Os Contos de Anima - Volume 1 - Capítulo 29
Um mês depois que Lucet passou pelo exame de admissão do Ninho e realizou sua avaliação de rankeamento, Kaella o chamou para uma conversa em sua casa após uma manhã de treino.
O garoto já havia visitado a casa algumas vezes e inclusive sabia que poderia chegar até lá com o passo do corvo, pois tinha marcado alguns lugares perpetuamente assombrados dentro da estrutura que poderia utilizar para o transporte.
Porém, ele se abstinha de se transportar diretamente para a casa de sua mestra, pois achava que era um tanto invasivo fazer isso a não ser que fosse absolutamente necessário.
Por esse ponto, ele decidiu chegar até lá usando um ponto próximo da casa para depois caminhar para o local. Neste dia a Alfae não tinha aulas para lecionar, portanto era um dia livre para descanso. O treino que ela passou para o garoto foi apenas uma revisão de suas habilidades e algumas notas sobre o seu desempenho no exame.
Ela solicitou ao Ninho que lhe passasse uma cópia da gravação da avaliação para ela poder estudar e basear seus futuros treinamentos à luz das fraquezas e insuficiências demonstradas pelo garoto durante o combate.
Gastando todo um mês para revisar estes pontos, apenas neste dia ela finalmente estava um tanto satisfeita com o esforço que Lucet estava demonstrando para melhorar. Ela testou seu julgamento estratégico e de combate durante essa última semana e, após esse tempo de correções, ela o deu o resto do dia para descansar após o treino matinal.
Lucet emergiu das sombras num canto de uma casa próxima ao casarão de Kaella e andou até o lugar. Ao chegar se deparou com a vista familiar da moradia de sua mestra que era um estranho, porém agradável, aglomerado de árvores que pareciam crescer única e exclusivamente para formar aquele lugar. Nem um corte ou deformação, nada de construções complexas ou estruturas.
A casa de sua mestra era totalmente formada pelos troncos e galhos das árvores, e mesmo assim, era muito mais bela e tranquila aos olhos do que muitas outras moradias igualmente impressionantes da vila que foram feitas por artesãos, engenheiros e mestres Gnoma. O garoto se aproximou e quando chegou à porta ele parou por um instante para admirar a estrutura. Toda vez que chegava perto do local, se lembrava da explicação da Alfae sobre a existência de sua moradia.
Ela explicou que esta casa foi construída da maneira mais natural possível com a ajuda de uma mestra Faeram que utilizou suas habilidades e maestria das artes druidas para acelerar e “guiar” as árvores a existirem daquela maneira.
Ele não tinha um conhecimento tão profundo sobre o druidismo dos Faeram mas sabia apreciar seu valor e seu poder, especialmente ao considerar que, quando no terreno certo, suas habilidades tinham um potencial devastador.
Algumas vezes Lucet até chegou a considerar um estudo mais aprofundado do assunto, mas, depois de começar a integrar a arte da forja dos Gnoma com sua própria arte arcana, ele acabou desistindo da ideia.
Certamente seria interessante aprender muito, mas se tentasse de tudo sem adquirir maestria em nada, seria apenas um usuário medíocre de várias artes, porém, mestre de nenhuma. Além disso, estudar a manipulação da terra, o estilo dos corvos e a arte da forja já eram bem mais do que alguém de sua idade usualmente estudaria, portanto, Kaella o aconselhou a focar apenas nestas três disciplinas.
Ele prosseguiu a dar alguns golpes leves com os dedos na madeira. Alguns instantes depois ele ouviu passos e em momentos a porta se abriu dando a figura de Kaella que, neste dia de descanso, estava vestida mais casualmente.
Seu cabelo avermelhado feito rubi estava solto com algumas mechas à frente tocando suas clavículas que logo anunciavam a existência de um simples e leve vestido branco que chegava até seus joelhos.
Um cinto feito de couro trançado que segurava sua bolsa dimensional em sua cintura e uma sandália gladiadora de fios dourados que ia da parte de baixo de seus joelhos até seus pés, sua pele branca e levemente reluzente brilhando em contraste ao calçado metálico. O vestido possuía finas alças nos ombros e deixava os braços bem livres e expostos à luz.
Normalmente a Alfae vestia roupas de combate ou para estudos e viagens como túnicas, capas, sobretudos, botas, luvas e outros, fazendo com que o garoto, por muitas vezes, conseguisse ver apenas o rosto da elfa, por isso, ele sempre achou que a pele dela fosse clara e talvez até mesmo pálida. Mas, agora que pôde observar com mais detalhe ele reparou que a pele não era clara, mas sim, reluzente devido à afinidade natural que a elfa possuía com a mana.
Sendo capaz de conter e manipular muito mais mana que a média, seu corpo possuía sempre uma aparência pura e luminosa, eternamente energizada. Às vezes, Lucet tinha a impressão de que a elfa não pertencia a este mundo já que sua aura, apesar de extremamente poderosa, era misteriosa e parecia conter diversos segredos dos Alfae e até mesmo de toda Anima dentro dela.
Não sabia se isso tinha a ver com Lybra ou algo similar, mas apesar de extremamente curioso, seus instintos lhe diziam que não era uma boa ideia questionar a mulher sobre este assunto, portanto, ele nunca comentou sobre isso.
A roupa casual era, apesar de esteticamente simples, muito bonita. Com sua experiência como aprendiz de mago e aprendiz de ferreiro ele era capaz de notar que o tecido não era nada comum. Ele continha diversos encantamentos e o próprio tecido era quase que imperceptivelmente reforçado com metais raros e furtivos, dando uma proteção efetiva e bela para sua mestra. “Sempre preparada para tudo, até no descanso” pensou Lucet admirado ao soltar um leve risinho.
Kaella observou o garoto por um momento e acabou sorrindo também. Ela, mesmo sem observar diretamente os pensamentos do garoto, após tantos anos de convivência, já entendia um bocado da mente de seu aluno e era capaz de prever esse tipo de reação.
A capacidade de análise do garoto sempre foi extraordinária para sua idade e ver que ele estava se desenvolvendo de uma maneira sólida lhe dava uma medida de orgulho.
— Lucet — disse ela ao abrir caminho para o garoto — Entre, temos muito a discutir sobre os próximos passos do seu aprendizado.
Ele demorou um tanto a reagir, pois ainda estava fascinado pela qualidade das roupas de sua mestra, porém, ele logo despertou e respondeu.
— Com sua licença, mestra — disse ele educadamente ao adentrar.
As escadas a sua frente eram escuras e, após a porta ser selada com um ruído quase inaudível, logo se viu num breu total. Com um simples gesto da Alfae flores surgiram nos dois lados das escadas e desabrocharam, revelando seus núcleos luminosos que logo alumiaram a escadaria com um brilho dourado-esverdeado. As escadas eram, apesar de firmes e retas, um tanto estranhas para ele devido a serem feitas de raízes.
Conhecendo a origem delas, ele ficava ainda mais intrigado de que espécie de poder e controle preciso eram necessários para fazer algo tão simples e tão impressionante. Momentos depois o par adentrou por uma porta no final das escadas, chegando na sala de estar.
Tal como as escadas e o resto da estrutura da moradia os assentos, mesas, estantes e armários eram feitos de madeira manipulada e faziam parte do único organismo que era aquele espaço. As únicas coisas não feitas de madeira eram talheres, pratos, copos e livros, os três primeiros feitos de metal e os últimos de diversos materiais.
Ela o indicou um assento que continha uma mesa de centro a frente com uma xícara de chá em cima de um pires. Lucet se sentou e imediatamente o cheiro forte e refrescante de hortaliças selvagens lhe atacou os sentidos.
Ele conseguiu identificar alguns dos ingredientes da bebida fumegante e após realizar uma checagem de costume para encontrar possíveis elementos danosos, o garoto pegou a xícara por sua alça e elevou até os lábios para tomar um gole do líquido quente que quando desceu por sua garganta revelou um maravilhoso gosto de não apenas hortaliças mas também algumas frutas.
Para ensiná-lo na prática a importância de ter cuidado com alimentos, Kaella em alguns momentos tomou a liberdade de não apenas ensiná-lo maneiras rápidas de identificar venenos e drogas, antídotos práticos e efetivos para a maioria destes elementos, como também envenenou e drogou Lucet algumas vezes para fazê-lo ter o costume de nunca se descuidar.
Uns chamariam seus métodos de barbáricos, mas ela tinha orgulho de chamá-los de efetivos. “Apenas com a experiência real e a dor é que se aprende de verdade” ela dizia quando ensinava algum assunto particularmente doloroso para o garoto.
Ela então tirou de sua bolsa dimensional uma cadeira de madeira que mais parecia um trono de tão decorada e detalhada que era. Ela tinha linhas que simulavam runas, outras que se tornavam em desenhos e símbolos.
O objeto era, tal como a dona, grande e imponente, porém, igualmente agradável aos olhos e, como Lucet bem notou quando a cadeira foi colocada perto da mesa onde ele de tempos em tempos bebericava seu chá, exalava uma fragrância muito próxima a daquela da floresta onde ele morava e isso o fez imediatamente relaxar bastante, ficando consideravelmente mais à vontade do que antes.
— Mestra, porque me chamou aqui? — ele questionou, um leve sorriso tranquilo em seu rosto.
— Depois de seu treinamento corretivo, e tendo em vista os resultados que você teve ao enfrentar os desafios do Ninho — ela disse — eu decidi que seria uma boa ideia sairmos de Elysium e irmos para o continente de Lumina para que você possa frequentar o centro de toda pesquisa e desenvolvimento mágico da Lybra e aprender com os melhores da área, os Alfae.
— Mas mestra — ele disse dando uma leve sacudida com a cabeça — Você é uma Alfae e ainda por cima é a líder da Lybra, que é uma das organizações mais poderosas e que contém uma das maiores redes de informação de todo mundo e que, além disso, foi criada pela sua raça. Não acho que eu precise ir até Lumina para conhecer outros Alfae, você já pode me ensinar tudo que eu preciso.
Kaella sentiu um leve calor subir em seu rosto ao passo de que uma leve coloração rosada lhe coloriu as pontas das orelhas.
— Ora seu! — ela disse rindo — e você acha por um acaso que eu sou invencível, é?
— Bem… — ele riu — até agora não vi ninguém que você tivesse medo de enfrentar ou que você capaz de te vencer.
Kaella pensou em vários argumentos para ensinar o garoto sobre poderes que superam os dela, mas ele não lhe deu a chance de falar quando disse algo que a fez inevitavelmente sorrir.
— Geralmente você assusta tanto os outros com seu poder que eles nem tem a chance de tentar lutar contra você — ele sorriu, orgulhoso — Se isso não te dá uma aura de invencível, eu não sei o que daria.
— Só porque eu pareço invencível, criança — ela disse sorrindo largamente — Não significa que eu sou. Existem alguns indivíduos que certamente podem me derrotar.
“Mas eu certamente fico muito feliz que pense assim de mim” ela pensou enquanto começou a detalhar.
— Por exemplo — ela falou — O monarca líder dos Alfae, ele certamente é mais poderoso do que eu, afinal de contas eu sou uma subordinada direta dele. A rainha dos Faeram também é uma oponente que não sou capaz de vencer, especialmente se eu tiver de lutar contra ela dentro do território da sua raça.
— O rei dos Gnoma, apesar de não ter um poder superior ao meu, pode me vencer em combate graças aos seus incomparáveis equipamentos encantados. Maximilian, o líder de Elysium, também é alguém que não posso competir, especialmente se ele conseguir me arrastar para dentro do seu espaço independente.
Sendo honesta perante o poder das figuras, foi erguendo os dedos conforme citava, os olhos reluzindo com algo similar a respeito. A voz, contudo, se tornou fria quando continuou:
— Também tem a líder da congregação de Puritas, a Pontifícia, ela é outra pessoa que certamente não sou capaz de derrotar, aliás, no caso dela, como o poder dela é diretamente oposto ao meu, acho bem difícil eu sair com vida de um combate contra ela considerando a quantidade massiva de poder que aquela mulher carrega.
— Mas então são poucas as pessoas que podem te vencer — ele retrucou — não tenho que me preocupar com meu ensino se você cuidar de mim, mestra. Você é a melhor para mim.
— Não, garoto — ela respondeu sorrindo, chacoalhando a cabeça — Esses são só os exemplos extremos. Existem vários outros que podem me vencer, mesmo que não em combate.
— Existem diversos mestres de todas as raças que são formidavelmente superiores a mim em alguns aspectos específicos, e se considerar a existência dos Durza nesta equação, o número de oponentes que não sou capaz de derrotar só aumenta.
— Mas os Durza são quase imortais e eles só vivem no cinturão das ilhas perto de Inanis, não vale — ele debochou.
— Não significa que nunca irá encontrá-los — ela retrucou séria — O futuro é incerto e sua identidade por si só já é um risco. Nunca faz mal conhecer mais e ser capaz de se preparar para eventualidades com mais eficácia.
Para isso, o garoto não tinha resposta alguma e escolheu ficar em silêncio.
— E tem mais — ela continuou — Eu examinei seu sangue na avaliação de admissão do Ninho com uma presa de Xuanwu que me permitiu dividir seu sangue em dois e verificar a sua linhagem. Como imaginávamos, você é um meio-sangue filho de um Alfae e um humano.
— Se formos até Lumina, é possível fazermos pesquisas ainda mais avançadas no banco de dados no quartel-general da Lybra que nos permitirão, pelo menos, identificar quem exatamente é a sua mãe.
— Espera um pouco… — Lucet disse surpreso — Minha mãe é uma Alfae? Não é meu pai que é um da sua raça? Como sabe disso?
Kaella deu um suspiro pesado.
— Na noite em que decidi tomá-lo como discípulo e adotá-lo, Albus me contou sobre como você foi parar no orfanato — ela explicou.
Ela então narrou para o garoto o que o homem a havia explicado. Desde a parte da chegada súbita de seus pais feridos, os detalhes sobre eles que Albus conseguira memorizar e a rápida escapada que fizeram como se estivessem sendo perseguidos.
Ela, porém, omitiu a existência e identidade do amuleto que o garoto carregava, pois, quando pensou nisso, mais uma vez sentiu uma pressão aterrorizadora vinda do objeto, a mesma que há anos atrás a impediu de revelar qualquer informação sobre o assunto.
— Meu pai era um paladino… que perdeu sua aura da fé… e minha mãe era uma Alfae que foi poderosa o bastante para invadir Elysium mesmo com todas as suas defesas… — ele murmurou atônito.
— E não só isso — a Alfae continuou — Mas, além da proeza mágica da sua linhagem por parte de mãe, seu pai também lhe deixou um formidável presente em suas veias.
— Ahn? — ele questionou confuso — Ele também me deixou algo? O que?
— Ele lhe deixou a possibilidade de praticar as artes sagradas — ela respondeu — A capacidade de usar o mesmo poder dos paladinos, os “milagres”.
— Artes sagradas? Está falando das artes arcanas dos serafins? — ele perguntou, ainda sem entender o que sua mestra estava lhe dizendo.
— Não — ela disse chacoalhando a cabeça — O que seu pai, que certamente era um paladino poderosíssimo para realizar este feito, lhe deixou foi a aura da fé condensada em seu sangue.
— Aura da fé condensada? E pra que serve isso? — ele questionou.
— A aura da fé é o que permite que qualquer ser utilize as artes sagradas — Kaella explicou — Ou se preferir, as artes de combate divinas. Elas são, de certa forma, relacionadas à aqueles poderes absolutos que lhe mencionei que são capazes de superar o poder de um espaço independente de um invocador.
— Apesar de parecida com a mana da luz, a aura da fé é algo que pode ser praticado por qualquer um, mas diferente da mana da luz, a aura da fé tem exigências muito maiores para ser aprendida e fortificada e também, com exceção de algumas artes específicas de alto nível, serve apenas para fortificar o corpo e desferir ataques devastadores com seus armamentos sagrados.
— Parece poderoso — Lucet disse pensativo — E daí? Porque é um presente eu ter isso condensado no meu sangue?
— Você tendo aura da fé condensada em seu sangue logo de nascença significa que você terá uma facilidade muito maior em aprender e praticar a aura da fé, e consequentemente, as artes sagradas.
Apesar de já ter recebido algumas informações sobre suas origens quando Maximilian usou sua identidade para expulsar os mestres traidores, depois daquele torneio, Lucet e Kaella nunca mais tocaram no assunto.
Tendo em vista que não demoraram muito para ir ao Ninho após o torneio e que logo depois de voltar passaram um mês treinando arduamente para corrigir as falhas que ele demonstrou durante o exame era fácil entender o porquê de não terem tocado no assunto, afinal, mal tiveram tempo para verdadeiramente conversar.
Porém, com toda essa revelação quanto a suas origens, e especialmente o que cada um dos seus pais lhe deixou como herança sanguínea, ele se sentiu quente por dentro. Mesmo que não pudessem estar por perto, de uma certa maneira seus pais ainda cuidavam de si ao lhe dar um potencial tão grande. Lucet queria saber mais sobre quem verdadeiramente era, e neste instante ele estava convencido.
Se ir a Lumina fosse o preço para aprender mais sobre si, então ele iria sem pestanejar mais e, caso tenha a oportunidade, até mesmo possa vir a aprender mais sobre a magia com outros que não fossem sua mestra, além de, é claro, aprender mais sobre ela.
Vendo que o garoto havia finalmente aceitado sua proposta, Kaella então começou a discutir os detalhes da viagem, os preparativos, que tipo de mantimentos, equipamentos e quantias de dinheiro e outros itens que seriam necessários para sua estadia.
Eles estavam conversando sobre a possibilidade de preparar alguns fardos de lírios-prisma e algumas poções quando a vila escureceu e um sentimento ruim, daqueles que assusta até a mente do mais bravo guerreiro ou do mais inteligente sábio em tempos calamitosos, tomou conta do ambiente.
Ainda era relativamente cedo, afinal, eram apenas três horas da tarde e este fato preocupou o par que conseguia ouvir dezenas de passos e gritos nas ruas fazendo-os fez prontamente sair da sala, descer as escadas e ir até à rua para observar a situação. Quando pararam para observar notaram que diversos moradores de Elysium, mestres ou não, estavam nas ruas olhando para o céu.
O dia até aquele momento estava fortemente ensolarado e sem qualquer nuvem no céu, o que deixava a vila totalmente iluminada pela luz solar que atravessa as copas das árvores, mas, para que toda essa luz fosse roubada num instante forçando a ativação dos postes de cristais de mana para iluminar o lugar, algo certamente estava errado e os habitantes prontamente foram investigar.
Eles sabiam que a vila era sempre bem protegida por inúmeros mecanismos, feitiços e artes dos mestres, o que os dava um grau de tranquilidade, mas, desta vez a mudança repentina era agourenta e os fazia temer pelo destino próximo.
O céu que antes estava visivelmente azul através das copas das árvores agora estava cinzento e tempestuoso, os ventos sopravam forte e chacoalhavam os inúmeros galhos e folhas em cima de Elysium. Em seguida os moradores começaram a ouvir os ruídos da floresta que o povo pode facilmente concluir que eram as feras que foram afugentadas pela mudança súbita e maligna do clima.
Após algum tempo, o céu começou a brilhar com relâmpagos formidáveis enquanto estrondosos trovões rugiam e ameaçavam partir o mundo com sua fúria. Neste instante o rosto de Lucet ficou pálido e seu corpo todo começou a suar e tremer.
Ele não sabia o porquê, mas algo dentro de si parecia gritar para ele que um grande perigo estava por vir e não demorou muito tempo até que ele enfraquecesse e não conseguisse mais ficar de pé, sua consciência parecia escorregar e ameaçava lhe falhar totalmente a qualquer momento.
Ele tentou resistir essa fraqueza por alguns momentos, mas, a cada minuto que passava a força lhe fugia e logo nem mesmo o reforço de sua mana, que estava sendo gasta rapidamente, fora capaz mantê-lo de pé e em instantes seus joelhos tremeram fazendo o se ajoelhar para conservar suas energias e tentar se recuperar.
— M…Me… Mestra — ele disse ofegante — O…O que está acontecendo?
— Ahn? — ela disse confusa antes de se virar para ele — Lucet! O que foi? Você está bem? — ela se agachou e pôs uma mão em suas costas injetando energia no corpo do garoto.
— E… eu não sei, mestra… — ele respondeu, fraqueza ainda óbvia em sua voz — Do nada eu me senti… ameaçado, como se tivesse um grande perigo perto daqui, e depois eu comecei a enfraquecer muito rápido e nem mesmo com a minha mana ou a sua, eu consegui recuperar minha força.
Kaella olhou para ele preocupada e começou a murmurar diversas palavras desconhecidas enquanto várias esferas de fumaça negra saiam de seu corpo e entravam no corpo do garoto. Momentos depois as luzes saíram e retornaram para ela, e quando o fizeram, ela quase soltou um grito ao passo de que seu rosto quase reluzente perdeu sua graça e ganhou um aspecto doentio.
— Não pode ser! — A elfa exclamou — Como foi que eles encontraram Elysium!?
— Mestra!? — Lucet disse assustado — O que aconteceu? Quem foi que encontrou Elysium?
O garoto preocupado reuniu as poucas forças que lhe restavam e tentou se erguer e ajudar sua mestra, mas infelizmente, seu poder falhou e ele prontamente caiu sentado no chão. “Droga! O que tá acontecendo?” ele pensou enquanto olhava para sua mestra em busca de respostas, ela parecia estar com a mente em outro mundo enquanto murmurava incontáveis palavras e até notou sua aura aumentar e agir diversas vezes, mas sem qualquer efeito aparente.
Ele então a viu tentar abrir uma porta para a dimensão das sombras, ao ponto que as sombras abaixo deles se alargaram tal como no uso do passo do corvo, mas ela acabou falhando e foi neste instante que ela se virou para ele.
— Lucet — ela disse, agitada — Precisamos encontrar Maximilian, e rápido.
— Ahn? O líder? Porquê?
— A mana de toda Elysium está sendo pesadamente restringida por uma arte sagrada — ela explicou com uma expressão fúnebre — Se eu não estiver enganada, a Congregação de Puritas finalmente encontrou Elysium, e se realmente forem eles, você estar tão fraco não é tão estranho assim.
— Porém, o mais importante é que temos de sair daqui o quanto antes, se minhas estimativas estiverem corretas, nós seremos massacrados se não escaparmos.
— Como assim? — ele perguntou incrédulo — Porque essa congregação tem qualquer coisa a ver comigo?
— Porque são justamente eles que descobriram e difundiram o conceito de aura da fé — ela explicou — Depois de centenas de anos de pesquisas eles desenvolveram uma massiva força de seguidores, aliados e devotos, além de, é claro, um exército particular que seguem os comandos da “Representante do Verdadeiro Deus” e são conhecidos como paladinos, que são os usuários mais poderosos de aura da fé.
— Paladinos? — Lucet disse abismado — Quer dizer então que eu sou filho de um cara que trabalha para esse lugar que está nos atacando?
— Bem — ela respondeu — Certamente no passado ele deve ter trabalhado para eles, mas como eu lhe falei, no momento em que você foi deixado aqui, seu pai estava ferido e sua aura da fé estava totalmente drenada o que me leva a pensar que, devido aos ensinamentos e doutrina de Puritas, ele traiu a organização para ficar com sua mãe.
— Lembre-se que, como Maximilian lhe disse no torneio, aqueles treze mestres que foram expulsos eram seguidores de uma organização que espalhava a pureza de sangue como virtude absoluta e acho que você percebeu pela atitude deles que um meio-sangue e seus pais não deveriam sequer existir.
Lucet ficou em silêncio, refletindo sobre estes fatos. Kaella enquanto isso começou a murmurar palavras e circular sua mana, disparando pequenas nuvens de fumaça negra para todas as direções. Ela estava tentando localizar e contatar o líder que nessa hora tão crucial não estava por perto.
“Droga! Cadê você, Maximilian, seu velho linguarudo!?” ela xingou em sua mente enquanto continuava a disparar diversos feitiços.
Enquanto freneticamente tentava encontrar o homem tudo se tornou quieto. O vento e as tempestades cessaram e tudo parou numa aterradora quietude, mas, antes mesmo que o povo tivesse tempo de reagir, o céu brilhou com pilares de luz dourada e o silêncio foi partido com um zunido enérgico que ameaçava partir os tímpanos dos habitantes de tão alto que ecoava no ambiente.
O mundo pareceu parar por um instante. Tudo escureceu enquanto as luzes no céu pareciam sugar todo o brilho do mundo antes de se tornar uma gigantesca névoa dourada, mas, até mesmo essa forma não durou muito, pois, instantes depois o brilho se aglomerou, condensou antes de se desintegrar em milhares de partículas douradas.
As luzes douradas então preencheram o céu e transformaram o teto celeste escurecido em uma esplêndida reprodução do estrelado céu noturno repleto de cores douradas.
Para uns a visão era linda, para outros era estranha, mas para todos eles, a visão era certamente aterradora.
Um coro de vozes então ecoou como o rugido de um trovão entoando palavras desconhecidas para o público, a cada palavra pronunciada as partículas começaram a tremer e eventualmente começaram a se mover.
A princípio eram apenas movimentos aleatórios, mas logo as partículas começaram a girar, condensar, comprimir e então formar um colossal objeto que, para o desespero dos habitantes, logo foi reconhecido como uma gigantesca espada dourada que apenas com seu tamanho parecia ser capaz de destruir toda Elysium.