A Última Gota de Escuridão - Capitulo 3
Do lado da escuridão – parte 2
POV: Mirian Tristan
Quando abriu os olhos, Mirian se viu em um espaço sem forma. Desnorteada, sem lembrança de onde viera, sentiu-se caindo eternamente em um buraco sem fundo. Logo perdeu a noção de cima e baixo, como em pesadelos impossíveis de escapar. Tudo era escuridão. Não como a noite, mas um abismo profundo, denso, quase palpável.
Depois de tanto tempo, conseguiu se acalmar o suficiente para perceber que não caía mais. Não havia gravidade, apenas uma inércia constante.
Nada existia para os olhos. A escuridão engolia tudo, espessa e absoluta. Cada tentativa de enxergar era vazia, um esforço inútil em direção ao nada.
O silêncio era sufocante. O batimento de seu próprio coração ressoava em seus tímpanos, estrondoso, interminável. Tentou gritar, mas o som não existia. Não havia ar, não havia respiração. Apenas vazio.
Até isso desapareceu. O tato se perdeu. Mirian tentou sentir seu corpo, mas não havia nada. Tudo era nada — e nela, o corpo se tornou memória distante, irrelevante. Uma presença viva pulsava ao redor, pressionando sua mente com o peso do silêncio absoluto.
Sua racionalidade se agarrou a fragmentos de algo, mas até o eco do coração se desvaneceu. Pensamentos se fragmentaram, memórias escorriam, e as linhas que a ligavam ao passado se transformaram em fios desconexos, dissolvendo-se. Até o medo se tornou ínfimo, irrelevante como uma gota no oceano.
— Não… eu preciso voltar… — murmurou o que restava de Mirian, uma voz quase diluída — Eles estão me esperando… eles… quem?
Quanto mais se esforçava para lembrar, mais as memórias se esvaíam. Restou apenas a gota que entrara em seu corpo, carregando magia semelhante àquele espaço.
Uma pressão imensa brotou dela, como gravidade, e um sentido novo, extra-sensorial, começou a tecer sua identidade de volta. Lentamente, os fragmentos se reorganizaram, atraídos por uma força que era ao mesmo tempo dela e do vazio.
A sensação era impossível de nomear. E então, sem aviso, Mirian deixou de estar na escuridão. Ela se tornou a escuridão.
O corpo de Mirian cedeu sobre seus joelhos enquanto ela tossia os órgãos fora tentando aliviar a sensação estranha, dolorosa e desconfortável em seus pulmões que estavam cheios… cheios de nada.
Segurando a cabeça como se isso fosse ajudar a fazer o mundo parar de rodar, ela se concentrou em tentar entender a ideia de que realmente não havia ar para ser respirado, e mesmo que seu corpo funcionava cada vez mais adaptado àquele ambiente hostil, ainda sentiu a asfixia entre soluços e tosses de seu organismo buscando oxigênio.
Assim que a crise de tosse passou, ela instintivamente continuava a tentar respirar fundo, mesmo sem sentir uma molécula de oxigênio passar por sua traquéia.
Também não havia um chão per se, mas lá estava ela de joelhos sobre ele. Piscando várias vezes para a escuridão, Mirian percebeu que estava vendo — não fisicamente com os olhos — os rastros de destruição lançados sobre o que parecia uma cidade estrangeira feita de uma fusão de ilusões e destroços.
Cenas se repetiam com os momentos tristes e felizes das pessoas que outrora frequentaram aquele lugar — conversas, festivais, o comum do dia a dia… e o fim de tudo, a destruição. Tudo o que fora real um dia, agora era apenas uma sombra esquecida nas profundezas daquela escuridão.
O coração de Mirian afundou. Assustada demais para processar, agachou-se, abraçando os joelhos e repetindo em voz baixa:
— Onde estou? O que eu faço agora?
Logo, Mirian passou a perambular entre os destroços. Mundos inteiros se recompunham naqueles ecos: mercados cheios, risos de crianças, passos sem dono e sombras sem vida. Mirian se afundou nas ilusões, fingindo serem pessoas reais. Entre os escombros, encontrou alívio ao encenar interações.
— Hei, Mateus, tudo em cima? Vim buscar meu pedido — murmurava, ocupando o papel de um cliente que aparecera no meio de uma das repetições. Quase com uma pitada de alegria, Mirian inalou profundamente o doce aroma dos bolos da confeitaria que entrara, mas ainda desacostumada com a falta de oxigênio propriamente dito, tossiu com força, engasgada com o nada. As ilusões tremeram e sumiram, tirando dela o alívio momentâneo que tinha usurpado.
— Mais sorte na próxima… — Mirian deixou os ombros caírem, massageando as têmporas, dando de cara com destroços vazios e não um local movimentado e cheio de aromas.
Abriu o pacote fictício em sua mão e mordeu um grande pedaço do bolo que ainda não havia desaparecido. Talvez o isolamento tivesse alcançado sua mente, mas ela jurava sentir o sabor dos doces.
E assim, o tempo dissolveu-se em repetições. Mirian fingia conversar, fingia comer, fingia pertencer.
Mais frequente que não, Mirian cruzava também com corpos. Não eram ruínas vazias: os escombros estavam povoados por restos mortais que flutuavam no vazio, alguns mutilados, outros intactos como se jamais tivessem lutado pela vida.
Os piores eram os sobreviventes do desastre, cascas vazias que a escuridão finalmente reclamara depois de serem consumidos por aquele lugar. Seus olhos, sempre abertos, não tinham pupilas nem brilho, apenas esferas negras mostrando o vazio deixado quando suas almas os abandonaram.
Havia cordas invisíveis que partiam deles e criavam uma rede caótica, um lindo emaranhado brilhante deixando para trás um registro de que viveram.
Mas, quando as sombras desapareciam e o silêncio a envolvia, Mirian baixava a cabeça e continuava.
Injuriada, mas com uma frieza conformada, ela se repetia entre as ilusões até que o tempo já não tinha significado. Mirian perambulava entre ruínas e ecos como quem respira por hábito, sem pensar, sem sentir. Os confeitos ilusórios haviam perdido o sabor, os rostos vazios já não a assombravam: tudo se tornara parte do mesmo breu. Caminhava em piloto automático, desviando-se dos destroços e dos corpos.
Foi então que estacou. À frente, mais um corpo flutuava, rígido, imóvel. Mirian esbarrou sem querer nas cordas que vinham dele, distraída, quando algo diferente a fez parar. Havia vida.
Aproximou-se, quase sem acreditar. Não eram olhos enegrecidos, mas pálpebras cerradas. Não era um eco, ilusão ou cadáver.
De súbito, Mirian despertou de seu torpor. Moveu-se com agitação ao redor dele. Era um rapaz alto e parecia jovem, mas estava gravemente ferido. O corpo estava marcado por queimaduras, e do ombro ainda escorria sangue de uma perfuração profunda.
— Eita caramba! — Mirian arregalou os olhos, pressionando sem hesitar o ombro do rapaz para tentar estancar a hemorragia. — o que eu faço… o que eu faço!
O rapaz estremeceu após o contato, contendo espasmos ao respirar a falta de ar.
— Aí meu Deus, tá tudo bem, você vai ficar bem! — Mirian arfou arrastando o rapaz contra um pedregulho e forçando-o a ficar imóvel com todo o pouco conhecimento de primeiros socorros que tinha.
— Você não está sufocando. Você vai ficar bem se conseguir controlar seus instintos naturais.
Mirian tentou explicar, mas se deu conta de um detalhe importante: não havia ar, e sem ar… não havia som.
Ela já tinha acostumado-se com os ecos ilusões de forma tão intensa que havia esquecido que nenhum som ali era real. Como ele poderia ouvir sua voz e entender o que ela queria dizer?
Se ele continuasse a se debater, iria sangrar até a morte.
Cerrando os dentes, Mirian pressionou a testa contra a dele.
Um arrepio percorreu-lhe a mente, como se fios invisíveis se enroscassem em seus pensamentos, abrindo uma passagem — truque aprendido ao viver tantas ilusões. Palavras formaram-se em silêncio dentro dela — não ditas, mas transmitidas.
— Talvez não dê certo, talvez dê. Você precisa me escutar. Tente controlar seu corpo. Você não está sufocando. Você não vai morrer asfixiado… mas se continuar se movendo, vai entrar em choque.
Mirian repetiu a mensagem várias vezes, agarrando-se à estranha certeza de que ele a entenderia.
Dançando entre a inconsciência e a lucidez, o rapaz parou de se mover.
Mirian aproveitou o momento para colocá-lo nas costas e correr por todos os lados, catando entre as ilusões e destroços o que quer que pudesse ser útil para cuidar dele.
Mesmo assim não havia muito o que se fazer. Sem água ou remédios, era impossível limpar as feridas. Com cuidado, Mirian ao menos rasgou toda a roupa que ainda cobria as feridas, antes que o sangue secasse e grudasse o tecido contra a pele. Com o próprio casaco, ela tentou improvisar uma tala no braço e ombro mais afetados.