A Última Gota de Escuridão - Capitulo 8
Professor Dmitri – parte 2
POV: Dário Khalil
Carlos acenou a mão e uma onda suave de mana azul marinho cobriu toda a sala, eliminando as manchas de sangue e pegou Dário antes de se teletransportar para longe.
— Essa situação não pode continuar assim — Carlos ralhou para Dário enquanto o carregava nas costas. Havia um certo ar de resignação em sua postura — Não sei o que diabos você anda tramando, mas você pode acabar sendo morto!
— Tudo… sob… controle… — Dário disse, com dificuldade para pronunciar as palavras.
— Não fique cheio de si. Eu não estou vendo nada dando certo aqui. Olhe só o seu estado! Se eles descobrirem que deixamos o espectro da escuridão escapar de propósito, a morte será um privilégio.
Dário soltou uma risada mórbida, mas não discordou. Não disse nada nem mesmo quando foi colocado no chão, a perna dobrada em uma posição estranha e sangue escorrendo de várias feridas.
— Dessa vez, você mesmo que vai ter que se cuidar — Carlos disse enquanto examinava a condição do garoto.
Carlos era apenas um magista de alto nível, incapaz de usar regeneração. Uma simples magia de cura não seria suficiente para resolver todos aqueles ferimentos.
A cura apenas acelerava o processo natural que o corpo tinha para se recuperar de ferimentos e doenças. Porém, ela tinha muitas limitações, e só era recomendada para ferimentos leves ou após intervenção médica. Um osso quebrado, por exemplo, precisava ser colocado no lugar antes de usar magia de cura ou iria sarar de forma errada e deixar sequelas. Já a regeneração era algo muito mais poderoso. Ela se baseava em princípios ainda desconhecidos, e praticamente desfazia o dano sofrido. Mesmo um membro decepado poderia ser colado de volta facilmente. Tanto poder, apenas magistas de nível superior eram capazes de usar.
Dário acenou com a cabeça, olhando com indiferença para os primeiros socorros de Carlos como se ele mesmo não tivesse nada a ver com toda aquela situação. Carlos estava exasperado, não era como se ele pudesse fazer qualquer outra coisa para mudar a condição dos dois além de tentar orientar o garoto na direção certa.
— Tente não forçar a barra… não vai valer a pena se você conseguir provar seu ponto, mas não estiver vivo para testemunhar o resultado.
Carlos estava sinceramente preocupado, pois Dário não tinha nada que quisesse proteger… nem a si mesmo. Do ponto de vista do garoto, eles eram uma propriedade de um inimigo e ele estaria muito bem satisfeito se pudesse garantir que ninguém mais fosse fazer uso dessa propriedade, mesmo que precisasse se autodestruir para isso.
— Eu quero… quero ficar sozinho — Dário sussurrou baixinho olhando para o céu, a expressão apática como sempre.
Carlos respirou fundo e deu uma palmadinha no ombro do garoto. Depois começou a vasculhar em sua mochila à procura de alguma coisa.
— Você com certeza gosta de deixar os outros preocupados — Carlos resmungou, mas não recusou o pedido do garoto. Pela vida que o garoto tinha levado, ficar sozinho era um privilégio. Talvez ele ficasse de melhor humor depois de uma noite de solitude. Sem pensar muito, removeu um livro velho do fundo da bolsa e o passou para Dário — sinto muito não poder ajudar com mais nada…
Os olhos de Dário brilharam com antecipação ao receber um livro novo. Agora que ele já sabia dizer do que gostava e não gostava, ele podia dizer que definitivamente gostava de ler, mesmo que fosse difícil colocar as mãos em livros.
— Vá lá. Eu entro em contato caso precise de você — Carlos riu da empolgação silenciosa do garoto.
Os dois se despediram com um aceno de cabeça e voaram em direções diferentes. Dário voou sem rumo, flutuando há várias centenas de metros acima dos prédios mais altos, aproveitando a cobertura da noite. Até mesmo as estrelas e a lua estavam escondidas pelo céu nublado.
Não muito depois, uma chuva forte começou a cair por toda cidade. Sentindo-se desanimado demais para voar acima das nuvens, ou para desistir de seu precioso tempo de solitude e voltar, Dário olhou para baixo, vasculhando os prédios da cidade em busca de algum local onde pudesse ser deixado em paz e ler, sem ter que se preocupar com a chuva. Ah, e quem sabe tirar um momento para regenerar os ferimentos, que por acaso esquecera de atender.
Acabou escolhendo pelo topo de um prédio abandonado, que ficava no alto da colina de uma área residencial comum da zona norte. Era um local tão remotamente isolado, que era quase impossível alguém aparecer por lá, para incomodá-lo.
Dário sentou-se ao lado do batente da cobertura, onde havia um pequeno espaço onde a água da chuva não batia e olhou casualmente para o joelho empenado e as várias escoriações que, naquela altura, já tinham parado de sangrar por baixo do uniforme.
Mesmo com o protesto insistente de seus músculos estressados, Dário apenas continuou olhando com indiferença para sua própria condição. Na sua lista de prioridades, o livro era mais importante. Ele ficaria sonolento depois de usar regeneração, e do seu ponto de vista, isso não valia a pena. Quando ele teria tempo para ler o livro se acabasse dormindo?
Terminar uma história sempre deixava algo preso no peito de Dário. Não era só bom, nem só ruim. Era um peso estranho, uma euforia misturada com calma. Um tipo de conforto silencioso. Era nesses instantes que ele pensava mais. No mundo. Nas coisas.
Pensava, por exemplo, em como tinha escondido, de propósito, o avanço nos treinos para frustrar os planos que tinham para ele. E pensava também em Gabriel. Conviver tempo suficiente com ele tinha lhe ensinado uma coisa: como a opinião das pessoas podia ser dobrada com cuidado e repetição. Por isso Dário tinha ido além do seguro. Arriscou mais do que devia.
Mesmo assim, não se enganava. Aquilo era pouco. No máximo, um incômodo. Uma birra mal calculada que podia acabar arrastando os dois para o mesmo fim.
Um espectro da escuridão forte, que não cometia crimes e ainda salvava gente, chamaria atenção cedo ou tarde. E isso doía onde mais importava. As Forças Espectrais tinham passado meses dizendo que esse tipo de magia era puro mal. A existência dele, por si só, era um golpe direto nessa história.
Dário não entendia o motivo de tanta injustiça e intolerância. Não seria mais apropriado e eficiente simplesmente assimilar a magia da escuridão como parte dos recursos disponíveis, em vez de criar uma segregação entre os dois tipos de magia?
Nada fazia sentido.
Enquanto remoía tais pensamentos, uma bolsa foi jogada na laje da cobertura. Os olhos treinados de Dário se viraram imediatamente para a direção do movimento. Em guarda, ele viu uma garota terminar lentamente de subir as escadas da saída de incêndio em direção ao topo, onde ele estava.
Era altamente suspeito que uma garota estava invadindo um local como aquele no meio de uma noite chuvosa! Ele estava ainda mais perplexo em como ela tinha chegado tão perto até ser notada. O corpo tenso de Dário retesou e ele se sentiu levemente arrependido por não ter regenerado seus ferimentos antes. E se fosse um inimigo?
Dário estava prestes a dar o bote ou partir em retirada, mas qualquer ação que seu corpo tenso estivesse preparado para executar foi pausada completamente quando ele viu os olhos dela.
Eles eram magníficos.
Brilhavam em todas as cores e cintilavam como um mar de estrelas. A garota arfou um pouco ao alcançar o topo, com as mãos nos joelhos e depois esticou-se para alongar os braços, os movimentos um pouco rígidos, como se não estivesse acostumada a mover o corpo.
Os cabelos presos dela já estavam começando a escorrer pela sua nuca de tão encharcados e a roupa grudava contra a pele, mesmo assim, nada disso parecia incomodá-la, dando um charme exotico para aquela visão.
Ela virou de costas para ele, apoiou as mãos na cintura e ficou ali, observando a cidade, sem se importar com a chuva. Dário só então percebeu que estava parado havia tempo demais. Não reagira. O corpo rígido, a mente vazia. E, ainda assim, algo o segurava no lugar. Um sentimento novo: Relutância.. Ele queria ver de novo antes de ir, pelo menos mais uma vez… aqueles olhos…
Instantes depois, a garota voltou-se para a mochila que tinha jogado no chão e retirou uma pequena caixa de som. Um dos hits mais recentes de Lovestars começou a tocar, com o som viajando suavemente debaixo daquela chuva pesada.
Para Dário, nada daquilo fazia sentido. Ainda assim, ela começou a dançar na chuva. Movia-se demais para que ele visse aqueles olhos, mas isso não o afastou. Queria continuar olhando.
Três músicas se passaram, e ele não foi embora. Só na metade da quarta, quando ela parou junto com a batida, presa em um giro que não se completou, os olhos dela enfim se voltaram para ele. E o encararam.
Completamente imóveis, os dois se fitaram sem reação. A música continuou a tocar e a chuva continuou a cair. E, se alguém tivesse como ouvir o pensamento dos dois naquele instante, teria captado a mesma coisa, ao mesmo tempo:
— Merda!
A garota se deu conta do que estava vendo e recuou, assustada. Infelizmente, não havia espaço para esse tipo de reação no lugar onde estava. Ela apenas pisou no vazio quando seus pés tropeçaram para fora da laje em direção ao que seria uma queda de mais de 15 metros de altura e a morte certa.