uma vez.
 

POV: Dário Khalil 

O último acorde de Dário ainda vibrava no ar quando um tremor poderoso sacudiu a arena. O palco balançou. Gritos se espalharam pela multidão. Objetos caíam.

Dário se ergueu levemente, os pés deixando o chão, ignorando a gravidade. Cada movimento do seu corpo era preciso, ensaiado. De longe, o estrondo de prédios desmoronando chegava aos ouvidos. O terremoto diminuiu. A plateia permanecia inquieta. Entre os rostos confusos, a garota de antes caiu, inconsciente. A partícula mágica a havia atingido. Seus acompanhantes a seguraram antes que chegasse ao chão. 

Ninguém mais reagia. Dário observava, calmo, inexpressivo. Se nenhuma instrução tivesse sido dada, nenhuma ação seria necessária.

Eliezer voltou ao palco, pairando alguns centímetros acima do chão, os olhos trêmulos avaliando o caos.

— Mas que diabos… — murmurou, sem perceber que, se falasse alto, quebraria a ilusão de normalidade para o público. 

— Ei, você — chamou, impaciente. Dário virou a cabeça. — Nos mandaram tocar. Algo calmante. 

Dário não respondeu. Posicionou os dedos sobre as cordas da guitarra e começou a melodia, sem esperar Eliezer reconectar o baixo. O baixista se deixou guiar pela música, ajustando suas próprias emoções.

Os acordes suaves preencheram a arena, dissipando o pânico. Dário mantinha os olhos na garota desacordada. Então, eles se elevaram para o céu. Outra partícula brilhava, idêntica à primeira, descendo em sua direção.

Não havia protocolo. Nenhum roteiro prevendo o que fazer. Dário permaneceu imóvel.

A partícula se aproximou, como uma bolha de sabão contendo uma galáxia inteira. Ela desceu sobre Dário e o penetrou. 

Os dedos cessaram o movimento. A música parou quebrando o encantamento sobre a platéia. Os gritos voltaram.

Confuso, Eliezer olhou para ele, sem entender por que Dário havia parado. Sozinho, não tinha poder suficiente para acalmar a multidão. Seus olhos se arregalaram ao ver o colega.

No meio do palco, Dário caiu. Ninguém, nem mesmo a equipe de produção da Lovestars, jamais imaginaria que Dário Khalil — O Dário Khalil — simplesmente desmaiaria durante um terremoto.

…

Dário sentiu-se mergulhado num oceano de energia misteriosa e confortável. Não havia preocupações, ordens ou programações. Apenas ele e um chamado distante, conectado a algo maior.

Instintivamente tentou alcançá-lo, mas uma dor aguda o arrancou da experiência.

Abriu os olhos de súbito. Em um instante estava deitado no sofá do camarim. Sua visão fora invadida por misteriosos fios de energia emergindo de tudo ao redor, inclusive dele próprio, convergindo em algum ponto invisível. Coloridos, pulsantes e caóticos. Porém, quando piscou, as linhas desapareceram, deixando apenas o mundo real.

O amanhecer se aproximava. Uma dor na lateral do corpo o trouxe de volta à realidade. Virou o olhar a tempo de ver um terceiro pontapé atingir suas costelas. Não gemeu, não se encolheu. Registrava a dor, mas não reagia. Sentou-se, impassível, enquanto Gabriel continuava a distribuí-la como se fosse gratuita.

Gabriel Russeau, seu gerente e representante das Forças Espectrais, agarrou Dário pelos cabelos e empurrou seu rosto contra a penteadeira. Os objetos se espatifaram ao redor 

Em meio a agressão, Dário notou o teto — estava sujo. O pensamento era irrelevante. Mas, de repente, percebeu algo assustador: ele havia pensado.

Sem controle ou intenção, sua mente foi inundada por lembranças, como assistir à vida de outra pessoa. Desde que recebera a gota de luz e se tornara espectro superior, nunca tivera liberdade para ser. Apenas para obedecer. Regras, ordens, expectativas. Até aquela noite, jamais questionara.

Agora, sentia algo preso dentro dele tentando emergir. E a pergunta mais perigosa de todos os tempos surgiu: Por quê?

Gabriel, irritado, deu um último chute antes de se afastar:

— Você me deu um susto! Já estava considerando te jogar fora! Como diabos você me desmaia de exaustão? Se não fosse o pandemônio lá fora, já teríamos voltado ao Quartel-General para ações disciplinares.

Dário não se atentou ao significado de pandemônio. O tremor no camarim, porém, despertou algo dentro dele.

— Senhor! — entrou uma contrarregra, ou melhor, uma agente numerada disfarçada. Sem demonstrar interesse pelo estado de Dário, avisou: — O Quartel-General declarou emergência. Está chovendo!

Gabriel bufou e saiu, deixando uma última ordem: arrumar a bagunça. Dário acompanhou a saída com os olhos e, como sempre, fez o que foi ordenado. Movendo levemente os dedos, liberou energia violeta. O poder envolveu seu corpo, dissipando hematomas e restaurando sua aparência. A magia trouxe sonolência esmagadora, mas antes de ceder, um arrepio percorreu sua pele. Algo pressionava seus sentidos, como uma presença invisível. A mana no ar crescia perceptivelmente. A magia estava mudando.

Dário se aproximou da janela. O céu do amanhecer cintilava em mil cores, refletindo a luz através das partículas mágicas. Acima das nuvens, rachaduras semitransparentes fraturavam o espaço. 

E então ele viu: não era água. Chovia luz. Partículas mágicas caíam como estrelas cadentes. Sem compreender, Dário sentiu que algo nele havia se perdido — algo que antes fazia parte de sua vida e agora escapava para o mundo.

O fenômeno fascinava e aterrorizava ao mesmo tempo. Apenas uma outra chuva de luz semelhante ocorrera na história: décadas antes, quando o céu se abriu e a Era Mágica nasceu.

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Comments for chapter "Capitulo 2"

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1 Comment

  1. Marshall Evans
    Marshall Evans

    Só posso imaginar como seria essa chuva de luz. A beleza e terror por trás dela transmitida pelo texto é muito intrigante…

    Obrigado pelo capítulo!

    fevereiro 3, 2026 de 9:41 pm
    Responder
Tags:
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