A Última Gota de Escuridão - Capitulo 7
A Vida Depois – parte 1
POV: Mirian Tristan
Antes mesmo de chegar em casa, Mirian percebeu que os conselhos de Ramon eram válidos. A cidade estava, na prática, em estado de emergência. Muitos prédios e construções haviam sido abandonados e uma aura de desconfiança e melancolia cobria as pessoas andando pelas ruas. Os terremotos tinham causado mais estragos do que tinha lhes dado crédito.
Depois de permutar por algumas linhas de metrô, chegou na sua rua. A casa dos Tristan ainda estava no mesmo lugar, intacta. Aliviada e com o coração aliviado, bateu na campainha. Estava sem as chaves.
Os passos arrastados soaram por trás da porta. Dora a abriu distraidamente. O sorriso de Mirian congelou no rosto. Ela, que estava doente de vontade de abraçar a mãe, deu de cara com uma mulher cansada, marcada, desgrenhada e cheia de olheiras.
O coração de Mirian despencou. O de Dora disparou.
— Mirian… — ela sussurrou, cobrindo a boca com as mãos antes de puxar a filha para um abraço sufocante.
Mirian tentou corresponder, mas o impacto veio de atropelo: a enxurrada de emoções da mãe atravessou sua mente sem aviso, uma maré quente de alívio, culpa e desespero.
— Arg… mãe, espera… — Ofegante, tentou se afastar.
Dora não percebeu o desconforto da filha. Chorava enquanto tocava o rosto dela, usando o contato como prova de que ela era real.
— É mesmo você? Minha filha… eu pensei que nunca mais te veria…
— Dora? Quem está…
João Felipe surgiu no topo das escadas. Estava pálido, com a barba por fazer e o olhar vazio de quem envelheceu anos do nada.
— Mirian! — gritou, descendo os degraus em um único salto para abraçar as mulheres da sua vida.
O peso do reencontro se abateu sobre Mirian. Estava presa entre dois abraços, esmagada pelo amor e a culpa.
Alguns minutos depois, já no sofá, o silêncio voltou em fragmentos. Dora segurava a mão da filha com força.
— Tá tudo bem, mamãe… — disse Mirian com um sorriso hesitante. — Eu voltei bem, não voltei?
Os olhos de Dora marejaram novamente e Felipe interveio, antes que ele mesmo também desabasse dessa vez.
— Onde você esteve? — perguntou, quase conseguindo um tom firme entre os tremores e soluços.
Mirian abriu a boca, mas as palavras morreram na garganta.
O conselho de Ramon ecoou em sua mente. Decidiu não falar nada sobre a magia da escuridão ainda, mesmo nunca tendo escondido segredos dos pais antes.
— Eu… não sei.
Felipe mordeu o lábio, pensativo. O olhar clínico percorreu a filha — as mesmas roupas, razoavelmente intactas, do dia do show.
— Como conseguiu voltar assim depois de todo esse tempo?
— Eu… pera, “todo esse tempo”? Como assim?
Os três entreolharam-se confusos.
— Você não sabe quanto tempo esteve fora?
— Alguns dias?
Felipe cobriu o rosto com as mãos, enquanto Dora voltou a segurar a filha pelos ombros.
— Mirian… já se passaram meses.
…
A notícia do retorno de Mirian se espalhou rapidamente entre seu círculo social e familiar. Mirian estava sinceramente feliz em rever todos, mas depois de algum tempo ficou óbvio o desconforto da garota.
Durante as visitas, ela ficava cada vez mais em silêncio, visivelmente atordoada, tentando processar o que meses de desaparecimento significavam. Todos pareciam iguais, só que depois de encarar tanta coisa, as pessoas não eram mais as mesmas. Nem ela.
Até Sarah, a única que testemunhara seu desaparecimento, tentava encontrar algo a dizer, mas havia um estranhamento desconfortante entre Mirian e todos os outros.
Mirian não sabia explicar — e, no fundo, duvidava que alguém fosse capaz de entender e, enquanto isso, todos evitavam perguntas, temendo ativar algum gatilho.
Outros parentes e amigos ainda insistiram em visitá-la. E, no começo, ela até tentou parear o entusiasmo, esforçando-se para parecer grata e presente.
Infelizmente, logo ficou óbvio: Mirian não queria ver ninguém. Ela não conseguia mais reagir e sua exaustão era evidente. Era como assistir a garota se forçando a interpretar um papel que já não lhe cabia. Assim, as visitas cessaram.
A garota animada, estilosa e confiante nunca havia voltado de seu desaparecimento, e o que tinha sobrado dela não era exatamente convidativo. Mirian ficou para trás.
Enquanto isso, André e Sarah seguiam em frente.
Tinham sido aprovados no prestigiado Instituto Heidrun, na turma especial de Magitecnologia – uma das graduações mais concorridas de toda Orchestra tanto por civis como por espectros de luz.
…
Mirian começou a tentar sair de casa, em tentativas de se readaptar à vida, ao se sentir confiante o suficiente para ver o mundo sem sufocar sob o peso dos próprios sentidos. Passeios rápidos à praça ou ao centro comercial, idas ocasionais ao mercado, qualquer coisa que pudesse desafiá-la um pouco a mais que antes.
Caminhava sempre com a cabeça baixa, óculos escuros e abafadores de ouvido, tentando se convencer de que todos acreditavam que ela ainda parecia uma pessoa normal e neurotípica.
Porém, tudo passara a ser uma crise sensorial — mais ruidoso, mais intenso, mais vivo do que ela conseguia suportar.
Os autocarros vibram demais, os outdoors tinham cores em excesso, as vozes eram afiadas demais, o ar carregava o gosto metálico da magia que impregnava a cidade.
Era doloroso e assustador.
Mirian caminhava um passo de cada vez, se esforçando para não esbarrar em nenhum outro pedestre. Só que naquela tarde, enquanto atravessava a rua em direção à estação, algo em seu corpo se enrijeceu. O ar mudou. Um arrepio correu-lhe a espinha, como se a própria cidade prendesse a respiração.
Mirian sentiu um calafrio e se virou para o fim da rua, em tempo de ver o início de um terrível incêndio. Pessoas começaram a gritar e correr, deixando a garota alarmada. Sem escolhas, Mirian se encolheu contra o vão de uma parede entre duas lojas, rezando para que ninguém esbarrasse nela durante as fugas em pânico. Ao mesmo tempo, enviou uma mensagem de socorro silenciosa para André e Sarah, junto com sua localização.
Com as mãos sobre as orelhas e de olhos fechados, Mirian absorveu involuntariamente todas as informações de seus arredores e, como uma projeção perfeita, era possível ver todos os detalhes de todos os acontecimentos ao seu redor diretamente na sua mente,
Com muito esforço, ela identificou a causa do incêndio. Era um espectro da escuridão.
Coberto por uma aura sombria e estranha, ele se debatia para todos os lados enquanto a magia saia de seu corpo em forma de chamas. Em poucos segundos, agentes das Forças Espectrais foram acionadas e já estavam a caminho, usando teletransporte para se posicionarem em um cerco.
Assim que conseguiram retirar todos os civis do perímetro ao redor do incêndio, uma trava dimensional foi acionada. Ninguém mais poderia entrar ou sair daquele espaço sem a chave criada pelos agentes.
Só que para a surpresa de todos, um segundo espectro da escuridão apareceu dentro da trava. Coberto de chamas negras, deixou todos os agentes instantaneamente alarmados e sem aviso prévio, partiram para o ataque.
Mirian congelou. O padrão de mana era… familiar. — Esse fogo… Ramon? — Mirian especulou.
Movendo-se como um fantasma, ele se esquivou com facilidade de todos os ataques corpo a corpo e a distância. A discrepância de poder era tamanha, como um capoeirista profissional se esquivando de várias crianças vendadas, que antes mesmo que todos pudessem tentar atacar uma segunda vez, a equipe inteira das Forças Espectrais já estava caída no chão, imóvel.
Então, sereno, controlado, como se não tivesse acabado de derrotar uma equipe inteira de magistas de médio e alto nível como se não fossem nada demais, o segundo espectro da escuridão entrou calmamente no incêndio. As chamas amarelas foram consumidas pelas negras e se apagaram, deixando apenas os vestígios materiais como prova de que o fogo esteve vivo ali segundos antes.
Fora do campo de visão de todos os outros, o causador do incêndio ainda convulsionava no chão, com mana da escuridão emanando em ondas de seu corpo. O segundo espectro da escuridão se ajoelhou ao seu lado e ajudou a conduzir o excesso de magia para fora de forma controlada. No fim, colocou o homem desnorteado nas costas e desapareceu como fumaça.
Um clarão branco cortou a rua e atravessou a trava dimensional pousando ao lado dos agentes caídos. Os civis que ainda estavam por perto vibraram em aplausos, gritando os codinomes deles como os de heróis: Número 01 e Número 249 haviam chegado.
Mirian, no entanto, sentiu o corpo paralisar. Ela conseguia sentir o poder imenso que emanava de Número 01 sondando toda a região, passando inclusive por ela. Ela podia jurar que ele olhava em sua direção.
O som das sirenes virou um ruído distante, se diluindo entre os aplausos e as torcidas das pessoas ao seu redor. Mirian tentou respirar fundo, mas nem conseguia mais sentir onde estava, apenas a presença opressiva de Número 01.