O Sétimo Espelho - Capítulo 15

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Quem decide a verdade

          “Porra…”

          Heitor reconheceu a sensação antes mesmo de abrir os olhos. O corpo rígido, o peso esmagando o peito, a respiração curta. Todos os sinais eram bem familiares. Tinha lido bastante a respeito e ouvido médicos explicarem: o cérebro desperta antes do corpo e o sistema nervoso demora alguns segundos para responder.

          Uma paralisia do sono. Simples, científico, mas uma explicação confortável demais para alguém que já tinha passado por aquilo tantas vezes.

          “Tá tudo bem… você sabe como funciona.” Tentou se concentrar, forçar um movimento mínimo, qualquer resposta muscular que rompesse a inércia, mas o tempo se esticava e os segundos pareciam se dissolver numa eternidade muda.

          Mandíbula travada, coração disparado, suor frio descendo pelas têmporas. A parte racional listava os sintomas, tentando manter o controle, mas o medo é ilógico e nesse tipo de situação sempre leva a melhor.

          O quarto permanecia em silêncio absoluto, exceto pelo som abafado da própria respiração. Heitor teria rido, não fosse pelos dedos compridos que atravessavam a moldura do relógio preso à parede. Ou pelo odor que os acompanhava. Uma mistura de ferro, umidade e algo antigo que não tinha nome.

          O ar ficou mais frio. Os pelos do braço se eriçaram. Uma névoa fina escapou de sua boca entreaberta. A essa altura já estava acostumado, ou talvez, resignado fosse uma palavra melhor. Até podia dizer que esperava que acontecesse, mesmo que isso não tornasse os eventos menos angustiantes.

          Ela estava lá.

          Aquela presença ominosa que o observava por trás das cortinas, entre as frestas dos móveis ou no reflexo opaco de uma TV desligada. Pairava nos cantos mal iluminados durante o dia e, à noite, era o próprio escuro. Mesmo quando escapava ao seu campo de visão, o instinto lhe sussurrava que continuava ali.

          Hoje, no entanto, não era a única a espioná-lo. Mais alguém o encarava além da parede de persianas brancas que separavam a cama do restante do leito.

          Heitor teve um mau pressentimento. Aquela silhueta era bem distinta das que costumavam aparecer em momentos como esse. O contorno era mais concreto, sólido e terrivelmente humano dentro do uniforme hospitalar.

          “Uma enfermeira? Não… já passou da hora da ronda noturna”. O inspetor não conseguia ver ao certo, mas tinha certeza que era algo em torno das três da manhã. Afinal, sua velha companheira era meticulosa demais para atrasar o próprio ritual.

          Enquanto o cérebro tentava delimitar o que estava além das bordas da alucinação, as figuras se moviam de forma independente, aproveitando as áreas escuras do quarto. A sombra seguiu o farfalhar das cortinas para deslizar até o pé da cama. Já a outra se aproximou a passos lentos e irregulares pela lateral, evitando deliberadamente o campo de visão de Heitor até alcançar os equipamentos médicos atrás do leito.

          “Isso… não é uma alucinação”. Uma sensação de vazio o atravessou, como se algo tivesse afundado dentro do estômago. Um calafrio subiu pela espinha. Agora ele tinha certeza, os olhares furtivos que o seguiram pelo corredor não eram imaginação. Estava sendo vigiado, mas “quem” ou “porquê” eram perguntas que ficariam para depois.

          Heitor começou a arfar de forma rápida e superficial, forçando o corpo a um limite perigoso. Normalmente lutaria contra isso, mas usaria as consequências da hiperventilação a seu favor desta vez.

          Como se pudesse ler seus pensamentos, a sombra ao pé da cama inclinou a cabeça. Não tinha rosto, mas às vezes ele distinguia ali a forma distorcida de um sorriso e era essa expressão macabra que estava vendo agora, enquanto garras longas deslizavam para dentro do lençol.

          O som do monitor cardíaco ficou mais alto e persistente, acompanhando os batimentos acelerados do inspetor. Um suor pegajoso escorreu pela nuca, grudando os fios negros ao travesseiro e a cabeça começou a girar. Esses eram sintomas esperados, mas não era fácil racionalizar a sensação daquele toque gelado que roçava seus dedos com uma  delicadeza profana.

          Respirar estava se tornando impossível. Os pulmões ardiam. As costelas pareciam prestes a ceder.

          “Só mais um pouco!”

          Ruídos metálicos ecoaram atrás da cama. Um clique seco soou perigosamente perto de sua cabeça. Os ombros estremeceram em um tremor involuntário e a saliva espessa se acumulou em sua boca, mas mesmo que quisesse, não conseguiria gritar. Estava enterrado vivo dentro do próprio corpo, reduzido a esperar que os sintomas que acompanhavam esse quadro fossem o suficiente para salvá-lo.

          O suporte do soro rangeu, movendo-se quase ao mesmo tempo em que vozes apressadas se aproximavam pelo corredor.

          O intruso hesitou, parecendo calcular o tempo e suas possíveis rotas de fuga. Heitor não sabia em que andar estavam, mas pelo silêncio que pairava atrás dos vidros, pular não parecia uma alternativa viável. O outro deve ter chegado à mesma conclusão, pois estalou a língua antes de recolher os objetos espalhados e religar os acessos à bolsa de soro, mas algo estava diferente.

          “Esse filho da puta me drogou?”. Heitor tentou respirar fundo, mas o ar parecia denso demais, como se a atmosfera do quarto tivesse sido trocada por um líquido viscoso. As algemas da paralisia do sono cederam lugar a algo mais profundo, quase sedutor, que o arrastava para um lugar onde os pensamentos perdiam seus contornos.

          Quando tentou se erguer, as quinas das paredes se entortaram e a luz do teto balançou de um lado para o outro. A imagem do intruso se multiplicou e se fragmentou até que restasse apenas uma forma distorcida que mancava em direção ao banheiro.

          As pálpebras acompanharam o ritmo lento e compassado dos aparelhos conectados ao peito. A respiração ficou menos ruidosa e uma sensação estranha de estar afundando em águas geladas entorpeceu os sentidos do inspetor. Então, por entre o véu da inconsciência ele a viu, sorrindo imóvel ao pé da cama. Apenas esperando até que a realidade se apagasse para mergulhá-lo mais uma vez em sua escuridão.

***

          — Não! — a voz engasgada ecoou de dentro dos pesadelos até as persianas claras do leito do hospital. 

          Heitor despertou em sobressalto, o corpo projetando-se para frente com violência instintiva. Estremeceu, a dor que irrompeu em suas costelas era aguda, pulsante e o obrigou a abraçar às laterais do tronco enquanto segurava o gemido seco que ameaçava escapar dos lábios.

          A visão oscilou em tons de cinza ao passo que o teto girava, lentamente, antes de voltar para o lugar. Estava acordado, não havia dúvidas, mas o corpo pesado e a mente confusa pareciam relutantes demais em deixar o campo dos sonhos. 

          “Aquele maldito…”, apertou as temporas. Os olhos estavam se acostumando à realidade, identificando os fragmentos do local em que estava. A luz fria, o bip insistente dos aparelhos, o soro pendendo do suporte metálico e uma mão justo onde sua mente não conseguia deixar de focar.

          Ainda estava tonto, mas o instinto guiou os músculos de forma automática. O braço se esticou e ele agarrou o pulso do intruso, os dedos fechando-se com força em torno do uniforme branco.

          — O que você pensa que está fazendo? — rosnou, cerrando o maxilar. 

          A enfermeira soltou um pequeno grito:

          — Senhor! Por favor, me solte! Eu só estava verificando o soro…

          — Por quê? — Ele apertou mais, os olhos fixos nela.  — Quem te mandou aqui?

          — É-é o procedimento padrão… — A mulher engoliu em seco, visivelmente assustada. — Só estou fazendo o meu trabalho, s-senhor.

          Ele não relaxou, pelo contrário. O aperto em torno do braço da enfermeira se tornou ainda mais rígido, sem que percebesse.

          — Foi você que esteve aqui ontem à noite? — continuou.

          A mulher empalideceu.

          — Eu? Não, senhor. Meu turno começou agora pela manhã. Mas posso verificar quem estava responsável pela ronda noturna, se desejar…

          Ela apertou os olhos e franziu a testa, emitindo um gemido abafado. Só então Heitor percebeu a força com que a segurava.

          — Se você puder… —  Ele a soltou.

          — C-claro. — A enfermeira esfregou o pulso, ainda trêmula. — Vou deixar os comprimidos para dor aqui. Por favor, fiquem à vontade e se precisarem de algo é só me chamar.

          Ela fez uma pequena reverência, lançando um olhar rápido para o corredor antes de sair às pressas. Foi então que o inspetor notou a mulher encostada no arco da porta. Seus olhos claros e inquietantes estavam fixos nele. 

          Alta, pele negra, cabelos cacheados presos num rabo de cavalo que deixava o rosto exposto. Vestia um terninho cinza-chumbo, perfeitamente alinhado ao corpo, mas o que chamava atenção não era a elegância e sim a rigidez profissional que denunciava alguém acostumado a enxergar além do que se vê.

          — Inspetor Heitor Cordeiro. — Seu tom era baixo, quase cuidadoso. — Tenente Júlia Rodrigues. Fui designada pela corporação para colher seu depoimento sobre o incidente na mina. Posso entrar?

          — Gostaria de ver seu distintivo antes. — O inspetor não fez questão de esconder a desconfiança.

          Júlia arqueou uma sobrancelha, mas não pareceu ofendida. Apenas sorriu e retirou a identificação do bolso, exibindo-a com tranquilidade.

          — É natural que esteja confuso. Depois de um trauma como o seu, a percepção pode se tornar… instável. — A expressão suave, ensaiada. — Mas estou aqui para ajudar, não para pressioná-lo.

          — Está tentando sugerir alguma coisa? — a pergunta saiu controlada, mas tensa.

          Ela sorriu de canto, quase com compaixão.

          — Estou dizendo que, em casos assim, a linha entre percepção e delírio costuma ser perigosamente fina. E é justamente por isso que estou aqui.

          A mulher puxou uma cadeira, se sentou ao lado da cama e continuou com o tom calmo:

          — Pode ficar tranquilo, inspetor. Nosso interesse é apenas esclarecer os fatos, você sabe como funciona.

          — Claro, é o protocolo em caso de acidente em serviço, mas não achei que o delegado regional fosse comunicar a capital tão depressa.

          — Não é porque estamos em uma cidadezinha pra lá de onde “Judas perdeu as botas” que  ele ficaria livre de cumprir os prazos, ainda mais quando o policial envolvido é uma celebridade na capital. Concorda?

          Heitor estreitou os olhos, mas o lampejo de provocação desapareceu tão rápido quanto surgiu no rosto da mulher. Com a expressão impassível de antes, pegou a pasta que descansava no chão ao seu lado. De dentro, tirou um gravador e um tablet.

          — Se importa?

          Heitor balançou a cabeça. Não era a primeira vez que passava por isso. De fato, este era um procedimento padrão e mesmo que nunca fosse a figura de interesse, já tinha sido procurado pela corregedoria como testemunha em casos de acidente envolvendo outros policiais da capital. 

          — Bom, vamos começar então. Como está se sentindo?

          — Bem — respondeu sem emoção.

          — Teve algum lapso de memória desde que acordou?

          — Não.

          — Dor de cabeça? Tonturas? Náusea? Desorientação? — Sua voz era gentil, mas havia algo afiado nas entrelinhas.

          — Não.

          Júlia observou o rosto de Heitor com atenção minuciosa, como se buscasse algo escondido atrás de suas respostas curtas. A análise velada não tinha passado despercebida e as perguntas de praxe começaram a desenhar uma sombra leve no rosto do inspetor.

          — Inspetor, está tomando algum medicamento por conta própria? Algo que não conste em seus exames?

          — Não.

          — Tem tido problemas para dormir?

          Ele hesitou, apenas por um segundo antes de responder:

          — Não mais que o normal.

          Júlia sorriu de leve, como se já esperasse aquela resposta e anotou algo em seu tablet pela primeira vez.

          — Antes de chegar a essa cidade, o senhor sofreu outro acidente, correto? Pode me falar sobre ele?

          Heitor franziu a testa.

          — Quem relatou isso?

          Ela ignorou.

          — O senhor estava sob efeito de alguma substância ilícita naquele momento?

          “Então era aí que você queria chegar…”, ele apertou os dentes, mantendo da  melhor forma possível a compostura.

          — Não. — Sua voz agora veio mais tensa. — Eu estava completamente sóbrio. Não faço uso de nenhum tipo de substância ilegal ou que afete meu discernimento.

          Ela abaixou levemente os óculos.

          — Sabe que perguntas sobre seu estado mental fazem parte do protocolo, certo? E não preciso lembrá-lo que omitir ou falsear informações só irá prejudicá-lo.

          — Está me ameaçando?

          A temperatura do quarto pareceu cair alguns graus.

          — Apenas sendo clara. — Seu sorriso não se desfez.

          Antes que Heitor pudesse retrucar, passos apressados ecoaram pelo corredor.

          — Heitor! Porra, eu disse que te amararia na cama se eu voltasse e você não estivesse deitadinho debaixo das cober…

          Ricardo surgiu na porta com sua habitual urgência desalinhada, mas reduziu o ritmo ao ver a mulher.

          — Opa… cheguei em um momento ruim? — Sorriu, arrumando os cabelos.

          Júlia recompôs imediatamente sua expressão, retomando o tom amável.

          — Apenas trabalho, investigador Cruz. Sabe como é.

          — É… sei sim… — murmurou, lançando um olhar desconfortável para Heitor.

          Ela recolheu seus pertences, arrumou os óculos e levantou sem fazer cerimônia.

          — Por hoje é só, inspetor. Voltaremos a conversar quando estiver se sentindo mais disposto. Espero que até lá possa considerar ser mais detalhista em suas respostas.

          — Me avise com antecedência e eu entregarei um relatório bem detalhado — Heitor cortou.

          — Vamos precisar uns dos outros, inspetor. E seria uma pena começar essa relação com o pé esquerdo.

          Júlia caminhou até a porta, cumprimentando Ricardo com um aceno discreto antes de sair. Os passos firmes ecoaram pelo corredor como um aviso velado de que aquela não seria a última vez. Heitor encarou a cadeira vazia por alguns segundos. O bip dos aparelhos foi abafado pela raiva que pulsava nos ouvidos.

          — Então é assim que vai ser… — rosnou, cerrando os punhos.

          Tinham feito o primeiro movimento e dado início à temporada de caça, mas se enganaram ao acreditar que poderiam ditar todas as regras. Ele aceitava participar do jogo, sim, mas nunca no papel da presa.

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