O Sétimo Espelho - Capítulo 17
Fratura silenciosa
— Em que merda você se meteu dessa vez, Heitor?
A estrada se estendia em curvas longas, recortando o verde escuro da encosta de um lado e o vazio do outro. Ricardo apertou o volante, os nós dos dedos brancos demais para alguém que deveria estar usando a máscara despreocupada de sempre.
— O que aconteceu naquele lugar, que não tá me contando?
Cruz respirou fundo, passando a mão sobre os cabelos desgrenhados pelo vento. Estava frio do lado de fora, e o ar que entrava pela janela queimava o rosto, mas nem isso afastava o incômodo sufocante que o seguia desde que se despediu do amigo no hospital.
Queria ter ficado mais um pouco. O plano era sair só depois de ter certeza que Heitor tinha se alimentado direito, tomado seus remédios e ido dormir. O ajudaria a tomar banho e escovar os dentes, se fosse preciso. Na verdade, passou boa parte da viagem imaginando que tipo de heresia o outro diria se ele sugerisse aquilo. A ideia o divertiu o bastante para fazê-lo esquecer o quanto odiava aquela estrada.
Agora, porém, voltava para a capital com o gosto amargo da conversa ainda preso à garganta.
Ricardo tinha se preparado para encontrar o amigo ferido, irritado talvez, mas lúcido, racional como sempre, mas aquela paranoia súbita o pegou desprevenido e por isso acabou indo longe demais.
Sentia-se culpado e ao mesmo tempo com raiva. Claro, sabia que o outro era reservado e que tinha certas “peculiaridades”, mas essas eram as características que o promoveram a inspetor chefe e que Cruz tanto admirava. Contudo, não esperava que, depois de todos esses anos, ele ainda precisasse esconder coisas importantes. Nem que houvesse aquele tipo de ressalva entre os dois.
— Você sempre me contou tudo… então por quê…
A lembrança do olhar decepcionado de Heitor o atingiu como um soco.
Ricardo pisou fundo no freio. Os pneus escorregaram sobre a areia fina e o carro derrapou por alguns metros antes de parar, envolto em uma nuvem de poeira.
— Você é um idiota. Um maldito idiota — resmungou, esfregando a testa marcada por uma cópia avermelhada da textura do volante.
Tinha sido descuidado e mostrado seu lado mesquinho e egoísta para aquele de quem mais tentou esconder essa face.
— O que eu faço agora? — perguntou para o próprio reflexo no retrovisor antes de encostar a cabeça no banco.
A estrada deserta e silenciosa evocava a mesma sensação de desconforto que pairava sobre o hospital e a imagem de Heitor surgiu de novo, com a nitidez incômoda de um sonho recente.
O quarto estava mergulhado numa luz fria e pouco acolhedora. O sol da manhã atravessava a janela sem pedir permissão, desenhando linhas duras no piso encerado, subindo pelas paredes até se perderem no teto. Heitor estava recostado na cama, o tronco inclinado de leve por causa das costelas.
Ricardo pensou que aquela expressão perdida, imersa em pensamentos, caia bem ao rosto bonito do inspetor.
— Estão armando pra mim. — O timbre grave o despertou dos devaneios.
— O quê? Do que você tá falando? — Cruz inclinou a cabeça.
— Tem outra coisa além “dela” atrás de mim. Ainda não sei o porquê, mas você vai me ajudar a descobrir.
Ricardo puxou a cadeira e sentou-se mais perto da cama, mantendo o tom casual:
— Você vai precisar ser mais específico, meu chapa.
Heitor respirou fundo antes de responder, como se organizasse mentalmente uma sequência que já tinha percorrido inúmeras vezes.
— As pistas do homicídio. O modo como a polícia local conduziu a cena. Algumas evidências simplesmente… desapareceram. Outras surgiram limpas demais. — Ele fez um gesto vago com a mão. — E tem o prefeito. Gente grande interessada em encerrar o caso.
— Você tá sugerindo…? — perguntou, já sabendo a resposta.
— Que aquela mulher não foi a única. Aquilo não foi um crime isolado.
Um silêncio pesado se instalou entre os dois.
— Um serial killer? — disse por fim, em tom cético. — Nesse fim de mundo?
— Ou alguém que quer que pareça um.
— Você tem provas disso?
Heitor demorou a responder.
— Tinha.
Ricardo franziu o cenho.
— “Tinha”?
— Com o desabamento da mina… — Heitor engoliu em seco. — Provavelmente tudo se perdeu.
Cruz o encarou em silêncio. Conhecia o homem bem demais para aceitar sem questionar. O inspetor jamais entraria numa situação daquelas sem redundâncias, sem planos de contingência.
— Você não sairia de um lugar assim sem ter algo guardado.
Heitor desviou o olhar. Depois, sem dizer nada, enfiou a mão debaixo do travesseiro. Primeiro o celular, a tela rachada e a carcaça empenada. Depois, o gravador. Ambos pousaram sobre o lençol como provas de um crime mal explicado.
— Se tiver qualquer fragmento de dado aí dentro consigo recuperar — Ricardo disse, num tom quase monótono enquanto examinava os objetos. — Já vi coisa pior. Tá me subestimando?
Heitor balançou a cabeça.
— Não é esse o problema. — A voz denunciou a seriedade. — Eles foram adulterados. O celular… não tenho como provar. Mas o gravador, tenho certeza.
O outro ergueu o olhar, surpreso.
— Como assim, certeza? — A pergunta seguinte veio quase automática. — Era disso que você estava falando com a enfermeira-chefe?
Heitor suspirou.
— Alguém entrou aqui de madrugada, colocou alguma coisa estranha no meu soro e eu não sei se foi embora.
Ricardo levantou da cadeira em um pulo, mas Heitor o tranquilizou com um sorriso desbotado.
— Você relatou isso?
— Não.
— Por quê?
— Porque aconteceu durante uma paralisia do sono.
A estática fria preencheu o leito do hospital.
— Heitor… — Ricardo começou, com cuidado. — Você tem certeza de que alguém entrou aqui? Ou pode ter sido…
— Sério que tá me perguntando isso?
Cruz percebeu tarde demais que tinha cruzado a linha e tentou contornar:
— Ei, calma. Eu acredito em você. Sempre vou acreditar. — Forçou uma risada curta. — Vou dar um jeito nesses aparelhos, tá bom? E puxar as imagens das câmeras. Só por desencargo de consciência.
Heitor não pareceu aliviado.
— Toma cuidado. Se isso for o que estou pensando, a oposição pode estar armando pra Treze.
— Não acha que tá exagerando? A corregedoria vive dando essas batidas na homicídios.
— Tô te falando, dessa vez é diferente.
— E como você sabe?
— Eu só… sei.
Ricardo o observou por alguns segundos.
— Foi ela que te deixou assim?
O rosto de Heitor se fechou.
— Eu não enlouqueci, se é isso que tá tentando dizer.
— Foi brincadeira — Levantou as mãos, em rendição. — Desculpa. Eu vou ficar mais atento. Seus pressentimentos costumam ser certeiros.
A conversa morreu ali.
O sol já estava mais alto quando as cortinas se moveram com uma brisa leve. As sombras se estenderam até a porta do banheiro e Heitor sentiu o arrepio antes mesmo de olhar. Estava sendo observado de novo.
— Tem alguém ali — murmurou.
Ricardo correu até o outro lado da cama.
— Heitor, você devia ficar deitado.
Mas ele já estava de pé. Cambaleante, com a mão cravada nas costelas, avançou com dificuldade até o banheiro. Ainda que a dor o matasse, arrombaria a porta se fosse necessário. Precisava descobrir se havia alguém ali dentro desta vez. Contudo, ao girar a maçaneta, um estalo seco, seguido de um rangido baixo, revelou o interior vazio.
Cruz não disse nada enquanto Heitor permaneceu parado na frente do cômodo de azulejos brancos por tempo demais. O olhar fixo em algo que só ele parecia perceber.
— Não dá para ignorar um chamado da natureza — Ricardo disse por fim, quebrando o clima com uma piada grosseira. — Não precisa ter vergonha, somos amigos, não somos? Ah… você vai precisar de ajuda? Eu não me importo, mesmo se for o dois! Sou totalmente profissional.
Cordeiro suspirou, esfregando o rosto. Pensou em dar alguma explicação para o rompante, mas mudou de ideia.
— Não é nada disso. — Empurrou o homem para fora do banheiro, tocando na maçaneta pelo lado de dentro antes de sair.
Naquele segundo o mundo pareceu girar. Ele empalideceu, levou a mão à cabeça e quase caiu. Ricardo o segurou a tempo, apoiando seu peso.
— Você tá bem? O que aconteceu? Vou chamar a enfermeira, aguenta aí!
— Não — Heitor agarrou o pulso do amigo. — Volta pra capital agora e descobre o que foi adulterado naquele gravador.
— Calma aí! Eu não posso simplesmente sair e te deixar aqui assim…
— Isso não é um pedido, inspetor Cruz, é uma ordem. Volta pra capital e faz o que mandei.
O tom seco não deixava espaço para questionamentos. Ricardo conhecia muito bem esse lado intransigente de Heitor e argumentar seria apenas um desperdício de tempo.
— Tá bom, tá bom, mas me promete que vai ligar se tiver algum problema? Qualquer coisa. Até uma dor de barriga estranha no meio da noite, você vai me ligar.
Cordeiro suspirou, esfregando as têmporas com a mão livre, enquanto se apoiava no ombro do amigo com a outra. Ricardo tinha praticamente o carregado de volta para a cama e quando deu por si, já estava preso debaixo de duas camadas de lençóis.
— Tá, mas vou precisar de um celular nov…
— Aqui! Eu acabei esquecendo de te entregar antes. — Cruz colocou um embrulho sobre a mesa de cabeceira. — O seu perdeu sinal no dia da mina. Achei que tivesse ido pro saco. Esse aqui já tá configurado.
— De onde você tirou essa sacola…? Deixa pra lá. Ainda tem aquele aplicativo?
Ricardo hesitou um instante antes de responder:
— Tem. Por segurança.
— Entendi. — O inspetor olhou para a caixa, depois encarou o outro com uma expressão fria. — Obrigado.
***
— Merda! Eu devia ter ficado lá! — Ricardo bateu no volante.
Uma curva fechada surgiu de repente. Arbustos de um lado, o precipício do outro. O mesmo trecho onde Heitor quase colidiu com o caminhão, ou pelo menos, era onde foi relatado um engavetamento envolvendo um caminhão tanque e alguns carros de passeio.
Ricardo tinha puxado todas as ocorrências registradas na serra, depois de saber do acidente do amigo. Como ele tinha acesso ao GPS do celular, não foi difícil triangular e descobrir qual era o boletim correto. O problema veio depois de ler os relatos dos envolvidos no acidente.
De acordo com o motorista do tanque, a ocorrência quase se tornou uma tragédia quando um carro em alta velocidade desviou no último segundo de sua traseira. O veículo surgiu do nada em uma reta e depois voou por cima do acostamento. Pelo testemunho, estava chovendo, mas seria impossível alguém não ter visto um caminhão daquele tamanho parado, com o pisca alerta aceso. Além disso, o motorista do sedã recusou atendimento médico, mesmo depois de ter ficado mais de meia hora desacordado.
Isso era estranho. Heitor não gostava de hospitais, mas não era grosseiro o suficiente para negligenciar a saúde. Alguma coisa nessa história estava mal contada e ele precisava descobrir o quê.
Cruz sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Será que ele estava…? Não. — Balançou a cabeça excessivamente. — Foi só um acidente.
***
Depois que Ricardo saiu, o quarto ficou silencioso demais.
Não um silêncio confortável, mas aquele que parecia se expandir, ocupando espaço, pressionando os ouvidos. Heitor permaneceu alguns segundos encarando a porta do banheiro, como se esperasse que ela se abrisse de repente ou que algo do outro lado decidisse atravessá-la sem pedir permissão.
— Mantenha a calma, você ainda é um policial, lembra? — Advertiu a si mesmo, puxando o embrulho de cima da mesa de cabeceira. — Aquele filho da puta…
Separou o celular, o carregador e o fone de ouvido de um lado e a nota constrangedora colada à capinha com desenhos de ovelhinhas do outro.
Ricardo tinha entregue o aparelho carregado e isso pouparia tempo. “Que atencioso”, Cordeiro desdenhou. Na agenda, dois contatos salvos que seriam renomeados mais tarde. Ele tinha certeza que o aplicativo espião estava instalado no modo oculto e por isso não se preocupou em procurá-lo na grade de apps. Tentaria descobrir a senha que o revelaria mais tarde também.
Agora, começaria pelo óbvio. Abriu o Google e digitou o nome do prefeito. Resultados previsíveis: discursos, inaugurações, fotos sorridentes ao lado de obras públicas. Nada fora do lugar. Sobre o delegado, nada além de algumas falas problemáticas e posicionamentos questionáveis. “Mais do mesmo”, pensou.
Depois foi a vez de Ramon Ferreira. Trajetórias consistentes, arquivos sem manchas, elogios institucionais. Nenhuma fissura aparente. Tudo correto. Tudo vazio.
Mudou de assunto.
Pesquisou sobre o incêndio no outro hospital. Matérias antigas, textos apressados, versões contraditórias. Algumas diziam que ninguém havia morrido diretamente no incêndio; outras mencionavam complicações posteriores, infecções, falhas respiratórias, óbitos tardios que pareciam não merecer a mesma atenção.
Passou por fotos de baixa qualidade, imagens granuladas demais para revelar algo além de sombras e vultos. Até que uma delas o fez parar.
— Eu já vi essa mulher antes. Onde foi?
Listada entre os óbitos posteriores, uma mulher sem nome vestindo um casaco azul chamou sua atenção.
Ele tentou puxar a memória. Forçou conexões, buscou rostos semelhantes, cenas possíveis, mas não encontrou nada. Apenas a sensação persistente de já tê-la visto antes. Em outro contexto. Em outro lugar. Isso o estava enlouquecendo quando o celular vibrou em sua mão.
“Noiva número 2”.
— Aquele desgraçado… — O coração acelerou e um gosto azedo subiu pela garganta enquanto pesava as possibilidades. — Mel, é você?
— Heitor! Graças a Deus! Você está bem? Eu fiquei tão preocupada.
Sua voz pareceu aliviada e um sentimento quente forçou a bile de volta ao lugar.
— Desculpa não ter ligado antes. Eu não queria ter te deixado ansiosa.
— Eu sei, eu sei. Ricardo me disse que talvez você estivesse sem celular e que ia te levar um outro. Ele também me passou o número novo.
“Acho que vou renomear só para Ricardo mesmo”, Cordeiro sorriu.
— O que está acontecendo, Heitor?
— Do que tá falando, Mel? Eu sofri um acidente enquanto investiga…
— Não. Não tô falando disso. — A voz saiu meio tremida. — A corregedoria esteve aqui ontem.
O estômago de Heitor se contraiu mais uma vez.
— É procedimento padrão em caso de acidente de trabalho — respondeu rápido demais. — Você sabe disso.
— Tem certeza? — Ela abaixou o tom. — Eles fizeram perguntas estranhas.
— Melissa…
— Tá acontecendo alguma coisa, não tá, Heitor? Por favor, não mente pra mim.
Ele fechou os olhos por um instante, apoiando a cabeça no travesseiro. Sentiu as costelas reclamarem com o movimento.
— Confia em mim — disse, no tom mais amável que pôde. — Tá tudo sob controle.
— Ainda não consegui uma folga… — Ela fungou. — Mas assim que der, vou correndo praí.
— Não precisa se preocupar, tô bem de verdade e devo receber alta amanhã mesmo. Prefiro que você não venha. A estranha é bem perigosa e eu sei que ainda não está muito confortável em pegar o volante.
— Mas, Heitor, eu quero muito te ver.
— Eu sei, meu amor. Espera mais um pouquinho que logo volto pra casa, tá bom?
Uma voz masculina chamou do outro lado e Melissa respondeu apressada:
— Tudo bem, vou ficar te esperando. Preciso desligar agora, ainda estou de plantão. Te amo.
— Também te amo.
Quando Heitor desligou, soube que não tinha mais volta. Uma coisa era terem o colocado no jogo sem consulta, mas não permitiria que envolvessem Melissa também. Para isso, precisava de um plano e Ricardo era a peça chave. Apesar do encontro com Júlia, acreditava que o amigo não seria facilmente enganado agora que sabia o que estava acontecendo. O único problema era se ele estava mesmo disposto a ajudar.
“Foi ela que te deixou assim?”, a frase ecoou atrás dos olhos.
— Maldito filho da puta…
Heitor renomeou os contatos na agenda, depois juntou os outros itens no embrulho e o enfiou embaixo do colchão quando alguém bateu na porta.
— Está na hora dos remédios da tarde, Senhor Heitor. Posso entrar?
— Claro.
A enfermeira se aproximou com um copo d’água e outro com vários comprimidos dentro. Heitor os pegou, virando na boca primeiro o copo com as drogas e depois o com água. A mulher o observou com atenção sem se mover e ele abriu a boca como prova de que havia mesmo engolido tudo.
— Muito bem. Tenho certeza que hoje o senhor terá uma ótima noite de sono. — Sorriu e se retirou do quarto.
Heitor esperou os passos se afastarem pelo corredor antes de cuspir os comprimidos escondidos debaixo da língua e enfiá-los cuidadosamente dentro da fronha do travesseiro. Por segurança, acabou tendo que se livrar dos outros, mas guardaria esses.
Seu olhar foi, quase por reflexo, até a porta do banheiro. Agora tinha certeza, alguém ficou todos esses dias o observando. Foi difícil conter o impulso de voltar lá, mas sabia que estava perto da ronda da tarde, então segurou a ansiedade da melhor forma que pôde. Não deveria cometer mais nenhum erro.
Seja lá quem for, essa pessoa era talentosa. Havia se infiltrado no hospital e aproveitando os momentos em que as portas se abriam para checagens rápidas, se misturando ao fluxo de enfermeiros, médicos, técnicos sem chamar atenção. Apenas aguardando o momento certo para atacar.
Heitor se levantou com cuidado, cada movimento acompanhado por uma fisgada nas costelas. Entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si, tocando apenas na madeira. Ficou alguns segundos encarando a maçaneta, como se esperasse algum tipo de resposta, mesmo sabendo que não era assim que funcionava.
Tocou nela, por fim.
O ar ficou pesado. Impregnado de algo lascivo, nojento, que se insinuava pelo buraco da fechadura e pelas frestas da porta. A náusea veio forte e repentina. Cordeiro ajoelhou-se diante do vaso e vomitou, o gosto ácido queimando a garganta.
— Desgraçado… — sussurrou, limpando os lábios. Queria se livrar o mais rápido possível daquela sensação viscosa.
Com um pouco de dificuldade, apoiou-se no lavatório, abriu a torneira, enxaguando a boca e o rosto. Quando levantou a cabeça, viu seu reflexo sorrindo no espelho, coberto por uma mistura de lágrimas e sangue.
Heitor recuou num salto, as costas batendo contra a parede fria. A dor explodiu pelo tórax, roubando-lhe o ar. As pernas cederam e ele escorregou até o chão.
A porta do quarto se abriu, sem um pedido de licença desta vez. Ele se encolheu ao ouvir os passos irregulares vindo até o banheiro. Queria se levantar, trancar a porta, mas a cabeça girava com o arrepio quente e repulsivo que dominava o corpo.
— Merda… agora não…
Tentou mais uma vez, mas estava difícil respirar e o teto escureceu acima dele. Ouviu um barulho, a maçaneta girou e a porta do banheiro se abriu.
— Pobrezinho…
Heitor estremeceu.
— Q-quem…? Quem é você? — Ele piscou, mas não conseguiu identificar nada além de uma silhueta embasada pela luz.
— São lindos, lindos… Vou cuidar muito bem deles. — Apesar da calma, a voz carregava algo malicioso. — Agora não se mexa, ou vai doer, tá bom?
O inspetor apoiou a mão na parede, mas escorregou de novo. Ouviu o barulho de algo metálico sobre a pia e depois sentiu uma picada no braço. O ardor conhecido subiu pela veia enquanto o homem cantarolava alguma canção infantil.
— Seja um bom menino e vai acabar rapidinho.
— Seu maldi… to.. vou te… matar…
Uma risada arrastada e um cheiro forte de álcool terminaram de afundar o inspetor na escuridão.
— Estou contanto com isso, Bachir.