A Última Gota de Escuridão - Capitulo 8

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Professor Dmitri

 

POV: Dário Khalil

 

Depois de três rápidas batidas mensuradas na porta, a voz animada do outro lado cessou e uma segunda voz grave e rouca autorizou a entrada.

 

Gabriel, Dário e Carlos entraram no escritório austero e monocromático do professor Dmitri, onde ele estava recebendo duas visitas. Com a cabeça cheia de cabelos brancos meticulosamente penteados e a pele um pouco enrugada e calosa, Ivan Dmitri insistia em continuar trabalhando mesmo que já tivesse passado dos 80 anos de idade.

 

Além de ser um dos líderes das Forças Espectrais e chefe do Campo de Treinamento de Novos Espectros, Professor Dmitri era o superior responsável direto pelo Projeto Número 01, e tudo que dizia respeito a ele. 

 

— Bem, vamos aproveitando a nossa deixa… — Vendo os recém chegados, o homem sentado em frente a Dmitri falou com a voz suave e amigável, os olhos quase fechados com um sorriso, ao se levantar e estender a mão para se despedir.

 

— Tem certeza que não deseja reconsiderar, Hugo? — Ivan se levantou apertando a mão de Hugo Martins sem demonstrar emoções.

 

— Nah… estou velho demais para essas coisas — Martins deixou os olhos caírem sobre a filha ao lado, com afeição transbordando em sua expressão orgulhosa — Meus objetivos são outros hoje em dia, o meu caminho não é mais o mesmo que o da Agência.

 

A atenção de Martins se voltou para os agentes que estavam parados em alerta ao lado da porta, aguardando mais instruções, especialmente para o que estava no meio do grupo.

 

— Uau! Esse é mesmo o Número 01? — a garota ao lado de Martins exclamou com os olhos arregalados ao reconhecer a identidade dele, se aproximando com curiosidade.

 

— Dandara… — Martins chamou antes que ela pudesse chegar perto e obedientemente, ela retornou para o lado do pai, segurando-o pelo braço enquanto continuava a lançar olhares curiosos.

 

Em nenhum momento, Martins deixou de sorrir, mas Dário poderia jurar que ele parecia bem mais perigoso que Dmitri, que estava sempre sério, tanto que sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem quando os olhos dos dois se encontraram por um breve momento antes de voltar a atenção para a filha e explicar com tom de mimo:

 

— Ele está trabalhando. Quem sabe uma próxima vez.

 

Dandara sacudiu os ombros com uma certa indiferença. Para ela seria incrível conhecer Número 01 pessoalmente, mas também não seria uma grande perda, afinal, ela era filha do maior magista de todos os tempos. Que tipo de celebridade ela não poderia conhecer?

 

— A jovem Dandara também não teria interesse em passar uns dias no Campo de Treinamento para conhecer outros jovens como ela? — Dmitri insistiu.

 

Por um momento, Dario sentiu uma aura perigosa emanar do Sr. Martins, mas ela veio e se foi tão rapidamente, que talvez nem mesmo Dmitri tenha sentido.

 

— Ah, eu nunca teria disciplina para seguir o treinamento do campo. — A garota riu animada — Mas pode ficar tranquilo, tio Ivan! Papai cuida bem de mim. De acordo com ele, eu poderia bater de frente com qualquer outro espectro de alto nível daqui.

 

Uma sombra de um sorriso quase ameaçou aparecer na boca de Dmitri.

 

— Tenho certeza que sim. Você é bem vinda à visitar quando quiser. E você também, Hugo. Seu lugar sempre vai estar aqui para quando quiser voltar — Dmitri o cumprimentou de volta sem demonstrar emoções, mesmo assim seu olhar se demorou um instante a mais em Dandara.

 

O sorriso de Martins se abriu ainda mais sem se demorar nas últimas cortesias, guiou sua filha para fora do escritório de Dmitri e fechou a porta ao sair.

 

Gabriel respirou fundo, os olhos dele giravam para todo lado, registrando as poucas, mas incríveis informações que tinham saído naquela curta conversa que puderam ouvir.

 

Por algum motivo, Prof. Dmitri queria que o Sr. Martins voltasse da aposentadoria. Mesmo assim, Dario sentia que a pessoa que Dmitri realmente queria ali era a jovem Dandara e não o velho pai dela.

 

— Uma pena, uma pena… — Dmitri comentou sem parecer sentir pena nenhuma sobre nada.

 

— Não há mesmo chance nenhuma de convencê-lo a deixar a menina? — Gabriel perguntou o óbvio enquanto revirava os olhos fazendo vários cálculos imaginários.

 

— Era o esperado. Vamos apenas seguir com o plano original. Tentar convencê-lo foi apenas uma cortesia em nome dos velhos tempos. — Dmitri disse, também digitando essas palavras no tablet sob a mesa para os outros líderes — Como está a evolução do agente Número 01?

 

— Não muito boa — Gabriel confessou, franzindo o cenho com aborrecimento — Mesmo quando ele recebe uma ordem direta, ele não tem conseguido atingir a meta seguinte.

 

Gabriel saiu de seu transe de pensamento em que estava depois de encontrar o herói nacional pessoalmente, para a realidade decepcionante em que se encontrava. Dário parecia ter estagnado no seu progresso nos últimos meses.

 

Muito raramente Dário estava conseguindo superar os próprios recordes e quando isso acontecia, era por uma margem muito pequena. Ao que tudo indicava, ele tinha chegado no limite de seu potencial.

 

E pensar que ele tinha esperado que o garoto fosse capaz de superar todas as barreiras do poder individual em Orchestra um dia… 

 

E por mais decepcionado que estivesse, até Martins, no auge de sua força, teria muito trabalho para empatar com Dário em um confronto direto. Apesar de ser um resultado excelente, não era o que o Professor Dmitri esperava. Ele queria um resultado perfeito sem nenhuma margem para erros ou dúvidas. Um cenário onde a vitória seria inquestionável.

 

Dmitri levantou os olhos do documento que estava lendo e começou a avaliar o jovem alto, de postura rígida que estava completamente imóvel no canto. Como sempre, ele não dava nenhuma reação além do que lhe era pedido. Dmitri suspirou e começou a girar uma caneta tinteira de ouro entre os dedos. Depois de pensar seriamente por um instante, Dmitri considerou as melhores possibilidades antes de dizer:

 

— Que seja. Se ele não consegue mais progredir, talvez seja a hora de prepará-lo para assumir a identidade pública. Continuar protelando vai apenas fazer com que nossos planos se atrasem mais ainda. Se quisermos vencer de vez essa guerra, um ídolo é necessário para controlar a opinião das massas.

 

— Certo, vou aplicar o plano de transição… — Gabriel suspirou e disse coçando a barba — Com o controle certo de exposição de uma vida social ativa e acessível, vamos ter um alcance superior a…

 

Dmitri levantou uma mão para interromper Gabriel: — Cuide dos detalhes. Para mim só importam os resultados. 

 

— Sim senhor! — Gabriel respondeu, com um sorriso tenso no rosto.

 

— Mais uma coisa. Se eu ver mais alguma repercussão negativa contra as Forças Espectrais por que algum espectro da escuridão criou uma comoção e fugiu de Número 01, vou considerar você como o responsável direto.

 

— Mas, senhor! — Gabriel arregalou os olhos, enquanto fechava os punhos e falava com tom de voz duas oitavas acima — O caso de hoje foi diferente… Aquele cara claramente estava…

 

Gabriel não terminou de falar. Naquele instante, a temperatura da sala caiu drasticamente, e ele deu de cara com os olhos frígidos e impassíveis de Dmitri, que o interrompeu sem sequer levantar o tom de voz:

 

— Você já falou o suficiente. Volte aqui quando tiver resultados — Dmitri voltou sua atenção para os documentos sobre a mesa enquanto ainda balançada a caneta de ouro entre os dedos deixando a temperatura voltar aos poucos ao normal — Se não sabe como lidar com meros danos colaterais, me questiono a utilidade de um assessor de relações públicas.

 

— Eu… eu entendo. — os ombros de Gabriel caíram um pouco — Vou cuidar de tudo. Esse erro não vai mais se repetir.

 

O trio saiu do Escritório de Dmitri e teletransportou para o apartamento. Gabriel estava suando frio e as costas de seu uniforme já estavam encharcadas.

 

Ele começou a andar de um lado para o outro roendo as unhas com os olhos girando mais uma vez. Mais cedo, tudo estava indo bem. O espectro descontrolado estava sendo contido e logo seria abatido por justa causa, com uma longa lista de vítimas fatais para apelar pelo medo e solidariedade das pessoas que vissem as notícias no dia seguinte. Porém, quando o segundo espectro da escuridão apareceu, as coisas saíram do controle.

 

Agora ele não tinha nem espectros da escuridão como troféus, ou vítimas para consolar.

 

Enquanto pensava em como remediar a situação, o medo que Gabriel estava sentindo se transformou em humilhação e raiva, que explodiu naquele momento. Ele começou a ralhar, botando tanta força para se conter que veias saltavam sob sua pele. Ele se virou, lívido, para Dario enquanto espremia cada palavra entre os dentes:

 

— Seu… pedaço… inútil… de merda!!!

 

A cada pausa, Gabriel dava um soco em Dário. Obviamente, ele não iria insultar o seu superior, a única pessoa com quem ele poderia retaliar era Dário.

 

Parado e sem reação, Dário se deixou ser atingido várias vezes por Gabriel, sem dizer nada.

 

— Se você não fosse tão inútil… se você não fosse tão lerdo. Que merda! Ajoelhe-se!

 

Gabriel agarrou os cabelos de Dário puxando sua cabeça para frente e deu um chute nas pernas dele. Sem poder se defender, o estalo seco veio do próprio joelho, alto demais para ser ignorado. Com os ossos quebrados, a dor foi imediata.

 

Gabriel não parecia forte. Ficava nos papéis, nas mesas, nos carimbos. Mas Dário sabia que isso não queria dizer nada. No alto escalão, ninguém era fraco. Para estar ali, era preciso ser magista de alto nível. Força era regra, não exceção. E força também não tornava ninguém invulnerável. Dário era forte, mas sentiu o impacto do mesmo jeito.

 

E, ainda sem dizer nada, ou demonstrar qualquer reação evidente, Dário apenas se deixou cair ajoelhado no chão, com Gabriel despejando suas agressões, enquanto as lascas de ossos dilaceravam sua pele por dentro. Uma pessoa mais atenta talvez reparasse no breve momento em que o garoto contraiu o próprio punho ou quando suas pálpebras tremeram algumas vezes.

 

Quando Gabriel se acalmou o suficiente para parar com o que estava fazendo, ele se afastou de Dário, que naquela altura, já estava esfarrapado no chão.

 

Ofegante e com o rosto contorcido, Gabriel olhou com desgosto para o carpete onde várias manchas de sangue estavam espalhadas.

 

— Limpe essa bagunça — Gabriel ordenou para o Agente Número 249, que também tinha ficado o tempo todo sem mover um músculo, acostumado com aquela situação. — por sua culpa, vou ter que usar o esquadrão derrotado de hoje para criar umas notícias.

 

Gabriel se retirou para o próprio quarto e bateu a porta com força. Ele teria muito mais trabalho agora para cuidar da bagunça deixada pela incompetência de Dário.

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