O Conselho das Estrelas - Volume 02 - A Primeira Excursão - Capitulo 18
18: A Grande Reunião.
Os seguranças pareciam confiantes na reação dos supervisores e na possibilidade de uma promoção merecida, porém, as expectativas foram estraçalhadas quando a cacofonia de gargalhadas tomou conta da Távola Redonda.
Alguns tentaram manter a postura, enquanto outros não paravam de praguejar a audição dos colegas ao presenciarem, na opinião geral, a coisa mais engraçada que ouviram até o momento.
A única que não parecia impactada com a notícia era a Ursa Maior, que estava sentada em uma gigantesca poltrona com as patas e cabeça de um urso pardo entalhados no encosto de madeira. Sua expressão era mórbida, como se já esperasse que alguma coisa fosse atrapalhar a reunião.
— Aludra, supervisora da equipe Segurança — A diretora se virou para uma mulher de cabelos cacheados e farda militar no lado esquerdo da mesa. Seu tom era ácido como o veneno de uma serpente — Você designou estas estrelas para bloquear a passagem de visitantes indesejados. Me explique, por quê elas estão assumindo esse exato papel?
— Eu fui bem clara que não deixassem o posto sob qualquer circunstância! — Os olhos da mulher estavam fixos na mesa. Nem mesmo o tom reluzente de verde água de sua farda pôde mascarar a humilhação daquele momento — Irei aplicar uma punição severa à todos assim que a reunião terminar…
— N-não vejam bem… Nós estávamos passando uma notícia importante! — Um dos seguranças reuniu a coragem para se explicar, mas as melhores desculpas seriam inúteis se quisessem convencer a Ursa Maior.
— Saiam… Da minha… Vista! — Deixando uma leve alteração de humor escapar, um simples estalar de dedos foi o bastante para jogar os pobres coitados para longe, sem qualquer cerimônia.
Os demais supervisores ficaram em silêncio enquanto assistiam o dom da temida Diretora em prática. Eles sabiam que precisavam evitar a malha fina de qualquer maneira, pois estarem no topo da hierarquia não os deixava imunes contra a força e influência de uma constelação.
— Senhores, não temos tempo para assuntos desnecessários! Temos muito a discutir e preciso da atenção de todos. Dito isso, Betelgeuse, sabe de alguma coisa sobre o paradeiro da representante Tecelões?
— Minha senhora, está falando de Bellatrix? — afirmou um homem esguio vestindo um kimono rubro com adornos em amarelo — Conhecendo o jeito irreverente de se tornar o centro das atenções, deve estar abusando da maquiagem e…
Antes que pudesse terminar, um grito estridente ecoou pelo corredor do salão principal. O que veio a seguir fez boa parte dos supervisores gritarem e se esconderem por trás dos assentos para se proteger das recém chegadas: uma loira desesperada e três ursas encrenqueiras.
As Ursas Menores não estavam em condições apresentáveis para a reunião, os vestidos tinham inúmeros rasgos e o odor de resíduos espaciais profanou os olfatos alheios. Parece que atrapalhar a reunião da Távola Redonda era mais urgente que os cuidados com a higiene pessoal.
— S-socorro, alguém me proteja dessas pragas! — gritou a mulher, se escondendo por baixo da mesa — E-elas atacaram minha carruagem e ameaçaram arrancar o meu lindo cabelo se eu não…
— Recomponha-se, Bellatrix! — A Diretora se levantou, elevando o tom de voz para cessar as explicações inúteis da supervisora — Está prejudicando a imagem do seu setor ao se comportar como uma criança assustada — Após o alerta, se virou para o trio de intrusas — E vocês, o que estão fazendo aqui? Eu falei para não chegarem perto da Távola Redonda!
— Mamãe, o que temos pra falar é muito sério! — alertou a ursa de cabelos azulados. — O velhote trouxe uma nova Escolhida para a nossa filial!
— Mas ela foi sequestrada! — continuou sua irmã de mechas avermelhadas..
— Pelo Professor Cosmo! — concluiu a última das garotas, colocando ênfase no nome do professor.
— Escolhida? — gritaram os supervisores, incapazes de processar o que acabaram de ouvir. Nem mesmo a Ursa Maior teve uma boa reação.
Os olhos arregalados e os dentes rangendo enquanto os punhos não paravam de tremer. Cosmo deu um salto maior que a perna, e com isso, adquiriu a Escolhida como uma integrante de sua turma.
Manter a conduta profissional era uma tarefa difícil pelo comportamento de cada supervisor, mas pela primeira vez, a mulher sentiu que o controle havia escorregado de suas mãos como um sabonete na hora do banho.
Porém, a situação era tão grave que não houve uma simples brecha para expressar outras emoções. No meio de tantas pessoas que não tinham a mínima noção do que fazer, alguém precisava ser o elo mais forte e tomar as rédeas da situação. Desse modo, ela retornou à postura anterior enquanto seus subordinados caem no desespero.
— Uma Escolhida? Isso não é possível! — comentou Haedus, um homem cujo paletó e cartola lhe davam impressão de um velho catarrento da nobreza, com o nariz tão arredondado quanto uma batata — O Ancião nunca se importou com nossa filial, por que tomar uma decisão dessas agora?
— Queria muito ver como ela se parece… — As sobrancelhas de Acrux, supervisor dos Zeladores, se retraíram quando soube do ocorrido, criando uma expressão duvidosa à faceta idosa com um cavanhaque esbranquiçado. — Eu estava precisando de alguém especial para resolver os problemas do meu setor!
— Você sempre precisa que alguém limpe sua sujeira! — Disse o homem engravatado em um tom de repulsa. — Quando irá aprender a lidar com as coisas sozinho? Aquele maluco da Pesquisa e Desenvolvimento precisou de toda a ajuda da galáxia para suas besteiras e nem está aqui para contar história! — A referência de Auriga se tratava de um assento vazio no lado direito da mesa.
— Pessoal, não vamos nos exaltar num momento como esse! — A decência de Betelgeuse não alcançou seus colegas, ocupados com assuntos não pertinentes à reunião.
— O asiático tem razão! — afirmou Polaris, um homem de chapéu e sobretudo negros alidados a um humilde colete vermelho. A voz era falha e descontraída graças ao uso desenfreado de charutos — Deixem a garota seguir o próprio caminho, todo explorador deve aprender a se lascar desde o começo!
— Não foi isso que eu quis dizer…
As reuniões da Távola Redonda simbolizavam o comprometimento dos supervisores quanto ao futuro da filial, mas o debate entre pessoas sérias parecia um grupo de crianças disputando para ver quem gerenciava o melhor setor.
A maioria havia perdido os bons modos, enquanto o restante tentava segurar as pontas ou temiam pela interferência do Ancião. Se fosse o caso, ele não teria dificuldade alguma de fazê-los parar com a confusão, mas o presidente atarefado tinha sorte que uma certa pessoa iria resolver as coisas em seu lugar.
Ver como as coisas desandaram tão rápido fez os nervos da grande Ursa subirem a cabeça, pois diante de todos os problemas a serem resolvidos, incluindo a aposta com Cosmo, interromper a discussão entre os membros era muita humilhação para uma profissional de grande renome. Mesmo assim, tinha de ser feito.
Enquanto a exorbitância de vozes enchia o recinto de caos, a morena de blazer levantou-se e ergueu a mão esquerda, silenciando os colegas assim que o estrondo semelhante ao badalar de um sino ressoou em resposta ao estalar de dedos. Ela se tornou o centro das atenções.
— Damas e cavalheiros, vocês sabem o que o nosso trabalho representa? — A questão da mulher ressoou com uma entonação profunda, o que deixou todos nervosos.
— Decidir o melhor para as estrelas, aos departamentos, e a galáxia como um todo. — respondeu Betelgeuse.
— Bem apontado, gestor dos Artistas. Nossa missão é fazer este Conselho perdurar até o fim das eras, e sendo frutos do poder do Ancião, temos uma grande responsabilidade em nossas mãos. Isso é algo que, até onde estou vendo, muitos de vocês não levam a sério.
— Mas Senhora, cuidar de tantas estrelas desnaturadas é um trabalho cansativo! — disse Bellatrix, passando batom nos lábios com o auxílio de um pequeno espelho. — Está falando como se fossemos tão poderosos quanto o Ancião!
— Pensei que era o caso, mas parece que alguns se preocupam muito em jogar os problemas embaixo do tapete. Se você fosse mais responsável, Bellatrix, não teria passado vergonha na frente dos seus colegas — Assim que a loira engoliu a resposta em seco, a mulher percebeu que outras constelações estavam caçoando da bronca e agiu com prontidão — Podem rir, mas saibam que tem exemplos piores que ela nesta reunião!
A Ursa nem precisou citar nomes, pois todas as entidades que gostavam de boas risadas, incluindo Acrux e Polaris, pararam no mesmo instante. Mesmo estando bem afastados e se reunindo em momentos de extrema necessidade, a Diretora foi enfática na afirmação de que tais erros não deveriam ser repetidos.
— Estamos muitos ocupados reclamando sobre o Ancião não dar atenção para nós, e ignoramos o problema diante de nossos olhos! Nossa filial está acumulando prejuízos graças às Supernovas, se não formos capazes de colocar nossos funcionários em seus devidos lugares, vamos arcar com a falta de recursos e será questão de tempo até a galáxia desaparecer. É isso que vocês querem?
O silêncio dos gestores foi enigmático, pois não tinham argumentos que pudessem contrariar as palavras da mulher com a capa de urso. Se todos chegaram tão longe ao ponto de terem o luxo de estarem no topo da hierarquia, se viram obrigados a prestar atenção nas palavras da colega.
— Se o Ancião não fizer contato conosco, precisamos de uma liderança firme e disposta a levar essa filial adiante. Nós já perdemos o supervisor de Pesquisa e Desenvolvimento, e não vou tolerar mais elos fracos! — Após um longo suspiro, ela continuou — Nesse caso, o que acham de focarmos no que realmente importa?
— Certo, minha Senhora. Todos estamos de acordo — respondeu Betelgeuse, vendo que o restante dos supervisores assentiu com a cabeça.
— Quanto a vocês três… — A diretora encarou suas “filhas” com um olhar afiado — Eu frisei muitas vezes para que se comportassem, mas levando em consideração a notícia “bombástica”, suponho que estejam envolvidas na captura da Escolhida.
— N-nós iríamos escoltar a garota até o seu escritório! — protestou a ursa da voz estridente, decidindo as palavras certas para não gaguejar diante de sua “mãe”.
— O Cosmo e a Antares a levaram! Aposto que isso tudo foi por medo de perder a aposta! — completou a menina de cabelos verdes, ainda mais receosa que as outras irmãs.
— A Antares está com ele? Não deveria ser assim… — A Ursa abaixou a cabeça como se quisesse refletir sobre a informação, mas retomou o foco segundos depois — Se minha dedução estiver correta, ela está perto de quatro indivíduos que podem se descontrolar facilmente. Já que as três não conseguiram parar quietas, preciso que sejam meus olhos e ouvidos para monitorá-los a todo custo!
— O que? — As constelações falaram em conjunto. Eles não podiam acreditar que a Ursa Maior estava confiando uma missão importante a três garotas que tinham chances bem significativas de estragarem tudo.
— Porém, — A mulher continuou, atrapalhando os pulos de comemoração do trio — Lembrem-se que vão zelar pela segurança da Escolhida, e se alguma coisa acontecer com ela, o Cosmo não será o único a receber uma punição — O tom ríspido jogou o salão no silêncio outra vez. — Dado ao longo histórico de “travessuras”, eu não vou permitir que façam isso sozinhas. Mandarei alguém que irá garantir o bom comportamento de vocês. Uma babá.
— Não! Tudo menos uma babá! — As garotas choramingaram com as palavras tão certeiras quanto o corte de uma lâmina no coração.
— Sim, uma babá. Assim que terminarmos a reunião, irei contatar aquela senhora que cuidou de vocês enquanto eu treinava a Antares. Pode ser que ela demore um pouco mas…
— Deixa de enrolação, mulher! Estou bem aqui! — Uma voz feminina ecoou no corredor, indicando que mais uma visitante se juntaria à Távola Redonda.
Como não haviam mais seguranças protegendo a entrada, a senhora atravessou o corredor com passos suaves até chegar ao salão. As feições de terror das pequeninas se opuseram à enxurrada de elogios e gritos de alívio.
A melhor parte da reunião estava prestes a começar, agora que os olhares estavam focados na senhora mais famosa da galáxia. Uma blusa curta de tom azulado e calça acinzentada davam simplicidade ao visual dela, e apesar de ser dependente da fiel bengala de madeira, o carisma foi o suficiente para conquistar os supervisores.
— E então, onde estão as pequeninas que vou cuidar? — disse Tia Cléo esbanjando um sorriso contagiante.