O Sétimo Espelho - Capítulo 16
Premissas paralelas
O quarto estava mergulhado naquela luz artificial pálida e o ar cheirava a álcool. No corredor, as vozes se diluíam em murmúrios sem sentido, fragmentos arrastados por passos que iam e vinham. Mas dentro da cabeça de Heitor, o ruído era outro: pensamentos tumultuados que se chocavam, construindo e derrubando hipóteses, seguindo várias linhas de raciocínio ao mesmo tempo.
Ricardo, sentado à sua frente, foi o primeiro a quebrar o silêncio. Vestia o semblante bem-humorado de sempre, mas estava ligeiramente desbotado, um tanto quanto sem graça dessa vez.
— Cara, já te falei pra não me encarar assim… — Levantou uma sobrancelha, de forma teatral. — Ou eu vou ser obrigado a te beijar.
Era a tentativa mais óbvia do mundo de aliviar a tensão sufocada no quarto. Não funcionou. Heitor permaneceu imóvel, os olhos azuis estreitos e frios, pareciam escanear cada centímetro da alma do outro em busca da variável que atrapalhava seus cálculos.
— Você conhece a Júlia? — perguntou enfim, apontando com o queixo para a cadeira vazia ao pé da cama.
Ricardo coçou a cabeça, desviando o olhar para o chão. A expressão se contraiu, desconforto e constrangimento se misturando em um sorriso amarelado.
— Conhecer é uma palavra forte… Nós nos encontramos uns dias antes de te mandarem pra cá.
Heitor estalou a língua. A provocação sutil que se desfez tão rápido quanto apareceu no rosto daquela mulher ainda o incomodava. Na hora tentou descartar, atribuir à exaustão, mas agora tinha certeza: suas intenções iam muito além de uma simples verificação de rotina. Aquilo foi um teste.
— E por que a corregedoria entraria em contato com você assim do nada?
— Disseram que tinham recebido uma denúncia e queriam investigar. — Deu de ombros. — A ladainha de sempre.
Heitor sentiu um arrepio fino percorrer a coluna, como se um dedo gelado deslizasse por cada vértebra.
— Que tipo de denúncia?
— Abuso de poder. Mas quase não tocamos nesse assunto.
Cordeiro cerrou os punhos sob o lençol. Aquilo fazia sentido de forma isolada, mas não se encaixava bem no mosaico de acontecimentos estranhos que estava construindo em sua mente. Moraes mantinha uma relação mútua com o prefeito da capital, Eduardo Santana, e enquanto a 13° continuasse desempenhando o seu papel, ele fecharia os olhos para qualquer excesso. O mesmo valia para o alto escalão da corregedoria.
Uma investigação dessas, logo agora, acabaria com os planos de Santana de se candidatar a governador e arrastaria algumas cabeças importantes para fora da liderança da capital.
“Será que foi a oposição? Mas como?”. Heitor se inclinou um pouco para aliviar a dor insistente nas costelas, mas tudo o que conseguiu foi piorar a situação. Seus olhos percorreram a mesa de cabeceira, onde os remédios continuavam intocados, mas evitaria tomá-los por enquanto.
— Eu disse pra você ficar deitado. — Ricardo levantou e o ajudou a encostar melhor no travesseiro.
— Tô bem. Continua. Se não foi sobre a denúncia, o que conversaram, então?
Cruz suspirou, balançando a cabeça.
— Ela queria saber sobre a 13ª, o delegado, você… Juro que não falei nada demais! — Levantou a mão esquerda e colocou a direita sobre o peito. — A conversa foi tão “light” que parecia entrevista de RH, não coisa da corregedoria.
Heitor observou o amigo por alguns segundos, mas não conseguiu se livrar da sensação de que havia mais coisas nesse “light” do que ele estava contando.
O acidente na mina, o intruso que invadiu o quarto na madrugada, o gravador adulterado e agora, a corregedoria. Talvez estivesse ficando paranoico, mas sua vida tinha virado de cabeça para baixo de repente e ao mesmo tempo que não fazia sentido, podia pensar em algumas dezenas de pessoas que se beneficiariam com essa situação.
— “Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato”, sabia? — Heitor estreitou os olhos, encarando o semblante culpado do outro. — Você é esperto demais para não ter desconfiado de nada. Por que não me contou isso antes?
Cruz sorriu sem jeito.
— Porque… sei lá… a Júlia parecia interessada em “algo a mais”. Achei que ela tinha desviado do assunto de propósito. O “investigador mais bonito da corporação”, lembra? A gente tava mais flertando do que qualquer outra coisa naquele dia.
Heitor apertou os olhos por um instante. Em condições normais, esse seria exatamente o tipo de comentário que esperaria ouvir de Ricardo. Já havia perdido as contas de quantas situações humilhantes foi obrigado a se submeter para livrar o pescoço do outro por conta de um rabo de saia. O problema é que aquele não era um dia normal e sentia que os próximos seriam ainda piores.
Ele respirou fundo, insistir nisso não levaria a lugar algum.
— E sobre o que eu te pedi antes?
Cruz reagiu imediatamente à mudança de tom. Endireitou a postura e apoiou os cotovelos nos joelhos, sustentando o queixo sobre o dorso das mãos, como quem procura a melhor forma de contar suas façanhas.
— Não tinha muita coisa digitalizada e os documentos do acervo estavam piores do que eu pensava. Uma desgraça só. Mas… Eu dei os meus pulos. Cara… você tá me devendo um engradado daqueles estupidamente gelados depois dessa.
— Até dois. — Heitor tentou um sorriso, que virou uma careta quando a dor apertou.
— Pode ser um, se você for beber comigo. — Ele piscou com aquele olhar atrevido que parecia sempre prestes a causar problemas.
— Vou pensar no seu caso. Só desembucha logo.
Ricardo se levantou, caminhando pelo quarto para organizar as ideias.
— Não sei de que buraco essa tal de Olívia saiu, mas com certeza ela é alguma coisa. — Aproveitou que estava em pé para se esticar.
— O que quer dizer?
— Lembra do boletim de ocorrência que eu tentei recuperar? Quando descobrimos o incêndio no hospital?
Heitor assentiu.
— Lembro, você disse que ia checar os registros no arquivo morto.
— Então, cobrei uns favores de um chegado no quartel da capital e consegui acessar o sistema dos bombeiros. Só que é aquilo, né? Documentos antes dos anos 2000… Tava tão cagado quanto o nosso, mas encontrei o número das pastas do caso.
Ricardo cruzou as pernas, escorado na parede antes de continuar.
— Tinha uns croquis e fotos da perícia junto do parecer técnico. Chegaram à conclusão de que o incêndio foi criminoso. Começou no quarto 333, na ala de traumas, e se espalhou depressa pela tubulação de ar.
— Deixa eu adivinhar… o paciente desse quarto foi dado como desaparecido?
— Bingo! Parece que o caso ganhou uma certa repercussão na época, mas ninguém foi indiciado — continuou. — Claro, o paciente do 333 foi considerado um dos suspeitos e alguns enfermeiros ajudaram em um retrato falado, mas não deu em nada.
— Você viu o arquivo?
— Ainda não, mas o inquérito foi arquivado na capital. Em microfilme! Dá para acreditar? — Ele revirou os olhos. — Coisa pré-histórica. Pelo menos tinha uma folha com as descrições do suspeito: mulher jovem, uns trinta anos, loira, olhos marcantes…
“Olívia…”. Heitor sentiu os pelos do braço se eriçarem.
— Enfim, tô esperando uma liberação pra ir lá dar uma olhada no material. Tiro umas fotos e te mando quando conseguir.
Heitor desviou o olhar para um canto vazio do quarto, mantendo o punho fechado contra o queixo. A ladra era um buraco negro no meio do caos. Tudo que tocava naquela mulher desaparecia, se distorcia ou voltava errado. Queria muito encontrá-la, mas tinha preocupações mais urgentes no momento.
— E sobre a outra coisa que te pedi? — suspirou cansado.
Ricardo penteou os cabelos, recuperando a compostura. Ele adorava observar aquela expressão distante que cobria o rosto do inspetor todas as vezes em que precisava organizar melhor os pensamentos.
— Antes… — Coçou a garganta, olhando para a porta, depois para a janela, como se conferisse que estavam mesmo sozinhos. — Antes de tudo, você sabe que eu sou muito bom no que faço, né?
Heitor arqueou uma sobrancelha, mas desistiu de se irritar e apenas concordou balançando a cabeça.
— Pois é! Eu sou muito bom e em todos esses anos, trabalhando nessa indústria vital, foi a primeira vez que alguém me fez perder o trace. — Deu de ombros, animado apesar de tudo. — Confesso que foi divertido. Tinha tempo que eu não jogava tão a sério.
— E dá para ir direto ao ponto? — Cordeiro cruzou os braços.
— À primeira vista, a ficha do Ferreira não tinha nada demais. Mas as datas dos arquivos estavam erradas. Em todos eles.
— Poderia ter sido um erro no sistema? Ou de quem subiu os documentos?
— Não é esse tipo de coisa. Alguém invadiu o sistema, burlando a segurança e a criptografia. Essa pessoa não apenas “alterou” as informações, ele reescreveu toda a história desse policial.
Heitor sentiu a mesma pontada na nuca que tinha sentido na madrugada, quando acordou preso no próprio corpo.
— O investigador Ferreira existe. Ramon Ferreira. Só que… — Ricardo abaixou ainda mais o tom. — Não poderia ter ido com você à mina. Ele tá afastado por medida disciplinar faz meses. Os arquivos da corregedoria, os despachos internos, os comunicados de afastamento… tá tudo lá.
— Afastado? — Cordeiro se endireitou na cama. — Então ele agiu por conta própria?
— Não exatamente. Encontrei ordens de serviço ativas para as mesmas datas em que ele deveria estar de molho.
— Como isso é possível? Alguém falsificou os dados?
— Normalmente, quando alguém altera um registro oficial, fica um rastro. Metadado, checksum errado, hash quebrado, inconsistência entre servidores espelho. — Balançou a cabeça. — Aqui, não. Os hashes batem. As assinaturas digitais também. Os backups antigos confirmam as versões diferentes, dependendo de onde você consulta.
— Dá para explicar isso de uma forma menos nerd?
Ricardo soltou um suspiro curto, antes de traduzir:
— Tá… vou simplificar. Imagina um relatório que foi copiado, autenticado e guardado em várias gavetas diferentes por décadas. Se alguém chegar agora e trocar uma das cópias por uma nova, as outras entregam à mentira, certo? Se você comparar a assinatura da impressão, a cor da caneta ou do papel, é fácil ver a diferença.
Ele ergueu a mão, desenhando o ar.
— Dessa vez, não. Em algumas gavetas, o relatório diz uma coisa. Em outras, diz outra. E o pior: todas parecem oficiais. Todas carimbadas, todas assinadas com a mesma caneta e com a mesma impressão. Não tem como apontar qual é a falsa.
— E ninguém percebeu essa bagunça?
Ricardo deu um sorriso sarcástico.
— Quem iria perceber? Cada setor confia no próprio espelho do sistema. Se o espelho diz que está tudo certo, ninguém questiona. Auditorias automáticas só comparam o que está visível pra elas.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, antes de continuar:
— Eu tentei seguir o rastro de quem reescreveu as informações. Mas não encontrei nenhum IP, nem logs externos. É como se o acesso tivesse sido feito… de dentro. Usando permissões que não existem mais oficialmente.
— Como assim, não existem?
— Credenciais mortas. — Ergueu o olhar. A expressão zombeteira tinha desaparecido. — Contas administrativas revogadas há anos, associadas a servidores que nem deveriam mais estar online. Mas, por alguns microssegundos, no meio do fluxo elas acordam, executam uma ação e desaparecem de novo.
Um arrepio percorreu a espinha de Heitor.
— Você não conseguiu reverter as mudanças?
— Tentei. — Cruz deu de ombros. — Se eu forçar uma correção, só crio outra versão conflitante. O sistema se autoajusta e engole a mudança. É como mexer num quadro que se repinta sozinho.
— Isso tudo pra limpar a barra de um policial?
— Seja quem for que fez isso, não estava apenas encobrindo o Ramon. Estava garantindo que ele pudesse operar à vista de alguns… e invisível para outros.
— Então, no dia da escolta… — Heitor sentiu o peso daquilo afundar no estômago.
— Oficialmente, Ramon não esteve na mina. Conversei com o delegado regional e ele jurou que ele mesmo iria te levar ao parque naquele dia, mas você nunca se apresentou na regional.
O quarto pareceu diminuir. As paredes chegaram mais perto e o ar ficou denso.
— Isso não faz sentido… Eu reportei minha chegada e localização à central. Eles me mandaram aguardar que um oficial local entraria em contato comigo e…
Foi quando os passos soaram no corredor. Primeiro lentos. Depois abruptamente interrompidos, como se alguém tivesse congelado ao perceber que os dois haviam notado sua presença. Ricardo levantou o rosto, atento, mas Heitor já estava olhando fixamente para lá. O coração acelerado em uma batida irregular que ele conhecia bem. Era o instinto anunciando coisas que escapavam ao racional.
Por uma fração de segundo, viu a sombra recuar. Uma curva de ombro, talvez. Ou algo que apenas tinha a forma aproximada de alguém.
— A Melissa… você falou com ela? — perguntou de repente, mudando de assunto.
Ricardo entrou no jogo.
— Quis ver como você tava antes. — Passou a mão pelo rosto. — Depois pedi pra minha irmã ligar pra ela. Melissa me retornou pouco depois. Tava preocupada, claro, mas ficou mais calma quando expliquei que você tava bem.
Heitor deixou escapar o ar preso nos pulmões. A imagem da noiva na porta de casa, segurando a mala feita, surgiu como um murro no queixo. Seria impossível esquecer aquele olhar de quem havia chegado ao seu limite.
Ele suspirou, apertando o osso do nariz. Tentava afastar o cansaço, a culpa, e a certeza crescente de que, quando tudo terminasse, talvez não houvesse mais ninguém esperando por ele além das próprias sombras.
— Ela disse que vai tentar pegar uma folga pra vir te ver — Cruz pareceu ler seus pensamentos. — Se não rolar, ela vem no fim de semana.
— Valeu. Tô te devendo mais uma.
Ricardo abriu um sorriso breve.
— Qual é? Uma mão lava a outra e as duas lavam a…
— Tem outra coisa que eu preciso te contar. — Heitor abriu a boca para falar do gravador, mas alguém bateu na porta antes que pudesse continuar.
— Com licença. — A enfermeira chefe apareceu, segurando uma prancheta. — Estou atrapalhando? Posso voltar mais tarde se preferirem.
Heitor a convidou, depois de olhar discretamente para o companheiro que assentiu, trocando o olhar interrogativo pela expressão sorridente habitual.
— Não, por favor, entre.
— Senhor Heitor, a plantonista me passou a sua solicitação e eu verifiquei os registros. A última ronda ontem foi às dez da noite. Foram administrados analgésico, anti-inflamatório e antibiótico já prescritos. Nada diferente.
— Entendi. E por volta das três da manhã?
Ela folheou as páginas.
— Não houve nenhuma entrada registrada nesse horário. — Mostrou a prancheta, como se isso explicasse tudo.
— Pode anotar o nome da última enfermeira que me atendeu? E todos os medicamentos administrados, por favor?
— Claro. Se me der licença. — Ela saiu imediatamente.
Quando a porta fechou, Ricardo olhou para Heitor com uma seriedade incomum.
— Tá na hora de você me contar o que tá acontecendo. Não acha?
As peças começaram a se encaixar, não como um desenho nítido, mas como um reflexo quebrado no espelho. Alguém havia decidido quais portas se abririam para ele e quais permaneceriam invisíveis. Para a central, ele existia. Já para o delegado, nunca tinha chegado a pisar na cidade. Assim como Ramon, que estava ativo no sistema, mas afastado no papel.
Isso não eram erros, nem coincidências, era um plano bem elaborado. Um jogo montado com versões suficientes da verdade para que cada parte acreditasse estar certa.
Heitor fechou os olhos por um instante, sentindo o peso da constatação. Não estava apenas sendo vigiado, alguém estava observando de fora, movendo as peças antes que ele tivesse tempo de reagir. Se quisesse sobreviver à próxima rodada, precisava parar de jogar às cegas.
— Estão armando pra mim.
— O quê? Do que você tá falando? — Ricardo inclinou a cabeça.
Cordeiro cruzou as mãos debaixo do queixo. Seus olhos varreram o quarto, traçando uma linha imaginária entre a porta do banheiro, a cadeira vazia e o corredor.
— Tem outra coisa além “dela” atrás de mim. Ainda não sei o porquê, mas você vai me ajudar a descobrir.