A Última Gota de Escuridão - Capitulo 5
Não é justo
POV: Dário Khalil
Dário devolveu o livro para a biblioteca na primeira chance que teve, quando voltou à casa de Natasha. Fê-lo escondido, aproveitando o silêncio da madrugada. Na mesma noite, roubou outro, também pequeno o suficiente para caber sob o uniforme. Lia-o repetidamente antes de dormir, as palavras preenchendo o vazio que sempre o acordava, quando tinha sonhos mais intensos.
Os sonhos, por si, já haviam se tornado mais nítidos, coloridos e abstratos desde o dia em que usara as chamas negras contra as sinas que prendiam a mente de Carlos. Seus próprios pensamentos estavam mais fluidos e imaginativos.
Carlos, por outro lado, agia como se nada tivesse acontecido. Falava pouco, mas seu silêncio agora era diferente — não o silêncio mecânico de antes, e sim o de quem teme lembrar. Às vezes, Dário o via com o olhar distante, preso a um ponto invisível no horizonte. Não perguntava nada. Talvez também tivesse perdido suas próprias memórias. Talvez o passado fosse só um peso inútil na mente das pessoas.
A rotina só se quebrou quando receberam uma nova ordem: interceptar um terrorista em um centro comercial
Quando chegaram, o local já estava evacuado. Um grupo de agentes cercava o alvo — um garoto, talvez da idade de Dário, convulsionando sob uma explosão descontrolada de mana. A energia se dispersava como uma tempestade, rasgando vitrines e arrancando pedaços do chão.
Não um caso grave, nem de terrorismo. Só mais um espectro que perdera o controle. Como era de protocolo, Dário se teleportou para perto e o imobilizou por trás, mantendo-se alerta para a presença do tal terrorista. Com certa familiaridade, conduziu o fluxo de mana para fora do corpo do rapaz. A energia subiu em feixes até o céu e se condensou em uma chuva. O garoto caiu de joelhos, trêmulo, respirando com dificuldade. Seus olhos vermelhos se fixaram em Dário, cheios de medo.
Dário não entendeu o porquê. Era só uma descarga fora de controle — nada que merecesse tanto pavor. Então ouviu a voz de Gabriel pelo comunicador:
— Execute o terrorista.
O corpo de Dário travou. Terrorista? Olhou ao redor às pressas. Por acaso esse terrorista era um espectro tão poderoso capaz de esconder a própria presença dele?
— Está me ouvindo, Número 01? — Depois, mais baixo, ao fundo — Patético. Parece que o comunicador parou de funcionar.
Menos de um minuto depois, Gabriel apareceu. Teletransportado por outro agente, surgiu como uma sombra impaciente.
Estalou os dedos na cara de Dário, depois apontou para o rapaz.
— Mate-o. Agora. — Revirou os olhos e saiu de cena. Não dava para perder a manchete perfeita.
Dário olhou para o garoto caído. Ele tremia, ainda mais apavorado que antes, mas cheio súplica em seus olhos.
— P-por favor… eu sou inocente. Fiz tudo certo… não reagi? Eu só quero… viver.
A mão de Dário se ergueu sozinha. Ele a observou, horrorizado, como se não fosse dele.
Nunca tinha matado ninguém. Nunca tinha recebido uma ordem assim.
E, ainda assim, obedeceu.
Um feixe invisível partiu de seus dedos.
O corpo do garoto convulsionou uma única vez, depois silenciou.
Sangue escorreu por todos seus orifícios. Até as lágrimas eram vermelhas. O cérebro dele tinha sido destruído por dentro. Era a forma mais rápida e eficiente.
Gabriel fez uma careta de nojo.
— Repugnante. Da próxima vez, seja mais rápido. E limpo. Estávamos filmando isso.
Dário olhou para a própria mão. Uma única gota de sangue, ainda quente, manchava a luva.
Era disso que Gabriel falava sobre ser mais limpo?
— E vá substituir o equipamento antes de voltar para a rotina — ordenou, já se afastando.
Em instantes, dezenas de agentes chegaram. Derrubaram muros, explodiram vidraças, distorceram a cena até que tudo parecesse o resultado de um ataque em massa. Outro agente tirava fotos de Número 01 imóvel, estóico ao lado do corpo.
As imagens sairiam nos jornais:
“Número 01 neutraliza terrorista da escuridão.”
Mas Dário sabia. Não havia terrorista algum.
Só outro garoto como ele.
Após serem dispensados, Carlos se aproximou, pegou Dário pelo ombro e o levou para a fronteira, onde não havia olhos ou ouvidos curiosos.
— Você está bem? — perguntou, abaixando-se para ficar na altura dos olhos do garoto.
Catatônico, Dário ainda encarava a pequena mancha de sangue na luva. Parecia pesada, suja, repugnante. Respirando com dificuldade, arrancou a luva e a arremessou longe.
Ainda insatisfeito, removeu os óculos de proteção, mas a sensação de sujeira continuava. Os calos da palma, formados por anos de treino, pareciam impregnados de sangue sujo.
Angustiado, Dário se teletransportou até uma nascente a quilômetros dali e começou a lavar as mãos. A água fria não ajudou. Ainda se sentia sujo.
Sem entender o porquê, passou a esfregar a pele com uma pedra. Quando Carlos chegou, alguns minutos depois, a mão de Dário já estava em carne viva. — Já chega! — a voz de comando de Carlos cortou o som da água.
Dário parou. Apenas olhou a própria pele destruída.
— Eu… não… eu não… queria… — balbuciou, com a voz falha.
Carlos suspirou. Ajoelhou-se ao lado dele, retirou-lhe a mão da água e conjurou um feitiço simples de cura.
— Eu sei. Ainda estamos sob controle. Não há o que fazer contra ordens diretas. Não é culpa sua.
— Mas… eu… ele… — Dário tentou, mas as palavras se desfaziam. — Por que ele?
Seu corpo inteiro tremia. A repulsa pela própria mão era insuportável, como se o sangue alheio tivesse peso. Carlos o observou, e pela primeira vez viu emoção nos olhos do rapaz. Ele podia ter sido treinado para não expressá-la, mas não sentir era outra história.
— Por que decidiram matar o garoto?
Dario confirmou.
Carlos apertou os lábios. Mesmo ele que ainda não tinha tudo tempo de entender tudo o que havia mudado nos últimos anos conseguiu entender o problema. Mas com certeza, sendo comum não deveria ser o forte de Dário.
— Você não reparou mesmo?
Dario não entendeu.
— Ele era um espectro da escuridão. Com toda propaganda que estão fazendo contra eles, era só uma questão de tempo até acharem um bode expiatório. E não é muito difícil passar uma explosão de mana como um atentado.
— Ele… olhou… pra mim… — murmurou, com a garganta apertada.
Carlos tirou os próprios óculos e o fitou diretamente.
— Escute bem, Dário. — Sua voz era firme, mas baixa. — Não foi você. Você é uma arma. Ainda não tem o poder de puxar ou impedir o gatilho. Mas vai ter. Precisa ser forte o bastante pra isso. Até lá, nada disso é sua culpa.
Dário deixou-se cair, exausto. Escondeu o rosto entre os joelhos, metade do corpo dentro d’água. Carlos lhe deu algumas palmadinhas nas costas, sem saber o que mais fazer. Talvez ter consciência fosse um fardo maior do que ser apenas uma máquina. Carlos olhou em volta, um pouco nervoso. Já estavam mais dentro do território dos ents do que na fronteira.
— Eu vou até a logística pegar o equipamento. Cumpro as próximas missões sozinho. Tire o tempo para relaxar e espairecer, mas não fique muito tempo aqui, é perigoso. Qualquer coisa, me acha no local do próximo compromisso. — levantou-se, ajeitando o casaco. — E não se machuque de novo, entendeu? Estamos nisso juntos.
Carlos desapareceu. Dário ficou, imóvel. O sangue ainda parecia grudado na pele. As palavras de Carlos ecoavam em sua mente, girando em loop.
— Não… justo… — murmurou para o vazio.
O que aquele garoto tinha feito de tão grave pra morrer sem julgamento? Carlos estava certo — ninguém o ouviu. Gabriel apenas decretou. E Dário… obedeceu.
As lembranças queimavam. A raiva crescia.
— N- não é justo! — repetiu, a voz falhando.
Talvez aquele garoto também não tivesse escolha. Talvez pudesse ter sido como ele. Mas já era tarde. Ele estava morto — e Dário o tinha matado.
— Não é justo! — sussurrou, dessa vez com firmeza, erguendo-se.
Concentrou-se nas duas fontes de magia dentro de si. Se luz e escuridão separadas não bastavam, então tentaria fundi-las. Uma aura violeta brilhou em uma mão; da outra, saiu névoa negra. Forçou as energias a se misturarem.
Difícil. Instável. Ainda assim, insistiu. Repetiu o processo, várias vezes, até sentir que compreendia o fluxo.
— Preciso… força… mais… — arfou.
Aceitou que não tinha poder pra mudar nada — ainda. Mas usaria a injustiça como combustível. Iria limpar aquele sangue de sua mão, de um jeito ou de outro.
Quando Carlos voltou, horas depois, ficou imóvel. Chamas negras cercavam Dário, dançando como se tivessem vontade própria. Sabia que o garoto também dominava a escuridão, mas ver aquilo era diferente. Se Dário não tivesse contido o poder, talvez nem fosse reconhecível.
— Precisamos ir. — Carlos chamou, hesitante de se aproximar. A noite já caíra, e a única luz vinha das estrelas.
Dário assentiu, exausto. Vestiu o novo equipamento, olhou a própria mão uma última vez. A sensação de estar prestes a alcançar algo voltou — difusa, mas real.
Tanto faz. Seguiu Carlos, e os dois desapareceram.
Pouco depois, no lugar onde Dário estivera, o ar se distorceu. Um estalo seco ecoou. O espaço, como um tecido rasgado, cedeu.