A Última Gota de Escuridão - Capitulo 9
Docinhos de Coco – parte 2
POV: Mirian Tristan
Apesar do nervosismo aparente dele, Mirian percebeu que ele parecia disposto a falar alguma coisa consistente dessa vez. Ele respirou fundo e colocou para fora:
— Você não deveria ter medo de mim?
Mirian travou completamente. De onde ele tinha tirado a ideia de que ela não estava completamente aterrorizada com aquela situação? E claro, nem ela sabia como ainda não tinha se jogado de joelhos e implorado por misericórdia.
Muito para o constrangimento dos dois, ele percebeu tarde demais que aquilo soara como uma ameaça. Sua boca se fechou rápido, e o estalo seco dos dentes batendo uns nos outros ecoou alto o suficiente para denunciar o erro.
— Bom, não é como se isso fosse mudar alguma coisa, não é? — Mirian riu e comentou dando de ombros, fingindo tranquilidade. Ela recuou um pouco abrindo espaço no chão entre os dois para derramar o conteúdo da mochila — Além do mais, pelo que nós sabemos, talvez eu seja a mais perigosa entre nós dois.
Revirou as embalagens espalhadas no chão e, convencida de que não teria permissão de ir embora até ele conseguir falar o que realmente queria dizer, abriu um dos pacotes e começou a devorar o conteúdo.
Pelo menos Mirian teria comido de seus doces preferidos se tudo desse errado. Sem saber como as coisas poderiam piorar, ela decidiu continuar sacaneando:
— Fora que um lanche com certeza é o melhor suborno para comprar o favor de um grande magista.
— É m-mesmo? — Ele gaguejou chocado olhando dela para a pilha de lanches no chão — Então isso deve ser muito valioso.
Mirian revirou os olhos e gargalhou.
Involuntariamente, ele também riu ao vê-la sorrir. Não era um som bonito ou confortável. Parecia mais uma tosse ou um soluço. Ele cobriu a boca com a mão e se recompôs, limpando a garganta.
Mirian se acomodou confortavelmente contra a parede e continuou devorando os lanches, empurrando a ansiedade abaixo com cada mordida.
— Não tem nada que você goste entre esses? — ela perguntou, de boca cheia.
Ele pegou a embalagem mais próxima. Ficou alguns segundos com ela nas mãos, sem abrir. Hesitou.
— Eu… não sei… — disse, tropeçando nas próprias palavras antes de conseguir continuar. — Nunca provei c-coisas assim…
Mirian fixou o olhar no rapaz, deixando o queixo cair, o que o deixou perceptivelmente desconfortável. Ela se viu imaginando que tipo de pessoa ele era e que vida ele teria levado para nunca ter comido besteiras.
Pegou uma latinha de refrigerante de eu um enorme gole, empurrando a comida com força.
— Cof, cof… — Mirian bateum um pouco no peito e começou a explicar — Caso seu gosto seja mais para coisas salgadas, esses aqui são ótimos para começar, mas se você tem a boca doce, eu recomendo esses, já esses bombons aqui são mais azedos…
Pensando mais adiante, Mirian suprimiu a dor no coração e abriu todas as embalagens de uma vez para que ele pudesse provar de cada doce e salgadinho de um por um.
— Hum… qual é o seu… o seu preferido? — ele perguntou em um sussurro, sem ter reunido coragem para provar qualquer uma daquelas coisas ainda, mas demonstrando interesse.
— Esses! — Mirian apontou sem pensar duas vezes para uma embalagem caseira que estava em sua mão — São docinhos de coco. Foram feitos por meu pai, então são caseiros, mas são muito bons.
Era uma marmita descartável e haviam pequenos docinhos amarelos com aparência suave e brilhante.
Como quem encara um adversário temível, ele pegou um dos docinhos e o olhou de perto. Um pouco inseguro, ainda incerto de sua coragem e determinação, ele aproximou o lanche dos lábios e mordiscou um pedaço, suficiente apenas para sentir o sabor.
Com um pouco mais de coragem, ele mordeu metade do doce e cobriu a boca com a mão, saboreando pela primeira vez a maravilha das sobremesas, com o sabor confuso e intrigante do açúcar, que estimulou quase instantaneamente suas glândulas salivares e papilas gustativas.
— Que tal? — Mirian perguntou, acompanhando de perto todas as reações dele com os olhos brilhantes… literalmente.
Ele travou novamente, sem reação. Mirian não podia ver que expressão ele estava fazendo por baixo do visor tático, mas pela postura dele, ele provavelmente estava olhando diretamente para os olhos dela. O desconhecido à sua frente estava completamente hipnotizado mais uma vez.
— Doce… — ele sussurrou desviando o olhar para o chão.
— Prove este agora! — Mirian limpou a garganta mais uma vez, sentindo o rosto esquentar e empurrou outro pacote, decidindo fingir que não tinha reparado na intensidade com que ele a olhava.
Depois outro e mais outro, até que os dois já tinham provado pelo menos uma vez todos os lanches.
— Agora que você aceitou o meu suborno, não vai mais voltar atrás e, você sabe, né? — Mirian brincou, passando o dedo pelo próprio pescoço em um gesto exagerado.
Ele sacudiu a cabeça muitas vezes, e, bem rápido. Nunca tinha tido aquela intenção para começo de conversa.
— Você deveria mesmo ir embora ou pedir ajuda… — Mirian perguntou casualmente, — Não está doendo?
— Oh… — O magista olhou para si mesmo, como se tivesse se dado conta pela primeira vez que dor existia Ele inspirou com força e não ofereceu uma resposta indiferente — S-sim, está sim.
— Como você foi parar nesse estado?
Depois de um grande esforço, e algumas tentativas falhas, ele respondeu baixinho, olhando para o chão, fazendo um óbvio esforço para não gaguejar:
— Punição.
— Punição? — Mirian franziu as sobrancelhas voltando a atenção para o joelho obviamente quebrado que tentara ignorar até o momento — Isso não é punição, é tortura.
— A-acostumado…
— Você não está acostumado, só aprendeu a fingir que não dói — Mirian contra-argumentou com raiva. Mas logo desinflou, repetindo mentalmente que aquilo não era da sua conta. — Você vai precisar de pelo menos uma regeneração pra consertar isso.
— T-tudo bem… C-consertar f-faz… dormir. N-não quero. Dormir, n-não. — Ele apertou o livro contra o peito. — Q-quero… ler.
— Bom, você não está lendo agora…
— Não.
Ele não estava mais tão desconfortável para conversar, mas ainda era lento e com dificuldades pra falar. Ele respirou fundo mais algumas vezes e conseguiu perguntar, ainda sem nenhum jeito, mudando de assunto:
— E-este… qual o n-nome? — Ele apontou para uma embalagem caseira onde jaziam restos mortais de docinhos comidos.
Mirian apertou os lábios, mas seguiu com assunto:
— Estes eram quindins, e estes eram beijinhos. Ambos são docinhos de coco, mas com processos de preparo diferentes. Gostou deles? — Mirian apontou para as embalagens descartadas e aproveitou para pegar o último quindim sobrando.
Ele moveu brevemente a cabeça, sinalizando que tinha compreendido enquanto fitava Mirian mordiscar o doce.
Pelo visto, senso comum não era mesmo algo que ele dominasse. Mirian riu de novo, mas riu tanto, que precisou apoiar a cabeça na parede, para não cair para trás. Tanto Mirian riu, que lágrimas escorreram de seus olhos e ela não saberia dizer se era por causa do riso ou do alívio.
— Quando eu te vi aqui quando cheguei, eu jurava que as Forças Espectrais tinham enviado um agente para me capturar por que… por que… por que eu invadi uma propriedade privada! — ela comentou, emendando uma desculpa no meio do caminho, depois de se acalmar o suficiente.
Ele sacudiu a cabeça com firmeza.
— Invasão de propriedade privada sem usar magia… fora de jurisdição.
Mirian exalou com força enquanto enxugava as lágrimas de tanto sorrir que haviam escorrido.
— Ah… faz tempo que eu não ria assim.
Mirian passou a observá-lo com mais atenção dessa vez. Conversar com um inimigo era diferente de falar com alguém que talvez pudesse ser um amigo. O que a intrigava era como alguém claramente poderoso podia ser tão ingênuo e indefeso. Faltava senso comum e… amor próprio…
O magista também riu, dessa vez, sem desviar os olhos dela. Sentindo a intensidade com que ele a olhava novamente, dessa vez, foi ela que se sentiu acanhada demais para continuar devolvendo o olhar.