A Última Gota de Escuridão - Capitulo 3

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Do lado da escuridão – parte 3

 

POV: Mirian Tristan

Algum tempo depois, ele conseguiu acordar. Olhava para o vazio, a boca entreaberta, o olhar vago, como quem ainda não tinha voltado por completo. Mirian já estava acostumada à escuridão; graças às cordas que tinha absorvido e conseguia distinguir seus arredores. Mas lhe ocorreu que ele tinha acabado de chegar ali  — só devia conseguir perceber a escuridão e nada mais.

Com certeza ele ainda não tinha se dado conta que não estava mais só.

— Está se sentindo um pouco melhor? — perguntou Mirian, segurando a mão dele com calma e delicadeza, usando o toque para mostrar que estava ali. Nem ele, nem ela estavam mais sozinhos na escuridão.

A expressão dele se contorceu imediatamente; de olhos arregalados, virou-se na direção dela, sem conseguir enxergá-la. Sua mão apertou a dela com força, não agressiva, mas desesperada, como quem tenta se certificar de que algo é real.

— Por que você está aqui? — perguntou incrédulo, a voz soando clara dentro da mente de Mirian.

— Você… me conhece? — estranhou Mirian, surpresa pela pergunta.

Um traço de confusão atravessou o rosto dos dois. Sem aviso, ele conjurou uma pequena esfera de luz entre eles.

A luz repentina, mesmo fraca, fez as pupilas dilatadas e desacostumadas de Mirian doerem e lacrimejarem.

Um magista, ela pensou, o coração batendo mais rápido.

— Não… você não é ela… — o desabafo escapou dele, com um tom que misturava alívio, melancolia e assombramento — Não entendo… Quem é você?

Mirian tentou se adaptar à luz que brilhava com menos força que uma vela, mesmo assim sentia o brilho atravessar suas pálpebras. Desistindo de se readaptar, ela respondeu.

— Sou só uma das vítimas que caiu aqui antes de você. Eu vim de Orchestra. Você também é de lá? Sabe me dizer como estão as coisas por lá? A cidade está a salvo? Há outras pessoas que caíram com você?

Mirian disparou, perdendo momentaneamente o controle por sua ansiedade. 

A luz piscou mais uma vez antes de ser devorada pela escuridão.

— Você… não me conhece? — a voz dele perguntou com surpresa, mas logo trocou para resignação — Será que estou sonhando antes de me apagar também? — ele segurou a mão de Mirian com ainda mais força, se ancorando nela, com um olhar arregalado na direção dela. 

— Não, não, você ainda está vivo — Mirian interrompeu, a voz firme — ao menos por enquanto.

Ela observou o ombro dele; o ferimento voltara a  sangrar devagar, escorrendo pela tala horrorosa. Mirian engoliu todas as perguntas que ainda queria fazer.

— Perdão, acho que perdi o senso das prioridades por um momento. O seu ombro está muito ruim. Se não fizer nada, você não vai aguentar muito tempo, mesmo nesse lugar esquisito. Você é um magista, não é? Não conhece alguma magia de cura?

O rapaz baixou levemente o rosto, um gesto mais de resignação do que de medo, depois voltou a sondar os arredores, buscando por algo.

— Não sinto a presença de mana… Se tentar me curar com o pouco que me resta, vou perder a consciência.

Mirian estreitou os olhos, sem soltar a mão dele.

— Não se preocupe. Eu vou ficar do seu lado — disse, tentando assegurar — Você só precisa tentar pelo menos o suficiente para se manter vivo.

Ele hesitou, os dedos ainda firmes nos dela, e Mirian reconheceu nele o medo nascido daquela escuridão: o de adormecer e nunca mais voltar a si.

— Mesmo que eu esteja sonhando, não posso me deixar morrer e te deixar aqui, não é? — ele sussurrou com a voz fraca entrelaçando os dedos nos dela, enquanto um sorriso muito fraco apareceu em seu rosto mutilado.

Mirian sentiu o próprio rosto esquentar com o gesto íntimo. Ele com certeza estava alucinando, vendo outra pessoa no lugar dela. Por enquanto, pelo menos, era melhor que nada.

Recobrando uma pontada de esperança, ele fechou os olhos e exercendo o que parecia ser uma força monumental, mais partículas de luz se acenderam ao redor dele.

Mirian apertou os olhos tentando fazer sentido da situação. Do ponto de vista dela, as partículas estavam atacando diretamente algumas linhas que saíam do ferimento mais grave.

A cada ataque, uma partícula se apagava e as linhas se tornavam mais translúcidas. Mirian não entendia o sentido daquilo, mas podia ver os resultados. Lenta, mas perceptivelmente, a perfuração no ombro parecia estar se fechando.

Mirian não tinha conhecimento nenhum sobre magias de cura ainda, mas era esperta suficiente para perceber que não haviam partículas de luz suficientes.

— Eu vou dormir em breve — ele soltou a mão de Mirian, apontou com movimentos trêmulos e sussurrou em sua mente, a voz distante como se ele falasse de muito longe — Vá para aquela direção. Siga as sinas e volte para casa. Você não deveria ter vindo aqui…

— O que quis dizer com sinas? Há mesmo uma saída por lá? Mas o que eu faço agora? Como vou te levar comigo nessas condições?

Sem conseguir responder, ele desmaiou. Como Mirian suspeitou, a magia que ele tinha realizado foi suficiente apenas para fechar os vasos sanguíneos internos e parar o sangramento. Pelo menos já era alguma coisa, mas ainda seria muito arriscado carregá-lo dessa forma. 

Mirian olhou então para a direção que ele tinha apontado. Se havia mesmo uma saída por lá, ela tinha que arriscar.

— Você é muito estupido… como pode me dizer onde é a saída assim do nada? E se eu fugir sem você?

Não tinha o que fazer. Com mais uma ronda atrás de materiais, Mirian conseguiu uma porta quase inteira, que usou como maca. Ela amarrou o rapaz com cuidado para que ele não sofresse nenhum movimento brusco durante o transporte. 

Depois de adicionar algumas alças do outro lado, Mirian vestiu a maca como uma mochila e voou na direção que ele havia apontado. 

Voar era algo fácil ali, onde a ideia de gravidade não passava disso: uma ideia. Difícil era saber se estava mantendo a direção certa. Já que não havia nenhum ponto de referência que pudesse lhe indicar velocidade, posição ou distância.

Mesmo assim, Mirian cerrou os dentes e prosseguiu. 

…

— Acordada? 

Mirian piscou os olhos várias vezes depois de ouvir a voz soar na sua mente. Ela percebeu que não estava, após ser removida do estupor que se imergiu. 

— Agora estou. E você? — Mirian pausou a viagem e removeu a maca das costas.

Lá estava ele, com os olhos cansados e a sobrancelha que sobrou caída.

— … nem ideia. — ele disse, virando sua atenção na direção para onde Mirian estava indo. — Você desviou. A saída é para lá…

Mirian sentiu o rapaz corrigir a rota com a mão trêmula, e olhou para o vazio.

— Como você sabe?

— Siga as sinas. 

— Que sinas? O que são sinas?

Mirian escolheu um local para pousar e deitou a maca improvisada ao seu lado, olhando para o rapaz totalmente imobilizado.

— Como você sabe onde fica a saída?

Ele a olhou de volta, também com incontáveis perguntas silenciosas.

— Só seguir as sinas… — ele repetiu.

— Eu entendi, mas como você sabe disso? — Mirian insistiu. A prudência lhe mandava ter cuidado, mesmo que todos os seus instintos lhe falassem que estava tudo bem confiar nele.

— Você não pode vê-las ? — ele estava muito intrigado agora.

Mirian levantou uma sobrancelha. Aquela conversa não estava indo para lugar algum. 

— Por acaso precisa ser um espectro de luz para conseguir ver? Eu não sou… 

— Como… — ele balbuciou, olhando diretamente para Mirian. Mirian podia jurar que ele já era capaz de observá-la na escuridão. Mirian sentiu uma pontada de inveja por ele ter se adaptado tão rápido.

— Quer saber? Deixa pra lá. Eu não posso ver essas tais sinas, então fica acordado e me mostra o caminho. Um magista com certeza sabe sobre essas coisas mais do que eu.

O percurso foi longo e árduo. Vez por outra ambos se pegavam hipnotizados pela escuridão.

— Eu consigo sentir… Mana. — O rapaz disse depois de um tempo — Estamos perto.

Mirian olhou ao redor e reparou em um certo brilho cintilante ao seu redor. A escuridão não era mais absoluta. Havia algo diluído nela.

Sem pensar, Mirian se apressou na direção onde o brilho se tornava mais forte. Até que uma brisa soprou contra seu rosto. 

— Ar. — Mirian arfou com surpresa logo antes de cair em uma crise de tosse.

Seus pulmões, desacostumados pelo vazio, convulsionaram após sentir o primeiro sopro de oxigênio em tempos. Com os olhos cheios de lágrimas, Mirian se apressou. 

Então sentiu a gravidade lhe empurrando contra algo sob seus pés.

— Isso é… a sina… — ela soube instintivamente, mesmo sem conseguir ver o que era — Urf… você está começando a ficar pesado.

Mirian colocou a maca no chão e desatou as amarras. Com mãos trêmulas, prendeu o rapaz às próprias costas.

— Isso vai doer, mas aguenta firme.

Com o peso cada vez maior, o percurso tornou-se uma escalada brutal. Além disso, um vento gutural parecia querer levá-los voando para longe. Não muito a frente, uma fissura podia ser vista. Não muito grande, de onde o ar saia, como a descompressão de uma nave no espaço. 

A cada avanço, os músculos ardiam. Precisava parar, ofegante, apoiando a testa contra a raíz, até juntar força para seguir.

— Me deixe aqui… — murmurou ele, a voz quebrada.

Mirian fechou os olhos, imóvel, focando na dor de seus dedos que já estavam em carne viva. Sendo franca, ela tinha considerado aquela possibilidade, mas o fato da sugestão ter vindo dele a irritou muito, então decidiu apenas ignorá-lo.

Cada vez mais perto do objetivo, o suor ardia nos olhos, a respiração vinha em soluços, e o peito de Mirian parecia prestes a estourar. Quando os braços tremiam demais, ela encostava a testa contra a corda, chorando em silêncio antes de seguir.

— Eu vou conseguir… — Mirian respondeu mais para si mesma.

O silêncio da dimensão ecoava dentro dela, misturado à lembrança da própria solidão. A ideia de desistir rondava seus pensamentos como um sussurro insistente.

— Não vou me permitir continuar vivendo assim… aqui — ela murmurou com os dentes cerrados.

O rapaz a observava com um olhar complexo. Olhou para o caminho vendo que ainda havia alguma distância. Sem perder tempo, ele absorveu as partículas de mana que entravam no vazio. Talvez se ele absorvesse o suficiente para recuperar as forças, fosse capaz de ajudar.

Mas, para surpresa dos dois, Mirian começou a pegar fogo.

Chamas negras explodiram em torno de seu corpo, engolindo-a dos pés à cabeça. Os olhos se tornaram poços vazios e ardentes, tingidos de preto como todos os corpos daqueles consumidos pela escuridão que tinha encontrado antes.

Mesmo apavorada, Mirian usou aquela força ainda alheia, selvagem e, se ergueu de novo. Vindo daquela partícula dentro de si, o que quer que aquele fogo estivesse queimando, pelo menos não era ela. Então, sem dar atenção para a dor e para a gravidade, moveu-se um passo, outro, escalando com o rapaz preso às costas, fingindo que o peso era irrelevante.

O caminho se encurtava, a saída brilhava à frente. — Só mais um pouco… — Mirian sussurrava com força, apavorada ao pensar no que iria sobrar de si se falhasse. 

O fogo negro lhe dera forças, mas também uma revelação amarga. Mirian sentiu perfeitamente a escuridão, já dentro de si, servindo de combustível para os últimos passos, dando-lhe as forças que faltavam — e isso era assustador. O calor era frio, vazio, e ao mesmo tempo irresistível. Depois de devorar tantas memórias daquele lugar, sabia como um fato de que quando não houvesse mais nada para devorar, a sua alma seria o único combustível que iria sobrar, transformando-a em uma casca vazia. Mais um cadáver a flutuar eternamente no vazio. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto, não de fraqueza ou dor, mas de terror.

— Tão perto… — Mirian soluçou estendendo a mão com as últimas forças que restavam, enquanto carregava todo aquele peso. — Desculpa, esse é o mais longe que eu vou conseguir ir…

Não havia como continuar o carregando.

Porém, antes que Mirian processasse o que estava acontecendo, o rapaz se desprendeu de suas costas prestes a cair de volta para o abismo.

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