A Última Gota de Escuridão - Capitulo 6

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Ramon – parte 2

 

POV: Mirian Tristan

 

Mirian olhou para as mãos, relembrando a sensação de tê-las cobertas por chamas negras. Sabia que dava para conjurá-las de novo a qualquer momento. A escuridão era quase palpável dentro de si. Mansa. Domesticada. Faminta…

— Por que suas chamas são diferentes das minhas? — Mirian acendeu uma pequena faísca na ponta do dedo.

Ela lembrou da visão majestosa que Ramon tinha sido. Suas chamas cintilavam como o horizonte estrelado de uma galáxia cheia de vida. Comparadas às dela — pretas e vazias como o fundo de um buraco negro — havia um mundo de diferença.

Ele não respondeu de imediato. De fato, demorou tanto que Mirian pensou que ele não diria nada.

— O fogo é o reflexo daquilo que o alimenta — respondeu por fim, acendendo uma faísca própria.

Mirian observou com atenção.

— Isso… é luz comum! Como a da minha mãe. — franziu o cenho, desconfiada. — Que magia é essa afinal? Acho que nunca vi nada assim antes de mim.

— Você… é o que chamam de espectro da escuridão.

— Espectro da escuridão? Então já existiam registros sobre ela quando você foi desovado?

— Ah… Sim.

— Você está me escondendo alguma coisa.

— Talvez.

— Por quê?

Ele não respondeu. Mirian não insistiu. O silêncio entre os dois pesou enquanto o dia nascia.

— Tem algo que posso te contar, se quiser aceitar meu conselho…

— O quê?

— Nunca conte a ninguém que você é um espectro da escuridão. 

Um arrepio percorreu a espinha de Mirian. Então veio o pânico — primeiro leve, depois crescente. Achou que fosse apenas uma reação ao conselho de Ramon. Mas tudo piorou: o burburinho da manhã rugia em seus ouvidos; os cheiros da mata queimavam suas narinas; e até a brisa ardia contra a pele.

Era a mesma sensação terrível de quando devorara a primeira sina no vazio.

Mirian caiu para trás, gritando, as mãos pressionando a cabeça, quase cravando as unhas na própria pele.

Ramon reagiu de imediato. Mesmo exausto, agarrou-a com a mão sadia, puxando-a para o colo. Abraçou-a com força, tentando conter os espasmos.

— Tá tudo bem, tá tudo bem… você só precisa se concentrar — murmurou, o tom tenso.

— É… demais… dói… — as palavras saíam rasgadas.

— Você está passando por uma explosão sensorial. Seu cérebro não consegue controlar o que recebe. Parece dor, mas não é. Foque em algo, qualquer coisa, que passa.

— Eu não consigo… não consigo focar em nada! — rugiu.

Quanto mais o dia clareava, pior ficava. Além de tudo, até o medo de outra fenda se abrir e tragá-la de volta latejava sob a pele.

Então aconteceu. O toque áspero dos lábios rachados de Ramon contra os dela. Ele ergueu o queixo de Mirian e a prendeu com firmeza. O mundo se dissolveu.

No lugar das sensações externas, restaram apenas as emoções dele. Nervoso, estressado, assustado… mas também preocupado, solitário e, paradoxalmente, aliviado.

Ele só a soltou quando sentiu o corpo dela parar de tremer.

— Você me beijou… — murmurou, atônita.

Ramon pigarreou, desviando o rosto.

— Era uma emergência. Presumi que fosse o método mais rápido pra te fazer focar.

— Você me beijou! — repetiu, incrédula.

— Perdão. Tomei a decisão sem considerar sua opinião e invadi seu espaço. Não vai se repetir.

Mirian piscou, sentindo a tensão murchar. Ele estava sinceramente arrependido — ela podia sentir isso. E, no fim, tinha funcionado. Agora ela que se sentia mesquinha por ter exagerado.

— Não, tudo bem. Eu que estou reagindo mal à toa. Você claramente me ajudou muito e eu aqui reclamando. Obrigada.

Ele riu, aliviado. Ainda a segurava contra o peito. Mirian percebeu, mas não se afastou.

— Pode ficar assim mais um pouco? — pediu ele, num sussurro.

— Por quê? — até parecia que era ele quem precisava de uma âncora. Ele não respondeu, e Mirian deixou estar. Ainda lhe era conveniente.

— Não vou voltar para Orchestra com você.

— Imaginei…

— Já absorvi mana o suficiente para me curar. Mas assim que conjurar a magia…

— …ela vai te derrubar. — completou.

— Uhum…

— O que você quer dizer, afinal?

Ele soltou uma risada seca.

— Não espere por mim para partir.

Mirian não respondeu. A melancolia dele era quase palpável.

— Orchestra fica pra lá. Espere a noite para partir. Vai perceber que é mais seguro assim para você. Fique longe dos agentes espectrais. Eles não são seus amigos.

Ramon continuou, dando instruções sobre o que Mirian devia fazer ao voltar. Ficava claro que ele não pretendia retornar à cidade.

Logo depois, conjurou a cura. Mirian observou o corpo reagindo à mana: músculos se tensionando, respiração acelerada, suor brotando na pele. As feridas cicatrizaram rápido demais, deixando um mosaico de cicatrizes para trás. O ombro parecia um pouco atrofiado comparado ao outro lado.

Quando o fluxo de mana cessou e ele ficou imóvel, Mirian soube que havia terminado.

— Você me ajudou mais do que eu merecia… obrigada mesmo — sussurrou, estudando o rosto mutilado dele. — Mas eu não posso fazer nada por você. Me desculpe.

Mirian dedicou o resto do dia tentando controlar o fluxo de informações dentro da mente — enchendo o tempo todo como uma torneira quebrada, impossível de fechar.

Ao pôr do sol, ajoelhou-se ao lado de Ramon. Encostou a testa na dele e usou o mesmo truque que aprendera no vazio para transmitir pensamentos:

— Ramon, não sei se vai conseguir mesmo me ouvir, mas assim, posso ao menos fingir que me despedi. Seja lá o que for fazer, boa sorte. Se eu chegar bem em casa, não contarei a ninguém sobre você. Boa sorte pra recuperar sua identidade. E… se um dia voltar à Orchestra, não me procure.

Sentindo-se um pouco ousada, e com um leve ressentimento que não iria admitir que tinha, Mirian roubou um beijo rápido no canto da boca dele. Vindicada, ela riu e foi embora.

— Deixo esse como um brinde de despedida. Se cuida!

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Ambientação Futurista, Controle Mental, Distopia, Dois Protagonistas, Identidade Secreta, Magitecnologia, Múltiplas Identidades, Pós-Apocalíptico, Protagonista Anti-Herói, Protagonista Overpower, Protagonista Subestimado, romance, Transtorno Pós Traumático

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