A Última Gota de Escuridão - Capitulo 4

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Do outro lado da escuridão – parte 2

 

POV: Dário Khalil

Não muito depois, Dário e Número 249 chegaram ao próximo compromisso da agenda. Como agente numerado, ele deveria aprender a lidar com problemas da agência, patrulhando fronteiras em busca de faunos ou ents próximos de Orchestra. Missões que Número 249 registrava para futuras propagandas sobre o garoto.

— Cobrir 150 km. Duas horas — disse Número 249, verificando os dados da missão.

Partiram voando em baixa altitude.

As patrulhas eram no geral tranquilas. 

A dupla pairou sobre uma extensa planície morta na fronteira Sul de Orchestra. A região da fronteira era um território vazio e árido de dois quilômetros em todas as direções que a cidade tentava recuperar depois da guerra. Nem um preá, gambá ou gato do mato se atrevia a rastejar por aquelas terras. Porém, insetos tinham menos instintos, por isso, também tinham menos escrúpulos. Era comum achar tanajuras e pulgões invadindo; escorpiões e lacraias vinham logo depois. Dario enviou uma esfera de mana para um vespeiro, dizimando-o instantaneamente. 

Depois da terceira ou quarta ronda, Dário desviou levemente de sua posição, voando atrás e acima do parceiro, fora de seu campo de visão das câmeras. Discretamente, pegou o livro que havia surrupiado na biblioteca e começou a ler, o coração acelerado pela adrenalina. Pequeno, terminaria rapidamente em menos de meia hora. Ler não era permitido, mas nunca fora explicitamente proibido.

Era a primeira vez que Dário lia por iniciativa própria depois de se recobrar. As palavras mergulharam nele, trazendo mais perguntas do que respostas. Se afogando em dúvidas, ele mergulhou naquelas palavras, e as palavras mergulharam nele. 

— … Tudo o que fazia era tão matematicamente sempre o mesmo, que a imaginação, insatisfeita, procuraria ver além…

Reconheceu-se no personagem apático, mas vivo, e admirou o secretário que aceitava erros, causava inconvenientes e seguia em frente. Dário sentiu que realmente poderia existir algo além da obediência cega.

— Ele quer fazer isso… Não é?

O querer nunca antes tinha sido uma possibilidade. 

— As pessoas reais também tem querer? Eu tenho querer? Mas… é proibido… ou não é?

Dario repassou mentalmente todas as ordens e comandos que já haviam lhe passado. Estava confuso. Parecia haver inúmeras inconsistências em sua mente. 

Enquanto pensava, as linhas ao seu redor foram ficando menos translúcidas, até Dário se perceber, surpreso, entre um casulo de cordas Ev linhas, das quais muitas estavam acorrentadas por uma força externa que ele não tinha poder sobre. 

Número 249, voando logo abaixo, tinha ainda mais cordas acorrentadas. Cada uma delas controlando suas ações. Uma verdadeira marionete, como Dario também fora meses antes.

Obcecado com a ideia do quer, Dario estalou os dedos, sua magia escapou levemente, formando uma massa tremeluzente de energia negra, com fagulhas multicoloridas. O mundo à sua frente mudou de vez. Não via mais apenas as sinas de sua própria vida ou do parceiro, mas um emaranhado infinito de linhas:  de todos os passados, presentes e futuros. Instintivamente, ele entendeu o significado delas.

Dario observou sua própria mão flamejante e depois o Agente Número 249 abaixo, concentrado na missão, alheio ao comportamento disruptivo de Dario, manifestando seu poder. O querer de testar sua habilidade cresceu, misturado à excitação de finalmente agir por vontade própria.

Mais de uma década de obediência e contenção culminaram naquele instante. Sem pensar completamente nas consequências, Dário seguiu as sinas como um manual de instruções e empalou as chamas pretas pela cabeça de Número 249. 

POV: Carlos

Número 249 abriu os olhos diante de um céu amplo, manchado por tons multicoloridos que se confundiam entre as nuvens. Por um momento, não soube o que estava vendo.

Deitado num chão árido, ele piscou várias vezes até perceber que realmente estava ali — vivo, sozinho e completamente perdido. Tentou se lembrar de como chegara àquele lugar, mas nada vinha. Um vazio latejante tomou conta de sua cabeça. Quando se ergueu de súbito, uma dor violenta o atravessou pela nuca, como se o crânio tivesse sido rachado.

Respirou fundo, cambaleando. A guerra! O que tinha acontecido com a guerra? Onde estavam os ents e os faunos? Orchestra ganhou a batalha? E quanto a Martins e o Demônio Amarelo? O vento seco lhe cortava o rosto. Suas memórias estavam confusas e embaralhadas e não sabia onde ou quando estava. Foi então que o notou — alguém o observava em silêncio. Agachado, imóvel, pronto tanto para fugir quanto atacar.

— Número 01? — murmurou, sem entender de onde a memória daquele nome viera. 

Era a primeira vez que Dário ouvia uma emoção humana sair da voz de um agente numerado. Ele hesitou. Tinha medo do próprio experimento, mas se o Número 249 estava acordado, então o feitiço dera certo.

Dário percebeu que era bom com magias espirituais. As linhas que vira emanando do parceiro denunciavam um controle mental profundo, rígido, imposto há anos. Usar a nova magia escura para romper aquilo — mesmo que por instinto — fora arriscado, mas parecia ter funcionado para libertar o querer dele.

Enquanto Dário confirmava em silêncio o resultado, Número 249 começou a andar em círculos, murmurando palavras sem nexo. As mãos apertavam os lados da cabeça como se tentassem impedir algo de escapar. O peito arfava. O olhar tremia. Ele conseguiu finalmente fazer sentido do que estava acontecendo.

— O que… o que você fez? — a voz dele saiu falhada, presa entre o medo e a lucidez.

Dário não sabia o que ou como — apenas fez. 

Abriu a boca, mas nenhuma explicação lhe ocorreu. As palavras travaram antes de nascer, e ele ficou quieto. Número 249 o observou por um instante, respirando rápido — o ar parecia rarefeito e seu peito estava pesado. Entendeu que não adiantava insistir; precisava pensar. Precisava controlar-se.

Retirou o visor e a máscara, e o ar frio lhe queimou a pele. Engoliu em seco. O coração batia descompassado. “Respira… pensa… pensa.”

— Eu sou… Carlos. — As palavras escaparam num fio de voz.

Dário não entendeu se era uma afirmação ou uma pergunta. Carlos, por outro lado, sacudiu a cabeça. Tudo o que lhe restava era um nome solto no vazio, sem rosto, sem passado. Tentou puxar mais lembranças, mas encontrou apenas a rotina mecânica dos últimos quinze anos — e a lembrança vaga de ter sido designado para vigiar aquele menino.

— …Carlos? — Dário repetiu, testando o som, curioso. Ele não parecia entender o peso que havia em ter um nome. — Eu sou… Dário?

Carlos o fitou de volta. A testa franzida, as têmporas latejando. Sob as luvas, as mãos envelhecidas tremiam. O corpo musculoso, treinado, parecia o de um estranho. Se não fosse pela sensação instintiva de pertencimento, ele teria acreditado que renascera num outro homem. A sensação de falta de ar cresceu.

Estava tão velho… Quantos anos haviam se passado? Carlos não sabia. Sua última lembrança clara era a de ter caído em batalha durante a guerra. As implicações sobre isso eram aterrorizantes. Alguém havia selado sua mente!

— Você… bem? — Dário sussurrou com voz trêmula, a fala dura, fragmentada

Carlos desviou o olhar, lutando contra a vertigem. O pânico subia como uma maré silenciosa — a visão ondulava, o som se distorcia.

Mas ele era um agente. Não podia ceder. Precisava raciocinar. As Forças Espectrais haviam sido tomadas! Quem? Como? Todos os agentes estavam sob controle? Desde quando? Eram tantas perguntas.

E agora estava livre. Ele e o garoto! E de novo: Como?

— Esse tipo de controle mental. Isso não devia ser possível. — A verdade caiu como uma pedra em seu estômago. — Não… não, não, não! — a voz falhou de novo, o controle se esfarelando — Ninguém pode saber disso. Ninguém!

Dário recuou um passo, alarmado, os dedos crispados como se esperasse um ataque.

— Fiz… errado? — perguntou. O som de sua voz imaturo e sem prática.

Carlos o olhou e percebeu que, apesar de tudo, ele era só um garoto. Um garoto que nunca aprendera a pensar por si. Forçou o corpo a relaxar, respirando fundo.

— Não… ou melhor… sim — tentou organizar o pensamento — Se descobrirem que estamos… livres, estaremos em perigo.

— Por… quê?

Carlos estudou o rosto impassível do rapaz. Era perceptível… ele mal sabia falar, sequer a confusão e as dúvidas que sentia estavam expressas em seu rosto.

Apertou o maxilar, buscando palavras que o cérebro ainda relutava em ordenar.

— Porque somos… éramos… somos ferramentas. É isso o que viramos. Nada mais, nada menos — O tom saiu rouco, quase um sussurro — E ferramentas que quebram… são descartadas.

Dário piscou devagar, tentando entender.

— Eu… forte. Não quebrei! — Disse com um tom de hesitação, fazendo surgir uma esfera violeta sobre a palma para provar seu ponto. A mana tremia, faminta, viva.

Carlos sentiu a espinha gelar. O garoto era assustador. Uma esfera de mana conjurada casualmente era suficiente para matá-lo dez vezes. Engoliu em seco e tentou explicar:

— Se as coisas estão do jeito que eu acho que estão, não é seguro para nós temos recebido nosso livre arbítrio de volta. Já perdemos. Seja lá quem planejou isso, não vai gostar nada de saber. Viramos um risco. Nós não vamos mais funcionar como ferramentas adequadas.

Dário ruminou sobre aquelas palavras sem conseguir entender. Revirou novamente todas as suas regras e comandos, mas ainda não conseguiu achar por que isso era um problema.

— Mas por que ferramenta? Por que não pessoa? Não… faz sentido… — Dário murmurou, quase infantil.

Carlos fechou os olhos por um instante. Ficou calado até o ar finalmente começar a circular nos pulmões.

— Não, não faz. — Disse mais calmo, ainda que cansado. — Ser tão forte não te deu poder. Só te transformou em uma posse. 

Ele deu alguns passos, alongando os ombros, tentando forçar o corpo a responder. O coração ainda estava acelerado, mas ele já conseguia pensar.

Bateu de leve no ombro do garoto. As condições dos dois eram vastamente diferentes.

— Eu ainda sinto as amarras na minha mente. — A voz soou mais firme. — Nós não estamos livres ainda. Quando você puder escolher a que regras obedecer, nesse dia, você vai poder fugir e virar uma pessoa de verdade. Se tentarmos alguma coisa nessas condições, estaremos jogando nossas vidas fora por nada.

Dário observou a luz da esfera de mana se dissipando de sua mão, confuso. O silêncio que se seguiu foi denso, mas estranho em sua calma. Carlos tinha muitas perguntas que precisava fazer, mas manter a calma já estava ocupando muito de sua sanidade.

Seguiu Dário com o olhar, incerto. Ele não culparia o garoto por ter libertado sua mente, mas as condições dos dois não poderiam ser piores. Caso alguém percebesse qualquer inconsistência, execução seria o melhor dos resultados.

— Agora… o que… faz? — o garoto perguntou, forçando as palavras.

Carlos respirou fundo, olhando o horizonte deserto.

— Agora? — respondeu, sem virar o rosto. — Você não saberia como quebrar o resto do controle mental que fizeram na gente, saberia? — Dário balançou a cabeça. — Nesse caso… a gente sobrevive. Precisamos juntar informações e ganhar tempo. Fingir que tá tudo normal e seguir em frente.

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