A Última Gota de Escuridão - Capitulo 3

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Do lado da escuridão – parte 1

 

POV: Mirian Tristan

Momentos antes…

Do outro lado da arena de shows, Mirian abriu os olhos, depois de passar quase a noite inteira desacordada nas costas de André. Ainda confusa, olhou em volta e se deparou com o rosto aflito da melhor amiga.

— Você finalmente acordou! — disse Sarah, a voz um pouco esganiçada, enquanto espremia o rosto de Mirian entre as mãos. Havia manchas de lágrimas em suas bochechas.

— ‘u ixtou bem! — murmurou Mirian entre os lábios amassados.

André a colocou no chão e, preocupado, aproximou-se.

— Tem certeza? — perguntou, pousando a palma na testa dela. — Você ficou horas desacordada.

Mirian então percebeu os primeiros traços da alvorada tingindo o céu de cinza. O ambiente ao redor trazia sinais claros de tragédia: poeira suspensa no ar, fuligem que arranhava os pulmões, pessoas reunidas em pequenos círculos murmurando em voz baixa. Alguns estavam feridos. O desconforto da memória sobre a gota da noite foi empurrado para o fundo.

— O que aconteceu? — perguntou, notando a ansiedade estampada em cada rosto.

Mas algo não fazia sentido. Em situações de tumulto, Mirian sabia que brigadas de apoio costumavam se mobilizar rapidamente, recolhendo feridos e prestando os primeiros socorros. Era estranho o fato de ter passado a noite inteira desacordada apenas nos ombros de André, sem que ninguém a tivesse atendido.

Sarah e André trocaram olhares tensos.

— Enquanto você estava apagada, vários terremotos atingiram a cidade — começou Sarah. —  Mana, tem rachaduras no céu! Estão desaparecendo, mas ainda dá pra ver — Sarah apontou — Tivemos sorte de estar num espaço aberto. Muitos prédios caíram e os magistas foram convocados para conter os estragos.

— Até o Sr. Martins se levantou e pediu que quem pudesse ficasse aqui mais um tempo, para não atrapalhar o trânsito e os resgates — completou André.

— Tão sério assim? — Mirian arregalou os olhos para as rachaduras no alto. Um calafrio descendo nas costas — E nossos pais?

— Estão bem… — Sarah assegurou. — Apesar do susto, nada aconteceu com eles.

— Falamos com a mamãe agorinha. Eles estão no hospital, ajudando nos atendimentos de emergência — acrescentou André.

Mirian soltou o ar com força, deixando os ombros cederem. O nervosismo ainda pulsava em seu corpo. Outro tremor leve sacudiu o chão, como um lembrete de que o terror não passara. Ao redor, grupos se agitavam, alguns choravam, outros despertavam assustados do cansaço.

Mensagens corriam de um celular para outro. Muitos digitavam em desespero, tentando contato com familiares. Sarah e André acompanhavam notícias nas redes sociais e, movida pela curiosidade, Mirian também pegou o próprio aparelho.

— Vários receberam notícia de parentes feridos… ou até mesmo… — Sarah deixou a frase morrer, a voz embargada.

Mirian não precisou que ela concluísse. O silêncio pesado já trazia a resposta.

Os três começaram a dar uma volta, tentando distrair a mente, mas só encontravam pessoas nervosas por toda parte. 

Não demorou para chegarem à área dos banheiros, quase deserta. Ninguém queria se arriscar perto de encanamentos e vasos que poderiam ruir caso outro tremor forte atingisse o lugar.

Mirian ergueu os olhos. Os primeiros sinais do sol já tingiam o céu cinzento, agora cintilando em cores estranhas, atravessado por rachaduras. Fora isso, nada parecia diferente, mas havia algo novo no ar, um arrepio que lhe percorria os poros como aviso silencioso da mudança.

De repente, ela notou uma gota de luz caindo. Não era metáfora: uma centelha verdadeira, como uma estrela desprendida. Logo vieram outras, descendo em rastros brilhantes.

 — Uau! — os três exclamaram juntos.

— Desde quando é tão fácil assim uma gota cair? — André ficou de queixo caído. — Não pode ser uma Chuva de Luz, pode?

— A verdadeira Chuva de Luz deve ter sido muito pior. Se não… se não, o mundo antigo não teria acabado… — argumentou Mirian, sem muita segurança nas próprias palavras.

Sarah franziu o cenho, murmurando algo inaudível. Uma energia anil envolveu seu corpo quando saltou quase dez metros, flutuando por instantes antes de descer suavemente.

— Você ficou maluca? — Mirian sussurrou, alarmada. — E se alguém te denunciar?

— Relaxa,  nesse momento ninguém dá a mínima se eu ainda sou de menor ou não. Não tem problema. — Antes que a amiga protestasse mais, completou apressada: — E vocês não vão acreditar: está chovendo luz na cidade inteira! É mesmo outra Chuva de Luz!

— Então é mesmo incrível! — Mirian respondeu, ansiosa. — Talvez a gente consiga uma hoje!

— É… incrível… — murmurou Sarah, ainda desconfiada. — Mas isso não vai trazer nada de bom com o tempo…

— Olha! — André apontou para o céu.

— Está vindo para cá? — Mirian apertou as mãos.

— Parece que sim… — Sarah calculava mentalmente a trajetória.

— Vamos nos esconder no banheiro! — Mirian aplaudiu a ideia, puxando André pelo braço. — Com certeza é para um de nós!

Gotas de luz sempre provocavam comoções quando escolhiam alguém, mas, sendo menores de idade, era mais seguro não chamar atenção. Ninguém queria cair nas mãos das Forças Espectrais, como já acontecera com Sarah. Apesar do risco, receber uma gota era como ganhar na loteria: o grande sonho de qualquer um.

Mirian, contudo, lembrou da gota misteriosa que havia absorvido antes de desmaiar. Desta vez deveria ser de André. Tomada pela expectativa, empurrou o irmão para frente no instante em que a esfera luminosa, do tamanho de uma cabeça, desceu ao alcance. Surpreso, André estendeu os dedos e tocou a luz.

Um clarão arroxeado explodiu. Diziam que a cor da magia revelava o nível do espectro: quanto mais próxima do vermelho, mais baixo; quanto mais próxima do violeta, mais alto. A alegria de André transbordava quando Sarah o abraçou, vibrando junto.

— Você vai ser um espectro de nível superior! — comemorou, os olhos ainda cerrados contra o brilho.

Mirian deu um passo para abraçá-los também — e pisou no vazio. Como no tropeço de um degrau invisível, mas sem chão algum para ampará-la. Sob seus pés, havia apenas nada: uma escuridão absoluta sugando-a para dentro. Quanto mais André brilhava, mais fundo parecia aquele abismo. Uma rachadura, como as do céu, havia se aberto silenciosamente debaixo dela.

O grito de Mirian ecoou. Ela tateava o ar em vão, os dedos arranhando apenas o piso liso. Sarah se virou, apavorada com o som.

Sem pensar, atirou-se ao chão e segurou as mãos da amiga. Os olhos das duas se encontraram: desespero contra desespero. Sarah puxou com força, mas o corpo de Mirian afundava como se a própria gravidade quisesse reclamá-la.

Num esforço hercúleo, Sarah canalizou sua mana em um escudo, tentando aumentar sua força física e proteger Mirian. Porém, a energia anil também se dissipava em rastros devorados pelo abismo. Seus pés escorregavam cada vez mais próximos da beirada, e cada puxão parecia mais inútil.

Apenas o torso de Mirian ainda emergia. Os dedos começavam a escapar.

— Já chega! Afasta-se, senão vai cair comigo! — a voz de Mirian tremia.

— Não! — Sarah negou com a cabeça, lágrimas já nos olhos.

Ambas sabiam: a escuridão não soltaria Mirian. Ou Sarah largava ou seria arrastada também. Tremendo, Mirian abriu os dedos e se soltou.

— Segure de volta! Sem magia não vou conseguir! — Sarah implorou.

Mirian a encarou uma última vez. Depois olhou para André, ainda inconsciente no clarão, e soluçou:

— Cuide dele por mim…

Soltou-se de vez. O corpo desapareceu no vazio.

Sarah tombou para trás, virou-se com uma cambalhota instintiva e correu para o ponto onde a amiga estava. Mas não restava sinal algum da fenda, apenas o chão intacto.

Quando o brilho da fusão cessou, André abriu os olhos e encontrou Sarah martelando o piso com tanta força que quebrara. Em lágrimas, ela tentava balbuciar palavras sem sentido. Da irmã, não havia mais nenhum vestígio.

Mirian havia desaparecido do mundo.

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