O Conselho das Estrelas - Volume 01 - Bem Vindos ao Conselho! - Capítulo 14
14: A Fuga (Parte 2).
— Mamãe, só queríamos ajudar… — As três garotas responderam em uníssono, esperando que a tonalidade meiga conseguisse amolecer o coração da Ursa Maior. Porém, a fúria estampada no rosto não dissipou.
— Se quisessem fazer algo útil, deixassem a Antares escoltar a garota até o meu escritório. Vocês têm ideia do prejuízo que terei de arcar com os veículos e construções que destruíram?
— Você mandou ela cuidar da gente durante a…
— Você ousa em me contrariar, criança? — perguntou a mulher para a ursa dos cabelos vermelhos — Se não fossem tão inconsequentes, não seria vista como piada pelos outros diretores… — Em seguida, levantou o antebraço com muita rapidez, os dedos se posicionando para realizar um estalo — Acho que é hora de ensiná-las a serem obedientes!
— Mas Mamãe…
— Parem de me chamar de “mãe”. Eu sou a diretora desta filial, e vocês irão me respeitar como tal!
Como se perdessem o controle dos próprios corpos, as três meninas se ajoelharam perante a mulher da capa de urso. No momento que ela estalou os dedos, resistiram à tentação de levantar a cabeça e seguir com as implicações, pois sabiam muito bem que seriam prensadas contra o chão no mesmo instante.
No entanto, a pressão esmagadora seguida pelo badalar de sinos não ocorreu. Pareciam tão leves que poderiam saltar até o topo do prédio mais alto do Conselho, além do ambiente estar mais silencioso que o habitual.
Uma delas — a jovem de cabelos esverdeados — desobedeceu a ordem e se levantou para verificar o que estava acontecendo. A Ursa Maior, firme e imponente, ficou paralisada na frente do trio, como um robô que havia parado de funcionar.
— Mam… Diretora? — Ela se aproximou de maneira vagarosa até a mulher e tentou segurar a mão esquerda, porém, recuou quando a figura inteira se dissolveu em partículas azuladas — O-o que isso significa?
— É óbvio que não estaria aqui — disse a garota de cabelo vermelho — Ela ainda está na reunião com aqueles gestores fominhas…
— Isso… Foi um truque… — A jovem das mechas azuladas bateu no chão, chamando a atenção das duas — Fomos enganadas! Vocês conhecem de quem é essa fumaça?
— Foi o fracassado do Cosmo… Nós perdemos aquela pamonha de vista e fomos humilhadas de graça…
— Irmãs, a brincadeira acabou por aqui. Nesse jogo sujo, ele está brincando com as profissionais, vamos mostrar como se faz! — Com as testas franzidas e uma determinação assustadora, as três garotas estavam decididas a direcionar os sentimentos mais explosivos para o professor e a Escolhida, não importando os métodos sórdidos que teriam à disposição
…
No momento que saltou na direção do carro, a jovem de cabelos crespos esperava por um pouso tranquilo e ser recebida pelo conforto das almofadas de couro, mas ao reparar em seu estado decrépito, percebeu que era melhor ter continuado a pé.
Não se sabe o motivo do calhambeque ser descartado, mas o tempo fez crueldades inimagináveis com sua magnitude, incluindo a qualidade dos bancos de passageiros. Eram tão rígidos que nem bolas de boliche esculpidas em adamantium — o minério mais valioso da galáxia — seriam o suficiente para quebrá-los. A dor da queda lhe atingiu em cheio.
— E-ei! Não tinha uma geringonça mais bonitinha para vocês pegarem? — A voz de Andreia estava trêmula e soltou algumas lágrimas. Levaria um tempo até que a dor nas costas fosse aliviada.
— Sinto muito, mas a situação exige medidas drásticas! — comentou Cosmo — Relaxe, se seguirmos nesse ritmo, nada de errado vai acontecer com você!
— Eu não acredito que aquilo era seu grande plano — afirmou Antares com os olhos fixos na estrada — Não vai levar muito tempo até descobrirem que aquela Ursa Maior é uma ilusão sua!
— Estou ciente disso, mas isso nos garantiu uma distância considerável! Elas vão levar séculos para nos…
Não demorou muito para os primeiros tremores chegarem nos fugitivos, e o veículo estava caindo aos pedaços à medida que sua carcaça era balançada e remexida pela estrutura das nebulosas. Em compensação, os demais automóveis fracassaram em seguir o trajeto de costume. Ninguém esperava que três garotinhas quisessem transformar a rodovia num trampolim improvisado para se locomover.
— Vocês não podem fugir de nós, pragas! — gritaram as ursas em uníssono.
— Essa não, eu falei cedo demais… Antares, sabe aquela rede de túneis próxima à estação das Serpentes Siderais?
— Sei… Mas não acho que aquilo vai segurá-las.
— E nem é preciso, só precisamos de tempo para nos camuflar ao ambiente!
— A-as correntes disseram que vão espremê-lo como uma laranja se a sua ideia fracassar… — Andreia ficou incrédula ao entender o que as ligas prateadas queriam dizer.
Sem tempo a perder, Antares afundou o pé no acelerador. Uma camada densa de fumaça negra saiu do capô do veículo, indicando que o motor não resistiria se a perseguição durar muito tempo.
As Ursas Menores estavam cada vez mais próximas, a investida rápida e feroz que empurrava maioria dos carros para a borda da rodovia, e por consequência, balançou o caminho de nebulosas para dificultar a travessia do trio fujão.
O pobre Calhambeque perdia sua fisionomia à medida que as partes começaram a cair graças aos séculos de uso, mas se recusou a deixar seu motorista e passageiros na mão. Foi conduzido com bastante cuidado até chegar no local indicado pelo professor de trajes elegantes.
Uma gigantesca passarela de blocos vermelhos por onde muitos funcionários transitavam em direção aos respectivos turnos, e logo abaixo, os túneis que interligam inúmeras brechas da rodovia nebulosa. O grupo não perdeu tempo e acelerou o carro detonado até a primeira abertura que viram, mesmo estando expostos para as Ursas Menores.
— Abra o capô, maninha! — Logo atrás, as duas garotas ordenaram para a irmã das mechas esverdeadas — Vamos pegar aqueles otários no pulo!
— Certo! Vejo vocês no final do túnel.
As Ursas não perderam tempo e pularam na frente do carro, esperando que a terceira irmã utilizasse o capô para catapultá-las na direção da passarela. Com o desejo atendido, pareciam dois mísseis disparados com muita voracidade em busca do alvo perfeito a ser aniquilado, o que não passou despercebido pelos demais operários.
Muitos correram em prol da própria segurança, por mais que alguns foram jogados da construção enquanto os poucos que permaneceram estavam paralisados com a cena peculiar e amedrontadora. O objetivo delas, no entanto, acabou de sair do túnel e no local ideal para a queda.
A missão de “resgatar” a Escolhida seria um grande sucesso, e além disso, teriam o privilégio de extravasar o estresse e humilhação por cima daqueles que ousaram se intrometer. O golpe rápido e certeiro por cima do veículo era tudo que precisavam.
Foi o que haviam idealizado antes de atravessar a lataria e se dissolver em fumaça…
— O quê? — A Ursa de cabelos azulados ficou presa em uma careta de confusão enquanto limpava as partículas luminosas do vestido — Fomos enganadas de novo…
— Olhe, lá estão os otários!— disse a irmã das mechas vermelhas, apontando para a estrada logo acima. Só não havia reparado que a carona delas se aproximava em alta velocidade.
As duas meninas deixaram a guarda desprotegida e assim que sofreram o impacto do automóvel, deixaram uma trilha de partículas coloridas ao passo que foram arrastadas pela rodovia.
— Pa… Pa-pare esse carro! — Os clamores não chegaram aos ouvidos da pequenina no volante, que as levou para muito longe dali.
…
— Bom, valeu a tentativa — disse Cosmo, limpando as mãos após utilizar uma grande quantidade das partículas ilusórias — Só não sei se consigo criar uma réplica daquelas novamente…
— Tá tirando com a minha cara? — A jovem de camisola berrou — V-você fez uma cópia perfeita do nosso carro! Como fez isso?
— Eu sabia que ficaria surpresa, jovem Andreia! Tem tantas coisas para você descobrir ainda, mas haverá tempo para respostas assim que encontrarmos um local seguro. Por enquanto as coisas estão bem quietas.
— Bota quieto nisso… — A entonação de Antares não demonstrou muita confiança no ambiente, e não levou muito tempo até que aquela sensação fosse justificada.
De repente, Andreia retraiu a coluna e levou as mãos até as têmporas como se estivesse sofrendo um pico de estresse, mas na verdade, tentou minimizar a força dos pensamentos externos que vinham de algum lugar da rodovia. Pareciam risos de hienas zombando da situação, e isso foi o suficiente para entender que eles não estariam seguros por muito tempo.
O ronco de outro motor ecoou no horizonte e se aproximava com velocidade de uma flecha na rua do lado. Assim que cruzaram a mão inglesa mais próxima, Antares pisou no acelerador para evitar o que estava prestes a atingi-los com força total.
Aquilo não se tratava de qualquer funcionário dirigindo às pressas até seu local de trabalho, mas duas crianças de vestido vitoriano no capô de um carro enquanto uma terceira assumia o volante como se estivesse apostando uma corrida. O único objetivo delas era o entretenimento, mesmo que precisassem causar grandes estragos para conquistá-lo.
Por sorte, a lataria sofreu alguns arranhões e nenhuma das pestinhas saltou na direção do trio. Considerando que a rota delas era uma subida que servia como via de retorno ao Arquipélago dos Envios, era previsto que fossem realizar um ataque vindo de cima, mas não cogitaram na hipótese de levarem o veículo também.
A estrada sacolejou e uma batida forte estremeceu a traseira do único meio de fuga para a Escolhida, visto que as Ursas Menores arrancaram os freios para evitar que a viagem fosse segura.
— Eu não sei se vou conseguir parar a tempo, segurem-se firme! — alertou a segurança, já sabendo do destino que os aguardava.
— Mais rápido, mais rápido! — riram as Ursas Menores, se deleitando a cada segundo do desespero dos fujões — Vamos tirá-los da pista!
O freio não funcionava, o volante parecia tão rígido como se houvesse travas internas que impediram a mudança de direção. Eram sinais que o Calhambeque havia desistido de lutar, e seus passageiros tinham uma única escolha: Segurar firme.
A linha tênue entre a vitória e o fracasso trouxe uma sensação inconfundível ao trio, que se ainda fossem humanos, sentiriam as veias pulsarem em frenesi e a vontade de expressar a agitação com um grito poderoso. Os cabelos tremulando junto aos roncos do motor, as partículas coloridas das nebulosas circulando pelos arredores, o prelúdio do destino que os aguardava logo à frente.
Na ilha mais próxima, os funcionários estavam aglomerados na frente do casarão esbranquiçado, o aspecto sofisticado proporcionado pelo canteiro de rosas no formato de espirais e das pilastras na fachada. A cerimônia era centralizada na inauguração de uma nova sede para o setor jurídico, o resultado do esforço e lágrimas de muitos arquitetos orgulhosos.
Apenas para ser arruinado por um carro desgovernado…
— Saiam da frente! — gritou Antares, enquanto o automóvel arruinava o belíssimo jardim, levando as rosas e grandes quantidades de grama pelos ares. Tudo ocorreu em questão de segundos.
…
O som de uma batida avassaladora ecoou por todos os cantos, e quando a poeira abaixou, a visão da fachada varrida sem piedade e a pilastra esquerda partida ao meio. Levou alguns segundos para Cosmo e a Escolhida se recuperarem do choque, o mesmo não poderia ser dito ao veículo…
Inúmeros amassados foram identificados ao redor da lataria, assim como um dos assentos que saiu voando. A porta do motorista foi tão comprometida que se desprendeu sem qualquer cerimônia. Mas, nenhum dano fora tão drástico em comparação ao estado da segurança de mechas alaranjadas.
— Antares! Está me ouvindo? — O rosto de Cosmo ficou pálido ao ver a amiga apoiando a cabeça no volante, incapaz de respondê-lo. As correntes realizavam movimentos vagarosos, e mesmo assim, ninguém poderia ajudá-lo naquele momento.
A pegadinha das Ursas Menores alcançou um patamar tão absurdo que barganhar seria a receita perfeita para o desastre. Estavam há alguns metros de distância da ilha, satisfeitas com a bagunça que causaram e os risos servindo como indicativo que, enquanto tivessem o controle da situação, ninguém estaria seguro.
— Nós precisamos sair da rodovia principal, é o único jeito de despistarmos elas! — afirmou Cosmo ao se dirigir para o banco do motorista — Eu tenho energia sobrando, talvez eu possa…
Os planos mirabolantes foram ofuscados pelos soluços vindos do banco de passageiros. Ao se virar, observou Andreia sentada em posição fetal, as mãos apoiadas sobre a nuca em uma tentativa falha de se proteger do terror iminente.
Os poucos minutos que tinham antes da finalização aterradora das ursas foi o bastante para o professor refletir sobre tudo que o levou até o momento atual. O fracasso na sala de aula, a aposta impensada, a discussão com a melhor amiga e, no fim, se ver no meio de uma perseguição equivalente aos livros de ação que serviram de entretenimento nas horas vagas.
Na verdade, ele poderia estar com sua turma e seguir com a missão de contrariar a Ursa Maior se não fosse intrometido e ter aberto o receptáculo de ouro. A garota das mechas encaracoladas não pediu para estar no Conselho e ter experiências tão assustadoras em pouquíssimo tempo, então, assumiu a responsabilidade de tirá-la daquela enrascada.
— Ei ei, calma, respire fundo! — aconselhou Cosmo, indo até a cabine de passageiros na tentativa de confortá-la — Vamos ficar bem, só precisamos manter a cabeça fria e…
— É claro que vai ficar tudo bem! — O sarcasmo da garota mesclado com a entonação trêmula agiu como uma facada no coração do professor — Tudo que vocês fizeram até agora foram inventar desculpas para me enfiar cada vez mais nessa loucura, agora não posso mais sair daqui!
— Eu não… Sim, você tem razão. Nada disso estaria acontecendo se eu não tivesse te despertado. Estou me esforçando para resolver esse problema, mas todas as probabilidades giram a favor… delas! Se houvesse uma maneira de prever… — De repente, Cosmo sentiu uma lâmpada imaginária ascender por cima da cabeça — É claro! Como não cogitei isso antes?
— O-o quê?
— Existe uma maneira de nos livrarmos das Ursas Menores e sairmos ilesos, mas, vou precisar que me ajude com o seu dom.
— N-não! Eu não sei como controlar essa coisa!
Um grande estrondo ecoou a metros de distância, junto com o riso travesso das três meninas que se aproximavam de forma lenta e ameaçadora. A ocorrência quase fez o coração de Andreia saltar e jogá-la em desolação, mas a atenção se voltou para Cosmo que apoiou a mão sobre os ombros.
— Eu te mostro como usá-lo. Sei que não tenho direito de pedir isso, mas agora, você precisa confiar em mim. Está bem?
A menina gesticulou com a cabeça, sabendo que não havia outra escolha.
— Feche os olhos, e foque apenas na minha voz — Quando viu que Andreia seguiu as instruções sem questionar, Cosmo prosseguiu — Tente recriar a imagem do local onde estamos na sua imaginação. Foque nos elementos principais, na cor, no cheiro, nos detalhes marcantes…
Andreia não tinha afinidade em meditações guiadas, mas depois de alguns segundos vagando no próprio imaginário, fez um breve mapeamento do local onde estavam.
— Tinha um lindo canteiro de rosas ao redor da mansão. Duas pilastras brancas ficavam na entrada e estátuas de leões bem chiques próximas ao telhado…
— Simples, mas já é um começo — Cosmo continuou — Aquelas três pestinhas estão logo atrás de nós. Imagine-as como três chamas ficando mais intensas à medida que se aproximam, eu só preciso que adivinhe o que estão planejando. Consegue fazer isso?
A garota franziu a testa como se fizesse o maior esforço para emular a imagem das Ursas, sem deixar que o medo da aniquilação atrapalhasse a linha de raciocínio. Conseguiu visualizar um trio de chamas nas cores azul, verde e vermelho, tornando-se nítidas à medida que as vozes ressoavam.
— Elas… Vão dar um grande salto e rasgar nossas gargantas…
— É mesmo? Isso é o que veremos! — disse Cosmo ao colocar Antares no banco de passageiros e assumir o volante.
Depois de algumas engasgadas, o motor respondeu aos comandos desesperados e deu marcha ré com bastante ferocidade, jogando as garotinhas para trás. A carcaça restante sacolejou assim que retornaram à estrada de nebulosa, indicando que o veículo não iria durar muito tempo. Aquela era a única chance de escapar.
— Isso funcionou! — comemorou Cosmo, mas pigarreou quando viu o trio se levantando após o choque do automóvel — Mantenha os olhos fechados, jovem Andreia! Deixe o resto comigo.
— Certo… — A morena respondeu fazendo uma careta, forçando a imaginação para se concentrar na linha de pensamentos ao redor — A chama azul vai bloquear nossa passagem e usar a voz para desmontar o carro…
— Um ataque frontal? Certo, virando na próxima esquerda! — Após sinalizar aos demais veículos que trocaria de faixa, o professor virou o volante como se fosse o leme de um navio pirata, a tempo de evitar o contato direto com uma das Ursas Menores.
— Elas não estão contentes com isso… Vão fazer alguma coisa em conjunto…
Nesse momento, uma leve camada de fumaça se formou ao redor de Cosmo e Andreia, o prelúdio do sacolejar frenético que interrompeu a grande escapada.
— J-jovem Andreia!
— Elas estão usando a estrada como um trampolim para se locomover… C-como isso é possível?
— Isso não é bom. Segure-se firme!
O professor afundou o pé no acelerador na esperança que pudessem escapar dali o quanto antes, porém, quanto mais altitude as Ursas Menores pegavam, maior era a contorção da estrada colorida. Cada impacto gerava ondas capazes de jogar qualquer veículo ou estrela pelos ares, e estavam se aproximando em uma velocidade absurda.
Não havia como evitar um golpe daqueles, e desse modo, o amontoado de peças sucateadas na qual batizaram de calhambeque foram desmanteladas por completo. Cosmo, Andreia e o corpo inconsciente de Antares foram lançados na imensidão do espaço sideral, sendo alvos de estrelas curiosas nos arredores e das perseguidoras mirins.
A morena de camisola não pôde segurar o desespero ao passar por cima de muitos elementos em alta velocidade e em sua cabeça, questionou o motivo pelos criadores do universo terem lhe dado uma punição tão devastadora. Aquele era o fim da linha, se não fosse estilhaçada, seria questão de tempo até um caminhão dar o golpe de misericórdia.
— Seus otários! Estão exatamente onde a gente queria! — As Ursas Menores responderam, exibindo as garras e os caninos antes de saltar na direção do trio.
Com a agilidade adquirida em séculos de pegadinhas e a vantagem de serem constelações, pegar a Escolhida e jogarem Cosmo para longe seria uma tarefa muito simples, porém, erraram ao cantar vitória antes do tempo certo.
— Não tema Andreia, eu estou com você! — disse Cosmo enquanto segurava o braçio esquerdo da garota — Vai ficar tudo bem, vai ficar… — A fala foi interrompida quando sentiu uma pressão esmagadora puxando seus pés, os tirando da mira das ursas
E no fim, tudo aconteceu em questão de segundos. As garotas perderam qualquer esperança de concluir sua missão e impressionar a Ursa Maior, caindo no pior lugar que uma pessoa poderia aterrissar: dentro da caçamba de lixo de um caminhão na rua abaixo.
O trio de “estrelas cadentes” retornaram para a estrada de fumaça colorida, onde o conjunto de correntes prateadas parou de se mover após uma atitude inesperada. Os gritos da garota de camisola finalmente pararam, assim como o pavor que foi substituído pela mesma dor nas costas de momentos atrás. Quando abriu os olhos, o caos havia passado.
— M-Mas a gente tava voando, e…
— As correntes… Elas nos salvaram! — Cosmo deu alguns saltos de empolgação, um misto de admiração e alívio por estarem inteiros — Eu sabia que havia uma certa atividade cerebral na Antares, mas confesso que não esperava uma ação tão precisa de alguém desacordado.
— Isso foi loucura! Podíamos ter morrido, se bem já estamos mortos… E-eu não estou entendendo mais nada!
— Eu sinto muito que a sua recepção tenha sido conturbada, mas fique tranquila que isso não vai acontecer de novo. Eu e a Antares vamos te manter segura pelo tempo que precisar. Só precisamos de um carro novo…
Agora que a tensão se dissipou, o professor engenhoso, a segurança desacordada e a mais nova Escolhida teriam um longo caminho a percorrer até que pudessem encontrar um lugar onde pudessem esclarecer todas as dúvidas que restaram. O destino teve uma reviravolta que nenhuma daquelas estrelas imaginavam, e agora, tinham que se adequar às novas oportunidades que se abriram.
— Eu quero um pouco de água… — disse Andreia confusa.