A Última Gota de Escuridão - Capitulo 9

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Docinhos de Coco – parte 1

POV: Mirian Tristan

Quando pegou a mochila e saltou pela varanda do quarto, escapando para debaixo daquele aguaceiro e decidiu se esconder na laje de um prédio recém abandonado nas proximidades, Mirian não imaginava o que iria descobrir: O efeito do ruído branco da chuva sobre seus poderes.

As frequências sonoras se sobrepunham e se misturavam, formando uma cortina espessa que abafava qualquer outro sinal. O som constante da água e o impacto das gotas contra a pele abriram uma fissura na imagem mental excessiva que tinha de aguentar. O mundo, antes saturado de informações desnecessárias, se reduziu a uma coisa só:

Chuva.

Era tudo o que sentia, via e ouvia.

Tentando aliviar o humor complicado com a descoberta, Mirian colocou uma música para tocar pela primeira vez em tempos e passou a saltitar, chutando poças enquanto dançava distraída ao som de suas músicas preferidas do Lovestars. Não percebeu, em momento algum, que não estava sozinha.

Foi no meio de um rodopio que seus olhos captaram algo diferente: um canto coberto do outro lado da cobertura. Inconspícuo, mas suficiente para alguém se abrigar da chuva. Uma silhueta permanecia ali, quase fundida à penumbra da noite.

Mirian arregalou os olhos.

Em um instante, seu imaginário estressado foi tomado por cenários terríveis: agentes numerados surgindo das sombras, sua magia exposta ao escárnio público, a tortura lenta e dolorosa reservada a um espectro da escuridão. Execução em praça pública.

Assustada, ela recuou e perdeu o equilíbrio, tropeçando para trás, o grito já prestes a escapar.

Não escapou.

Braços rígidos a envolveram com firmeza, e uma mão se fechou sobre seus lábios antes que qualquer som fosse emitido.

Nem mesmo a chuva conseguiu transformar em ruído branco as emoções que partiram dele no contato entre os dois naquele instante. Elas invadiram a mente de Mirian de forma abrupta e incontrolável. O estranho se aproximou ainda mais, o suficiente para sussurrar junto ao seu ouvido:

— Silêncio!

Mirian engoliu em seco quando sentiu o corpo ser puxado para frente. Só então percebeu que, após o tropeço, o chão já não estava sob seus pés. Se ele quisesse, bastava soltá-la e era isso: passagem só de ida, queda abaixo.

Vendo a distância suave de pelo menos 15 metros até o chão, o instinto de Mirian falou mais alto. Ela lançou os braços ao redor dele, agarrando-se com todas as forças que tinha. O corpo do estranho enrijeceu imediatamente.

Sem dizer nada, ele a puxou de volta para a laje e a colocou no chão, ainda mantendo a mão firme sobre sua boca. As pernas de Mirian cederam como geleia. Trêmula, sem qualquer força para reagir, ela se deixou sentar. Aquele dia tinha sido intenso além da conta. Nem resistir adiantava: não era preciso ser nenhum gênio para perceber que o homem à sua frente era um magista poderoso.

Enquanto ele ainda a tocava, a enxurrada de informações atravessou sua mente: a condição física dele, o estado emocional, camadas inteiras de sensações que se impunham contra sua vontade. Não havia hostilidade alguma direcionada a ela. Essa constatação a acalmou consideravelmente.

Ironicamente desacostumada a ter que interagir com alguém enquanto sua super percepção estava inconvenientemente limitada, Mirian tentou vê-lo da forma tradicional, com os olhos…. mas estava escuro, não dava para ver nada além de uma silhueta uniformizada.

Ela respirou fundo e olhou diretamente para ele. Apesar de estar na chuva, a água o evitava e ele não estava nenhum pouco molhado. Era difícil discernir, mas ele parecia estar usando o uniforme padrão dos agentes numerados das Forças Espectrais.

O mais estranho era: Ele estava muito ferido, mesmo agindo como se não fosse nada demais…

Cuidadosamente e com movimentos lentos e óbvios, ela tentou afastar a mão dele de sua boca, indicando que não iria gritar.

Ele entendeu e se afastou.

— Se… se você for me matar, poderia ser rápido por favor? Eu tenho um pouco de medo da dor. — Mirian sussurrou.

O agente enrijeceu por uma fração de segundo, voltando para o lugar onde estava quando Mirian o viu pela primeira vez. Ele pegou um livro caído no chão. Completamente duro, ele a olhava de volta, aparentemente querendo dizer qualquer coisa, mas sem conseguir.

Depois de várias tentativas, ele só apontou para o canto seco e para o livro. Mirian suspirou aliviada. Ele não estava ali por ela.

— Desculpa, eu não quiz interromper sua… leitura? Eu não tinha percebido que o lugar estava ocupado quando subi. — Ela disse, ainda um pouco insegura, sentindo o cheiro de sangue seco emanar dele.

Qualquer medo que estivesse sentindo antes tinha desaparecido completamente naquele instante. Quer dizer, ele era obviamente alguém perigoso para ela, considerando que era obviamente um agente numerado, mas havia algo de muito diferente nele. Ele passava uma aura diferente de todos os agentes numerados que Mirian já tinha visto.

Ele apenas acenou com a cabeça desengonçadamente. Parecia ter a palavra — inofensivo — estampada na testa. Depois de abrir a boca para responder algumas vezes, Mirian percebeu que não é que ele não quisesse falar mais nada. Conseguir proferir qualquer coisa que parecia ser difícil.

Criando coragem, Mirian respirou fundo e perguntou:

— Você não parece bem… precisa que eu chame alguém?

— Não! — A voz rouca dele soou uma vez enquanto a aura dele oscilou com força e agitação.

Mirian arregalou os olhos, sem saber como reagir. Aquela tinha sido uma reação intensa demais para uma simples recusa. Por que um agente iria recusar ajuda estando numa situação daquelas?

— Ok… então… é melhor eu te deixar a sós e não te atrapalhar mais — ela disse, por fim.

O desconhecido abaixou a cabeça e ficou olhando para o chão, ainda mais nervoso do que antes. Mirian já estava começando a recuar discretamente, mesmo que ele não dissesse nada, o intenso sentimento de desolação que emanava dele a fez parar.

Sem entender por que estava agindo daquela forma imprudente, Mirian se sentiu relutante em sair. Por que um magista tão poderoso como ele estava ali naquela situação?

Porém Mirian engoliu a curiosidade, já tinha problemas demais para lidar sem mais esse. Não se envolver no que não era da sua conta era sempre a melhor política. Mirian alcançou sua mochila e já estava com um pé pronto para começar a descer as escadas dizendo:

— Então… você pode ficar tranquilo. Eu não vi nem ouvi nada, nem aqui eu estive. 

Porém, ele não reagiu muito bem com a ideia dela. Ele agarrou a garota com um movimento da mão criando uma onda de mana violeta e a fez sair voando com todas as suas coisas até pousá-la suavemente ao lado dele, fora da chuva, onde ela se viu sentada, já completamente seca e fora do alcance da chuva. 

Mirian olhou de perto para ele mais uma vez, com os olhos arregalados e lábios pressionados um contra o outro, sentindo bastante dificuldade para conter o choque.

Enquanto se esforçava para não entrar em pânico mais uma vez, ele finalmente se deu conta de que não deveria ser educado levantar as pessoas com magia contra a vontade delas. Nesse meio tempo, Mirian já tinha passado mentalmente por 16 versões de seu futuro miserável sob a custódia de um magista suspeito. 

Limpando a garganta, ela se abaixou e abriu a mochila, contendo diversos lanches contra indicados para qualquer um que não tem o metabolismo de um adolescente eufórico e os ofereceu para ele como se fosse a coisa óbvia a se fazer.

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Ambientação Futurista, Controle Mental, Distopia, Dois Protagonistas, Identidade Secreta, Magitecnologia, Múltiplas Identidades, Pós-Apocalíptico, Protagonista Anti-Herói, Protagonista Overpower, Protagonista Subestimado, romance, Transtorno Pós Traumático

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