A Última Gota de Escuridão - Capitulo 4
Do outro lado da escuridão – parte 1
POV: Dário Khalil
Dário abriu os olhos para o vazio do quarto sem perceber de imediato que já estava desperto. A mão estendida buscava no ar algo que lhe escapara no fim de um sonho confuso, cuja lembrança desaparecera no instante em que acordara. Sentia apenas a estranha frustração de tentar agarrar o irreal.
Confusão era um sentimento novo para ele. Até pouco tempo, Dário sequer sabia o que era sentir; agora, começava a aprender, sozinho, ainda desajeitado, e sem saber como expressar nada. Desde o incidente meses atrás, sonhos se repetiam com frequência perturbadora sempre que dormia — Dário nunca sonhara antes. Não era necessário.
Levantou-se da cama de imediato. O despertador oscilava sobre a cabeceira enquanto a cama rangia com um balanço irregular. Outro terremoto — tinham se tornado comuns desde o incidente meses atrás. Pela janela panorâmica, o céu ainda era um campo escuro cravejado de estrelas, cortado por linhas esbranquiçadas e irregulares como remendos em porcelana. Nas ruas, algumas poucas pessoas já começavam seu dia caminhando para seus postos de trabalho; nos céus, raros aerocarros passavam sem trânsito.
Dário abriu e fechou a mão várias vezes, pensando no que havia tentado segurar. Talvez fosse importante, talvez não; abstrações nunca tinham feito parte de sua vida. Ainda assim, a pergunta incômoda — o “por quê” de tudo — começava a rondá-lo mais uma vez. Foi por isso que, em vez de seguir mecanicamente a rotina, sentou-se na poltrona diante da janela e esperou o nascer do sol.
Aquela pausa era um prazer silencioso. E desnecessária. Indulgências sempre lhe foram negadas, mas contemplar a alvorada revelava-se um luxo inesperado. Um pequeno achado, suficiente para quem nunca tivera nada do tipo. Ainda assim, sabia que sua vida continuaria como sempre: ordens a cumprir, missões a executar, nada além. Apesar da descoberta dos sentimentos, seus olhos ainda guardavam a mesma opacidade de quem não tinha apego a nada — afinal, o mundo dele era limitado àquilo que lhe mostravam.
O que o intrigava eram as linhas. Desde que despertara o novo poder, via incontáveis traços partindo de si e de todas as coisas. Ainda estava aprendendo a controlá-los.
Quando o sol finalmente surgiu, Dário levantou-se e iniciou sua rotina. Uniforme vestido, postura rígida, rosto imóvel, fitou o reflexo no espelho do armário. Os longos cabelos escuros, presos em um rabo de cavalo, destacavam os piercings. Não gostava de acessórios, nem de cabelos longos; eram impráticos. Mas a imagem pública criada para si exigia aquilo. Isso é, a imagem de Dário Khalil.
Porque Dário, famoso guitarrista da banda Lovestars, escondia outra identidade. Menor de idade, sim, mas ele também dividia sua identidade como o agente Número 01 das Forças Espectrais.
Com um simples truque de ilusão, viu no espelho os cabelos recuarem até ficarem curtos e brancos como papel, e os piercings desapareceram; um truque de ilusão barato. Cobriu os olhos com óculos de proteção padrão das Forças Espectrais e só bastaria alterar um pouco sua postura.
Diante de si apareceu uma nova silhueta, forte e austera. O contraste era total: o ídolo de aparência frágil e misteriosa jamais seria associado ao agente implacável considerado por todos o mais poderoso desde a aposentadoria de Martins. Até mesmo sua nova aparência foi desenhada para lembrar os cabelos brancos do grande herói nacional.
E ninguém podia saber. Pelo menos não ainda. Número 01 nunca dera entrevistas nem mostrara o rosto; sua existência era sustentada apenas pelas imagens oficiais divulgadas pelas Forças Espectrais, e por suas aparições pontuais em situações complexas envolvendo a necessidade de magistas. Ele era um soldado, não um artista, diziam, em contraste com outros magistas de alto nível que exibiam pompa em público. E quanto mais o segredo era fermentado, mais a cidade se enchia de rumores e lendas sobre sua identidade — todas absurdas, mas sempre repetidas com fascínio, tangente à verdade, mas nunca sobre ela.
Assim, precisamente às 6 horas, o agente Número 01 saiu do quarto e sentou-se à mesa; um outro agente, à paisana, serviu-lhe o café no instante em que se acomodou. Dário mastigou a refeição com precisão contada, sem notar o que ingeria. Ao terminar a última colherada, o prato voou até a pia e ele retirou-se em silêncio.
Na sala, Gabriel acomodava-se no sofá, as sobrancelhas franzidas, massageando as têmporas enquanto murmurava:
— Maldita magia da escuridão e todos os seus desgraçados. Não consigo ter uma noite de sono em paz com esses terremotos infernais.
A TV exibia notícias. A Segunda Chuva ainda deixava consequências meses depois, além dos tremores recorrentes e das rachaduras no céu. Tudo isso deixava o medo aceso. Principalmente quando o assunto era a nova magia — invisível, quase indetectável — tornara-se objeto de pavor entre quem temia o desconhecido: a magia da escuridão.
De mau humor, Gabriel lançou-se contra Dário ao vê-lo:
— E o que você ainda está fazendo aqui, seu preguiçoso? — atirou uma xícara vazia que por sorte não o acertou. Vendo que ainda não tinha passado a agenda, empurrou o tablet para ele: — Leia por si mesmo. — Dário decorou a extensa lista de tarefas em segundos e devolveu o aparelho. — O que agora? — resmungou Gabriel. — Vai!
Na varanda, o agente Número 249 aguardava para assumir. Figura robusta, treinada para ser segurança, motorista e babá, sua única função na última década foi acompanhar Dário. Ao ver o parceiro, Dário apenas disse em voz baixa: — Mansão Khalil. — Número 249 assentiu, o rosto tão vazio quanto o do jovem, virou as costas e alçou voo.
Do alto, a cidade de Orchestra se estendia em um mosaico irregular saído da penumbra, já com a movimentação da primeira hora do dia. Torres recém-erguidas brilhavam com reflexos metálicos, cercadas por avenidas suspensas e fluxos contínuos de aerocarros, mas bastava olhar um pouco além, para ver o contraste: crateras abertas, prédios tombados e bairros inteiros ainda em ruínas. As marcas dos primeiros terremotos permaneciam visíveis como cicatrizes na paisagem — blocos flutuando em andaimes de contenção mágica, colunas de fumaça isoladas, e o brilho esverdeado dos escudos de reconstrução oscilando entre destroços. Apesar do movimento constante, algo de melancólico persistia no ar, mostrando que a cidade apenas fingia que ainda era inteira.
O primeiro compromisso do dia de Dário era, por acaso, uma visita programada à sua mãe, Natasha Khalil. Àquela altura, tratava-se apenas de uma formalidade. Ele não podia dizer que sentia falta do amor materno — como se sente saudade do que nunca se teve? Dário nem sabia que isso existia.
Gabriel, no entanto, achava prudente registrar várias provas do bom relacionamento entre Número 01 e Natasha, prevenindo futuros problemas quando a identidade do garoto viesse a público. Afinal, haters existiam em todos os lugares, e as possibilidades eram inúmeras. Era seu dever estar preparado para todas.
Entrando sorrateiramente na mansão pelo jardim, Dário e Número 249 seguiram a passos regrados até a copa, onde um suntuoso café da manhã estava exibido. O ambiente, porém, estava tomado por câmeras, refletores e uma pequena equipe técnica que finalizava a iluminação. Um maquiador recolhia seus pincéis apressadamente, limpando a cena.
Natasha Khalil sentava-se diante da mesa, uma taça de vitamina de manga nas mãos, dispensando manchete após manchete no aplicativo de notícias. Ela deu uma olhada rápida nos últimos retoques em seu rosto. A postura impecável, o tailleur neutro e os cabelos curtos perfeitamente penteados formavam a mesma imagem pública de sempre — calculada, precisa, inalterável.
— Uma foto para a matriz, senhora? — Pediu um contra-regra.
Natasha manteve o sorriso até ouvir o clique do obturador principal. Assim que o operador de câmera sinalizou, ela largou a taça sobre o pires e recostou-se, exalando impaciência.
— Podemos encerrar logo isso? — murmurou, sem demonstrar um sinal de reconhecimento pela chegada de Dário. — Tenho uma reunião em vinte minutos.
Do outro lado da mesa, os contra-regras iniciaram a gravação. Quando percebeu que as câmeras estavam posicionadas, ela levantou os olhos por trás dos óculos dourados, exibindo o que parecia um sorriso amoroso.
— Oh, filho? Não sabia que viria hoje — disse, com o tom artificialmente doce e absolutamente controlado, com um suspiro pesado, ela balançou a cabeça, resignada — Já lhe disse que você ainda é muito novo para trabalhar tanto pelo povo…
— Eu tenho todo esse poder, não posso ficar só em casa fazendo nada. — Dário continuou.
— Como assim fazendo nada? — Natasha devolveu impotente, sem ter como lidar com um filho tão excelente em todos os sentidos, que ainda queria fazer mais.
Tão altruísta….
O garoto permaneceu cumprindo cada gesto ensaiado — inclinar a cabeça, sorrir brevemente, responder às falas previstas. O encontro era uma encenação completa: cada olhar, cada palavra, cada movimento meticulosamente calculado para transmitir uma imagem de proximidade entre os dois.
Enquanto os flashes e refletores iam se apagando, Dário desviou o olhar para o restante da copa. A mansão parecia mais um cenário do que um lar. E um dia havia mesmo sido um lar. O único traço de humanidade que sobrara, era a longa prateleira de porta-retratos, mostrando um casal e seu bebê, envelhecendo foto após foto até o sorriso banguela de um garotinho de cinco anos.
Ele se deteve diante da imagem da mãe jovem e radiante, com o menino no colo. Ambos sorriam, iluminados pela luz natural, segurando um livro colorido. Um instante genuíno, congelado antes que tudo se tornasse performance. Aquela fora a última foto antes dele receber uma gota de luz e ser levado pelas Forças Espectrais.
Onde aquele garoto e aquela mulher tinham se perdido? Como ele se tornara apenas uma marionete de gestos programados? As perguntas ecoaram em silêncio.
Dário não fora criado para buscar explicações, apenas resultados. Mas, ao olhar para a foto da mãe lendo um livro para o menino em seu colo, sentiu um impulso diferente — talvez o primeiro em muito tempo.
A reunião amorosa — tensa — entre Dário e Natasha terminou num tom estressante meia hora depois de se iniciar. Dário refez seus passos indo em direção à saída da mansão Khalil, com sua postura rígida e olhar impassível, para atender ao próximo item em sua agenda.
Ninguém reparou no espaço vazio deixado por um livro desaparecido na estante da biblioteca particular de Natasha no segundo andar, nem no pequeno volume extra que surgiu abaixo do uniforme perfeitamente alinhado de Dário.