A Última Gota de Escuridão - Capitulo 7

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A vida depois – Parte 2 

 

POV: Mirian Tristan

 

— Olha pra mim… — alguém agarrou as mãos de Mirian, apertando com um pouco mais de força contra os ouvidos dela — Eu estou aqui.

 

Mirian, atordoada, tentou se concentrar em ver o recém chegado. Ramon parecia diluir todo o estresse que tinha construído nos minutos que testemunhou o incidente. 

 

— Como… me achou aqui? — Mirian sussurrou sem força na voz.

 

— Como não achar? Você parecia um farol prestes a criar um espetáculo igual ao que aconteceu ali. Por pouco Número 01 não trava na sua localização. Sorte sua que eu fui mais rápido.

 

Mirian engoliu em seco, sentindo o corpo relaxar e se dando conta do próprio estado: sentada no chão contra a parede, as pernas trêmulas e o corpo encharcado de suor.

 

— Vamos, temos que te tirar daqui antes que a atenção dele volte para cá. — Ramon disse pegando Mirian nos braços e a levando para a direção oposta.

 

— Ah, não precisa… — Mirian tentou resistir.

 

— Não se preocupe. Você vai chamar mais atenção se se forçar a caminhar nesse estado. Está com toda a cara de quem acabou de ter um ataque de pânico.

 

Ramon rapidamente levou Mirian nos braços para fora da área mais movimentada. Ao final do incidente, uma multidão de curiosos já estava se acumulando. Os dois entraram em uma sorveteria relativamente vazia e sentaram-se num canto. 

 

— Como está se sentindo agora? — Ramon perguntou colocando um copo de água para a garota enquanto avaliava o menu digital na mesa.

 

— Melhor… — Mirian afastou os cabelos ainda molhados de suor do rosto e respirou fundo, olhando direito para Ramon pela primeira vez. — E você?

 

Ele usava uma máscara hospitalar e o que tinha sobrado dos cabelos cobria a metade de cima do rosto. Era possível ver as cicatrizes enrugadas deixadas pelos ferimentos anteriores cobrindo cada área de pele exposta. Comparado ao estado que ele esteve quando se separaram na mata, ele não parecia muito melhor.

 

—  Estou pronto para outra. — Ele riu, puxando a gota da camiseta descontraidamente e mostrando as cicatrizes curadas de seu ombro esquerdo.

 

— Não brinque sobre essas coisas… — Mirian franziu o cenho. Era óbvio que ele não tinha recebido nenhuma ajuda profissional. Sabe-se lá em que condições precárias aquelas feridas e queimaduras haviam se curado e que sequelas tinham deixado para trás. — Era você? Lá no incêndio?

 

Ramon riu, mostrando um lado arrogante — Eu pareço tão impressionante assim, capaz de atravessar uma trava dimensional, fugir com uma pessoa a tiracolo e reaparecer do seu lado em questão de segundos?

 

Mirian revirou os olhos, decidindo desconsiderar aquele comentário. Sendo ele ou não, não era realmente algo que ela precisava saber. Era óbvio que ele sabia de bastante coisa, então ela não podia desperdiçar essa oportunidade — O que aconteceu comigo ali?

 

— Você provavelmente não utilizou da sua mana desde o seu retorno. Espectros possuem um limite máximo de quanta mana são capazes de armazenar; ao excedê-lo, o corpo entra em colapso. Você explode como um balão cheio demais.

 

— Foi isso que aconteceu com o cara que começou o incêndio? — Mirian sentiu a garganta seca e bebericou um pouco de água.

 

— Com o corpo saturado, você passou a ressoar com a mana ambiente. Por isso que Número 01 quase travou na sua localização. Ele podia sentir outra fonte de magia da escuridão por perto.

 

— Ele parece forte… — Mirian estremeceu.

 

— Ele é. Tome cuidado. — Ramon disse com um tom de voz mais grave — Número 01 mataria você sem pensar duas vezes, caso ele descubra o seu segredo. 

 

— Ai, vira essa boca pra lá. Não é como se fossemos esbarrar um com o outro por aí.

 

— Nunca se sabe, só tome cuidado.

 

— Claro, claro… — Mirian concordou — Eu só preciso me preocupar em garantir que não exista nenhum excesso de mana em mim pra me manter fora do radar, não é?

 

— Precisamente. Você vai ficar bem, contanto que ninguém descubra sua magia.

 

Ramon se levantou, foi até o balcão e recebeu o pedido, colocando o sorvete na frente de Mirian.

 

— Agora relaxe e coma um pouco. Vou indo nessa. Quem sabe a gente não se esbarra por aí de novo qualquer dia…

 

Mirian desviou o olhar da taça de sorvete, com várias perguntas ainda entaladas na garganta, mas ele já tinha ido. Assim que ele saiu pela porta, Sarah e André entraram às pressas na sorveteria, seguindo a localização no GPS.

 

— Mirian, finalmente! Você está bem? — Sarah se apressou, tentando pegar as mãos de Mirian.

 

Instintivamente, Mirian recuou do toque, e imediatamente se sentiu culpada, vendo a rejeição que Sarah estava sentindo. André, vendo a amiga sem saber onde colocar os braços e a expressão culpada de Mirian, tentou minimizar o assunto, pedindo sorte para os dois poderem acompanhar a irmã.

 

Enquanto os três comiam, A programação da tv ao fundo foi interrompida por uma cobertura especial do incêndio — os comentaristas exaltavam as ações trágicas das Forças Espectrais com vozes contidas e solenes:

 

— … O atentado foi executado com extrema rapidez e brutalidade. Há poucos instantes, nosso correspondente confirmou a morte dos 15 agentes que confrontaram diretamente os terroristas. Ainda não há informações sobre as baixas civis. As autoridades fazem um apelo urgente à população: permaneçam em alerta máximo para qualquer indício de magia da escuridão, comuniquem imediatamente as Forças Espectrais sobre informações ou suspeitos e mantenham distância absoluta diante de qualquer avistamento confirmado.

 

Mirian se engasgou com o sorvete, escutando a matéria. — Como assim? Ele claramente não tinha matado nenhum agente… depois de imobilizar todos, só pegou o outro cara e fugiu. 

 

— Aqui — Sarah passou um lenço, sem desviar a atenção da tv, que agora mostrava a imagem de Número 01 — Ele é incrível, né? 

 

Mirian permaneceu imóvel, o olhar perdido.

 

— Ainda bem que Número 01 chegou rápido, — André concordou, — se não, a tragédia teria sido muito maior. Esses maníacos da escuridão são muito levianos, matando os inocentes a qualquer sinal de desentendimento.

 

— Por falar nisso, esse que atacou os agentes numerados, já é a quarta ou quinta vez que ele aparece dando cobertura pros outros terroristas. Pessoal online até deu um nome para ele: Nox.

 

— Apropriado — André riu com leve escárnio e voltou a atenção para o rosto pálido da irmã — Não precisa se preocupar Mirian, Número 01 está cada vez melhor em capturar esses terroristas e, logo logo, todos eles estarão extintos.

 

— Quando eu for uma agente numerada, vou fazer questão de caçar cada desses lixos pessoalmente! — Sarah jurou. 

 

Mirian assentiu quase imperceptivelmente, sem dizer nada. Podia sentir o ódio e ressentimento da amiga mesmo sem tocá-la. Seu coração batia com força na garganta. Percebeu que o trauma de ter caído naquele vazio realmente não era só dela.

 

Depois de ver toda a matéria sobre o incidente, Mirian ainda precisou de mais um tempo para voltar a se acalmar de vez. Em silêncio, André e Sarah a acompanharam até em casa. Dora sentava na sala, com a expressão cansada, lendo um livro.

 

— Está tarde, filha. Foi mais longe hoje? — Ela se animou, vendo Mirian voltar arrastando os pés.

 

Mirian respondeu apenas com um aceno, e passou direto para as escadas, indo para o quarto. Intrigada, olhou para André e Sarah que entraram logo depois, também com expressões preocupadas.

 

Mesmo dentro de casa, o mundo de Mirian parecia estar se fechando cada vez mais. Mirian sabia que continuar evitando a família só iria causar mais dor a todos, mas o que mais poderia fazer?

 

Agora, mais do que nunca, ela entendia por que deveria manter tanto segredo: Os heróis da luz; Os assassinos da escuridão.  Era uma verdadeira caça às bruxas contra os espectros da escuridão. Quer eles fossem culpados ou não, todos já tinham sido condenados.

 

A imagem do espectro da escuridão coberto de chamas removendo as vítimas do prédio lhe veio à memória, e mesmo sabendo que nada de bom vinha em saber demais, ela não pode deixar de pensar na identidade dele.

 

Sacudiu a cabeça, mandando para longe os pensamentos inquietos e se deitou no escuro, tentando sentir um pouco de paz e quietude. Naquela noite, o sono veio em pedaços.

 

Sonhou com uma arena iluminada, espectadores gritando o heroico nome de Número 01. No centro, um espectro da escuridão derrotado aguardava o golpe final. Quando a lâmina caiu, o rosto debaixo das chamas negras era o dela.

 

Acordou arfando, o corpo novamente coberto de suor frio. Pela janela, as luzes das patrulhas mágicas piscavam como olhos no escuro. Foi até o quarto dos pais. Podia ouvir a respiração suave e rítmica deles dormindo. Manteve a mão no trinco por alguns segundos, hesitante, depois soltou e voltou para o próprio quarto. 

 

Abriu a janela e sentiu o vento úmido. Iria começar a chover a qualquer momento. Pegou a mochila, saltou do batente com certa prática e pulou o muro. Sem olhar para trás, desapareceu na rua vazia enquanto a chuva caía e ganhava força.

 

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