A Última Gota de Escuridão - Capitulo 6

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Ramon – parte 1

 

POV: Mirian Tristan

Quando os dois caíram da fenda, o gosto da água veio primeiro — metálico e fresco. O conforto molhado e morno da temperatura foi logo depois, espalhando-se pela pele como um lembrete gentil de que o corpo ainda estava vivo. Mirian abriu os olhos para o céu estrelado do mundo exterior em choque e absorveu com ganância cada pequena sensação depois de tanto tempo de privação. O ar tinha cheiro de terra úmida, e o som da água corrente do riacho parecia o canto mais bonito que já ouvira.

Depois percebeu: ainda estava sendo carregada como um saco de batatas no ombro sadio do rapaz, que, fora de seu foco de atenção, estava coberto de chamas pretas e cintilantes. A assistência dele contrastava com a serenidade do ambiente, as brasas de sua energia tremulando como um coração cansado. Parecendo acostumado a um hábito de quem nunca se permite relaxar completamente, olhava os arredores antes de baixar a guarda. Suas chamas retrocederam calmamente, obedecendo ao seu comando silencioso.

Um brilho de reconhecimento passou por seus olhos enquanto sondava o lugar. Inspirou fundo e sentiu no ar a saudosa presença da mana, que cada fibra de seu corpo tanto ansiava. Pôde até mesmo perceber outras informações: traços recentes do uso de chamas e o eco tênue de duas presenças. Momentos antes, alguém estava ali, às margens daquele riacho — humanos.

Mas a fadiga o acompanhou e cobrou o que lhe era devido por seu preço. Seu joelho cedeu antes que ele percebesse. Sem deixar Mirian, que ainda estava em seu ombro, cair, ele apoiou um joelho no chão, o som do impacto abafado pelo barulho da água. Sua respiração saiu forte, irregular, cheia de exaustão contida.

Mirian piscou, confusa, e só então lembrou-se dos ferimentos alheios — do quanto ele deveria estar sofrendo para conseguir carregá-la até ali pelo resto do caminho.

— Essa não…! Você está sangrando de novo — a voz saiu baixa, trêmula, quase um sussurro. Ela se apressou a se soltar, as mãos hesitantes, como se tivesse medo de piorar algo. — Precisamos encontrar ajuda…

Ele inspirou fundo, acompanhando os olhos dela para as próprias feridas que começavam a tingir a água de vermelho.

— Não é nada — respondeu entre dentes, forçando um tom neutro, o tipo de calma que só vem do hábito de ignorar a dor. — Você está a salvo. É o que importa. Volte pra casa.

— Você fala como se minha vida fosse mais importante que a sua. — Mirian retrucou, pasma.

Mirian ajudou o rapaz a se sentar nas margens e olhou ao redor se dando conta de onde estavam.

Aquele lugar não era uma piscina ou um laguinho. Era um riacho legítimo com água corrente descendo a chapada. Arbustos e até pequenas árvores se espalhavam ao redor. Os garranchos espinhosos distorciam para todos os lados, com folhas pequenas e escassas.

Não existiam plantas em Orchestra.

Com uma golfada de ar, Mirian sussurrou com todo o corpo trêmulo:

— Acho que estamos além da fronteira. Apenas na fronteira tem árvores assim…

— Uhum… — ele já sabia.

Mirian engoliu em seco, exasperada pela (falta de) reação dele.

— Precisamos fugir! — ela insistiu, já procurando por qualquer outra coisa que pudesse usar de maca.

— Está tudo bem. Você pode ir. — a voz dele estava arrastada.

— Você! — Mirian estava prestes a ficar irritada, mas percebeu que o rapaz estava claramente perdendo a consciência. — Não, você não pode desmaiar aqui. Vai virar lanche de faunos.

— Está tudo bem… — ele repetiu. — Eu preciso dormir…

Mirian tocou a testa dele, alarmada, mas com o toque percebeu algo além da temperatura — seu objetivo inicial: as emoções dele. Ele não estava mesmo preocupado com aquele lugar. Além disso, uma torrente constante de mana fluía pois ele. Seja lá qual fosse o plano dele, ao menos Mirian pôde ter certeza de que havia um. Ele não havia desistido.

Mirian o pegou no colo — ele era muito mais leve do que lhe dava crédito — e com cuidado o levou até uma pequena fissura entre pedras próximas às margens. Escondeu-se o melhor que pôde, não que isso fosse mudar alguma coisa, caso um fauno ou um ent realmente aparecesse.

A noite passou lentamente. O zunido dos insetos, o farfalhar das árvores e, vez ou outra, até o rastejar das criaturas da noite interrompiam aquele silêncio estranho. Eram coisas que Mirian nunca ouvira antes.

— Você ainda está aqui… — a voz fraca do rapaz quebrou o transe da noite pouco antes da alvorada.

— O que eu deveria fazer? Ir embora sozinha, no meio da noite, mesmo sem saber para que lado ir? — estava mal-humorada e desconfortável. — Tentei limpar suas feridas. Você tem mesmo que dar um jeito nisso.

Ele olhou de relance para o ombro — que, sabe-se lá porquê, ainda não estava altamente infeccionado.

— Perdão. Deixe-me recuperar um pouco mais de mana, caso contrário irei perder a consciência novamente após a cura.

Mirian apertou os braços contra o corpo. Sentiu-se horrível após ele ter devolvido seu mau humor com educação. Decidiu se apresentar finalmente.

— Meu nome é Mirian.

Ele hesita. Muito alarmado para alguém que só ouviu um nome.

— Não vai me dizer o seu?

— O meu… Eu não tenho mais um nome. Pode me chamar do que quiser.

Mirian ruminou um pouco sobre aquela informação. A identidade real dele com certeza era algo sensível de ser compartilhado.

Ela escolhe sem pensar demais:

— Ramon então.

Porém o corpo dele enrijece, o olhar muda cheio de reconhecimento e espanto. Mas antes que Mirian pudesse perguntar se havia algum problema, ele concorda:

— Entendido. Que seja Ramon.

Os instintos de Mirian disparam.

Ele estava escondendo algo perigoso, concluiu — e decide não fazer mais perguntas. Melhor do que acabar se envolvendo em algo problemático. Não era parecido se envolver com ele mais do que o necessário.

— Você sabe o que é aquilo?

Ela mudou de assunto, apontando para a pequena fenda — onde os dois tinham passado para conseguir escapar — ainda pairando calmamente como um buraco negro inofensivo.

— Ou o que é aquele lugar…

— Aquele… é o vazio. Pra onde tudo vai quando vira o nada, e aquela… aquela é a porta.

Mirian enrijece. Ela tinha um palpite parecido. Afinal, tinha decorado as memórias de muitas pessoas e lugares enquanto esteve vagando por lá.

Ramon percebe a evasão dela e entende que ela já sabe algo — mas finge não notar.

— Você fala como quem sabe essas informações como fatos.

Ele não contestou.

— Como você foi parar lá dentro?

— Me jogaram.

— Faz sentido.

Ele riu.

— Faz?

— Você tem totalmente cara de uma desova que não deu certo.

— Quer saber o que…

— Por favor, não. Perdão por ter me intrometido. Não quero me envolver.

Mirian encerrou o assunto. O silêncio voltou entre os dois.

— Não olhe tanto para a fenda, Mirian. Ela pode te arrastar de volta.

Mirian, sobressaltada, cobriu os olhos às pressas.

— Não está me enganando, está? — ela questionou, um pouco indignada, vendo que ele ainda sorria.

— Infelizmente não. — apesar do sorriso, havia melancolia em sua voz. — Você ainda não pode vê-las, não é?

— Ver o quê?

— As sinas.

Mirian instintivamente soube ao que ele se referia. Balançou a cabeça.

— Só consigo senti-las — e devorá-las, completou mentalmente.

— Tudo nesse mundo está ligado. Se você olhar demais para o vazio, vai acabar criando um destino entre você e o lado de lá.

Ramon a observava em silêncio, e por um instante Mirian teve certeza de que ele sabia o quanto ela compreendia — e estava escolhendo não dizer nada.

Mirian estremeceu com a ideia. Então lembrou de algo assustador. Já havia uma sina presa a ela.

— Esse poder. Eu pensei que tinha me tornado um espectro de luz, mas, mas… isso não quer dizer que eu já estou condenada a ser devorada de novo?

Ramon responde com cuidado:

— É… você já foi escolhida pela escuridão. Mas isso não tem problema. A escuridão não devora quem a compreende.

— E se eu não quiser ou não conseguir compreendê-la?

Ramon apertou o punho com força, o braço intacto tremendo um pouco, mas suprimiu seja lá o que estivesse pensando e completou:

— Então… só então… ela te consome.

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