A Última Gota de Escuridão - Capitulo 9

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Docinhos de Coco – parte 3

POV: Mirian Tristan

Mirian levantou uma das sobrancelhas. Era apenas estranho, muito estranho. Ele não parecia ter idade suficiente para ter acumulado experiências com dor ao ponto de se tornar indiferente a ela.

— Quantos anos você tem?

— Dezessete… — Ele respondeu sussurrando, se esforçando para continuar a conversa. 

Mirian engasgou e tossiu violentamente.

— Que diachos… Você ainda é menor de idade, por que está trabalhando como um agente numerado? — Bebeu um enorme gole de refrigerante e respirou fundo. — Deixa pra lá, não é da minha conta. Ah…. ah! Como devo chamá-lo? — Ela perguntou quando estava um pouco mais calma.

Dessa vez, foi ele quem pareceu surpreso.

— Você não sabe… não sabe quem eu sou? — Ele perguntou.

— Eu deveria? — Mirian devolveu com uma pergunta mais uma vez, levantando uma sobrancelha. 

Magistas costumavam mesmo ser bem famosos, mas ele sendo um agente numerado que escondia a própria aparência, seria ele famoso suficiente para ela já ter ouvido falar dele? Por mais que pudesse ter uma ideia geral da silhueta dele, naquela noite chuvosa, não dava para distinguir muita coisa.

 — Está escuro demais para ver os detalhes, o máximo que eu posso dizer é que você é um agente numerado.

O estranho riu, e sacudiu os ombros, achando aquela situação interessante. Ele também não confirmou nem negou ser um agente numerado, como Mirian tinha especulado. Olhando para os últimos docinhos em sua mão, ele apontou para ela, como se oferecesse um brinde e disse, mesmo que com dificuldade:

— S-sou Q-quindim.

— Prazer, Quindim! — Ela aceitou o apelido com um belo sorriso.

— E você é… Docinho de Coco! — ele continuou inocentemente, apontando para ela.

Mirian corou e ficou sem reação, enquanto o encarava de olhos arregalados. Um petisco parado a meio caminho de sua boca aberta e os olhos arregalados o encarando com descrença.

— Você… Você não pode me chamar de docinho de coco! — Ela disse tentando reverter a situação. Ao perceber que ele não tinha ideia do que aquilo significava.

O estranho também permaneceu imóvel por um momento, ingenuamente sem conseguir entender porque não.

— Beijinho então?

— Não! Pior ainda! — Mirian quase teve um surto nervoso de tanta vergonha alheia que estava sentindo.

— É errado? — ele perguntou sem entender.

— Não é que seja errado… arg… — Mirian respirou fundo, e coçou a cabeça sem saber o que fazer. Sentia-se como se estivesse lidando com um garotinho inocente aprendendo a flertar.

Havia uma óbvia falta de prática na forma como ele falava… então Mirian sabia que ele não entendia o que significa chamar uma garota de docinho de coco — ou o quão brega isso era. Não que o apelido de Quindim fosse muito melhor, depois de pensar no assunto…

Mas afinal, eles provavelmente nem se veriam mais depois daquela noite. Não seria nada estranho, não é?

— Vai ser Docinho! — Ele decretou depois de um tempo sem ela ter dado nenhuma explicação, parecendo estranhamente satisfeito com as várias reações sendo expressas por ela. E foi assim que Mirian desistiu de insistir por um apelido diferente — E você? Por que… você está aqui? — Ele sussurrou entre uma mordida e outra.

Mirian engasgou de novo, pensando que poderia evitar responder aquela pergunta. Não que ela não pudesse mentir, mas vendo que o rapaz que estava simplesmente curioso, e considerando as possibilidades inexistentes de que aquilo fosse continuar para algo mais, ela considerou desabafar:

— Talvez o mesmo que você? Apenas fugindo dos meus problemas… — ela comentou casualmente, enquanto revirava as embalagens, agindo como se não tivesse dito nada importante.

Quindim se surpreendeu com aquela resposta.

— Sua casa… ruim? — ele quis saber.

— Minha casa é ótima e eu adoro minha família — Mirian sacudiu os ombros.

— Não e-entendo…

— Eu tenho medo de perder tudo. De perder eles. Às vezes penso se não seria mais fácil eu mesma dar o primeiro passo e ir embora antes que tudo caia. Seja como for, eu já tô ferrada… talvez fosse melhor não arrastar mais ninguém comigo.

Os olhos de Mirian pararam de brilhar naquele instante.

— Dói? 

Mirian levantou uma das sobrancelhas para a pergunta meticulosamente não elaborada de Quindim. Ele agia como se ela também estivesse muito ferida onde ele não podia ver.

— Sim… — ela sussurrou de volta.

Mirian falou sem firmeza. Em algum ponto do futuro, podia se imaginar uma vítima daquela caça às bruxas, apenas por ser o que era. E, quando isso acontecesse, o que restaria para a família? O que sobraria deles depois? Eles ajudariam a acender o fogo ou pulariam nas chamas junto com ela? Qualquer que fosse a resposta, não iria gostar de descobrir.

Mirian percebeu que sentia muita falta de companhia. Era desconfortável estar perto deles, sempre com todo aquele mar de informações sensoriais que invadiam os seus sentidos, deixando-a estressada e com dor de cabeça.

A voz de Quindim era baixa, rouca, mas havia atenção nela. Ele queria ouvir, mesmo sem conseguir a acrescentar à conversa. Para Mirian, aquilo bastava. Naquela noite chuvosa, esteve o mais confortável possível em tempos.

Os dois continuaram conversando por horas, na maior parte do tempo, era Mirian quem falava. Quando os doces e salgadinhos já tinham sido todos consumidos e a chuva estava começando a afinar, foi que ela disse:

— Eu posso ver que seu humor está bem melhor agora, Quindim — ela voltou sua atenção para o céu enquanto se levantava. Se esperasse mais tempo ali, o dia iria amanhecer. Mesmo que não quisesse, ela tinha que ir embora antes disso. Ao pensar um pouco, ela acrescentou — Deve ser muito frustrante o que quer que seja que você esteja passando, mesmo assim, espero que dê tudo certo. Se não der… ao menos tivemos esse momento pra relaxar.

Ele apenas grunhiu. A maior parte da noite, eles conversaram apenas sobre ela, e sem que ele soubesse como, ela tinha percebido como ele se sentia. 

O sentimento de ser compreendido, sem condições ou exigências, era algo inédito para ele.

A chuva estava terminando. Com as últimas gotas a caírem, ele percebeu que ela estava prestes a ir embora, mas dessa vez, não a impediu. Aproveitando a deixa, ele se levantou e também se despediu. Lentamente os pés dele deixaram o chão e ele começou a flutuar:

— Ei, D-docinho… p-posso.. posso pedir… a-algo? — Ele disse apertando os pulsos e olhando para todos os lados, menos para ela.

Mirian sentiu o rosto esquentar ao ouvir o apelido, mas se colocou à disposição para ouvir o que ele tinha a dizer.

— Você não quer que eu conte a ninguém que vi um magista aqui? — Mirian tentou adivinhar.

— Ah… bom, isso… isso t-também. E-eu… não devia… aqui… — a voz falhou e foi sumindo — M-mas… não é-isso.

— Sem problemas, se não for nada demais. — Mirian deu de ombros — O que seria?

Ele inspirou, com os nervos à flor da pele, sem questionar se ela teria realmente a intenção de manter esse favor. Ele era mesmo ingênuo demais pro próprio bem… Vendo que ele ainda hesitava em dizer alguma coisa, Mirian esperou pacientemente.

— Posso… posso voltar? Te ver? — ele espremeu as palavras entre os dentes, mais tenso do que gostaria de demonstrar.

Mirian observou Quindim cruzar os braços e esconder as mãos outra vez, desviando o olhar. Aquilo lhe chamou a atenção. Um sorriso leve brotou no canto de sua boca.

Quando se despediram a primeira vez, Ramon tinha enfatizado bastante que os agentes numerados não eram amigos. Manter contato com um deles era perigoso — ela sabia disso. O medo e nervosismo daquela noite ainda corriam pelo seu sangue. Mas, também era algo raro. Quantas pessoas poderiam conversar com agentes no dia a dia? Ainda mais nesses tempos tumultuosos.

E Quindim, ferido e magoado, parecia mais vulnerável do que ameaçador. Ingênuo demais para perceber o quanto estava exposto.

Mirian nunca iria apostar que ele abandonaria seu posto para defendê-la quando a verdade viesse à tona, mas quem sabe, se algo crescesse entre os dois, fosse o suficiente para um segundo de hesitação — fosse a diferença entre a vida e a morte.

— Quem sabe… — respondeu, medindo o tom com cuidado — Se chover de novo…

Para ele, a resposta pareceu ser boa o suficiente. Radiante, ele alçou voo e desapareceu no espaço sem olhar para trás.

Mirian permaneceu onde estava, acompanhando o ponto em que ele havia sumido até que não restasse nada. O sorriso se desfez devagar, como algo que não precisava mais ser mantido. Prometer vê-lo de novo podia ser um erro… ou uma vantagem.

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