Os Contos de Anima - Volume 1 - Capítulo 30
A súbita aparição da tempestade, das vozes, das luzes e então da colossal espada dourada acima da vila foi tão chocante que os habitantes mal tiveram tempo de processar todos os acontecimentos. Os de mente mais simples, como os guardas mais fracos, os agricultores, as crianças e os idosos do povo não conseguiram fazer nada além de ficarem atônitos de medo, a ponto de não conseguirem sequer pensar em falar qualquer coisa.
Enquanto que os de mente mais sofisticada, como os mestres, os estudiosos e os pesquisadores, apesar de ainda sob controle das suas faculdades mentais, tiveram um atraso mental que lhes custou, após processarem o que realmente estava acontecendo, preciosos instantes que seriam cruciais para a defesa de Elysium.
Todos estavam, além de assustados, muito confusos e, como nenhuma figura ainda tinha se levantado do estupor dos acontecimentos para os despertar e os liderar, eles ainda não tinham reagido. Lucet, que estava enfraquecendo cada vez mais, tremia com o esforço de se levantar.
Ele, diferente da maioria dos moradores e graças exatamente ao seu estado de enfraquecimento, conseguiu manter sua mente firme e não ser intimidado, portanto, estava ao menos mentalmente hábil para acordá-los.
Ele olhou para sua mestra que ainda estava concentrada em contatar Maximilian e viu que ela não conseguiria reagir como necessário para o momento, portanto, agiu. Com a força que lhe restava ele lentamente girou seu corpo para o lado, novamente ficando de joelhos e depois disso colocou uma de suas pernas apoiadas à frente ficando então ajoelhado em um joelho só. Lucet apoiou-se neste joelho e começou a empurrar com seus braços primeiro.
Seu corpo todo tremia, mas ele sabia que se ele não agisse, qualquer chance de defesa decente seria perdida. “Droga! Vamos lá, Lucet!” ele pensou enquanto lentamente começava a se erguer do chão “Você tem que se levantar!” ele continuou, juntando toda sua força e tomando um grande fôlego “LEVANTA CORPO! LEVANTA AGORA!” ele rugiu em sua mente enquanto desesperadamente tentava se erguer por completo.
Seus dois pés estavam agora tocando o chão e com dificuldade o garoto se apoiava sob os joelhos com suas costas arqueadas enquanto arfava em busca de ar, seu corpo severamente enfraquecido ameaçando colapsar a qualquer instante ou quebra de sua concentração.
Num esforço final ele respirou fundo mais uma vez e focou sua energia nos músculos da sua costa, lenta, porém certamente se erguendo enquanto segurava o fôlego em seus pulmões tentando manter suas últimas forças.
Meros instantes que pareceram horas passaram, o garoto finalmente se ergueu por completo e soltou seu fôlego, quase colapsando novamente quando sentiu a tontura que felizmente foi capaz de remediar tomando mais um longo gole de ar gelado que lhe encheu os pulmões, o acalmando e ajudando a se focar na tarefa à frente.
Lucet respirou calmamente algumas vezes e se concentrou para juntar um pouco de mana, pois gastou quase toda sua reserva interna apenas para combater a fraqueza e se erguer.
Ele então direcionou essa mínima energia para suas cordas vocais, tomou um largo fôlego e então usou um truque que Kaella o ensinou para amplificar sua voz no um mês de treino que acabara de finalizar. O ar vibrou animado em seus pulmões antes de sair violentamente na forma de um berro que despertou a todos.
— ACORDEM! ELYSIUM ESTÁ SENDO ATACADA! — ele gritou.
O ar estremeceu com a explosão sonora emitida pelo garoto que ecoou por toda a extensão da vila antes de, após um segundo de silêncio ao fim dos ecos, fazer com que todos os habitantes tremessem e despertassem de seu estupor.
Os mais simples, como os agricultores, os idosos e crianças impotentes e aqueles que ainda estavam em crescimento, correram para suas casas com suas famílias em busca de seus poucos mantimentos para que pudessem fugir, pois ali não era um lugar onde seres impotentes como eles fossem capazes de sobreviver.
Já os guardas da vila se prontificaram e, em uma exemplar demonstração de disciplina e cooperação, começaram a guiar os habitantes mais frágeis para as rotas e portais de escape, inclusive os ajudando com seus pertences e carregando aqueles com dificuldade de mobilidade em suas costas.
Os mestres, porém, ao invés do que se esperaria de seres tão brilhantes, não fugiram, mas sim, permaneceram e se mobilizaram para erguer todas as barreiras que fossem possíveis. Eles perderam uma valiosa parcela de tempo, e por tal, não tinham como completamente erguer todas as suas diversas barreiras e ativar todos os seus métodos de proteção, mas ainda assim estavam determinados a resistir e lutar contra os invasores da melhor maneira possível.
— Senhores — disse um mestre Gnoma com sua voz magicamente amplificada, um claro tom de excitação em sua voz — Está na hora de mostrarmos a estes forasteiros exatamente que tipo de surpresa nós Gnoma de Elysium temos guardado para esse tipo de situação. Os malditos que foram expulsos da vila desativaram as defesas automáticas, portanto, vai caber apenas a nós, não teremos tempo nenhum meus irmãos, portanto, AO TRABALHO!
Múltiplos risos foram ouvidos do grupo dos Gnoma, mas estes foram logo suprimidos quando um outro mestre muito familiar a Lucet, com sua aparência de árvore e olhos brilhantes, comandou.
— Ativar formação ofensiva onidirecional! Carregar munições e travar alvos! — Iogi ordenou — Vamos seus velhos rabugentos, não deem vergonha a nossos ancestrais e nossos irmãos das montanhas do rei!
Os diversos mestres Gnoma se moveram surpreendentemente rápido levando em consideração sua pouca estatura e o contraste com o grande número de ferramentas que levavam consigo, disparando em direção a todos os cantos da vila.
Instantes depois vários cliques foram ouvidos pela multidão, seguidos de barulhos metálicos em colisão e depois acompanhados de estrondos e zumbidos de engrenagens em movimento e energia sendo acumulada. O chão do local começou a tremer e logo o som de ar despressurizando, acompanhado de disparos de nuvens de ar quente para o céu, foram ouvidos.
Foi neste instante que surgiram de oito pontos da vila, que coincidentemente eram os pontos cardeais e colaterais, oito gigantescos tubos de metal negro decorados com numerosos cristais reluzentes, inscrições, fórmulas arcanas e runas luminosas.
Os instrumentos vibravam gentilmente no compasso do pulsar das luzes e poder acumulados neles, fazendo até mesmo o ar tremer e distorcer apenas pela quantidade assustadora de mana aglomerada em cada um.
Nesse meio tempo, Iogi se aproximou de Lucet e Kaella e os saudou.
— Mestra Alfae, Pequeno Corvo — ele disse com um aceno de sua cabeça.
— M…Mestre Iogi — Lucet respondeu com um trêmulo aceno de sua cabeça, e, ao ver uma expressão que ele interpretou como sendo de indignação surgindo no rosto do Gnoma, disse — P… Peço desculpas no lugar da minha mestra, no momento ela está concentrada em contactar Maximilian.
— Eu sei bem que ela está concentrada, pequeno corvo, posso ver — ele respondeu sorrindo largamente — Quem me preocupa é você. O que aconteceu para você estar nesse estado?
— Eu não sei — ele respondeu — Quando as luzes apareceram no céu e as vozes ecoaram, eu comecei a me sentir cada vez mais fraco, e agora que aquela espada gigante se formou, eu mal consigo ficar de pé. Minha mestra disse que isso tem algo a ver com eu ter aura da fé condensada no meu sangue por causa do meu pai.
— Kaella disse isso, huh… — ele murmurou antes de arregalar seus olhos e ficar boquiaberto — Espera um pouco, garoto, você disse que tem aura da fé condensada no sangue!?
— Sim, foi o que minha mestra disse — ele respondeu, tremendo por um instante antes de continuar — Disse que faz sentido eu estar tão fraco já que quem está nos atacando é muito provavelmente a congregação de Puritas.
— A congregação de Puritas!? — ele exclamou, seu rosto rapidamente se convertendo numa careta especialmente séria — Realmente, se for assim, faz sentido você estar tão enfraquecido.
— Mas porquê? — ele questionou, curioso — A mestra começou a soltar feitiços tentando localizar o líder e não terminou de me explicar.
— Aquela espada gigante é muito provavelmente um construto sagrado, é basicamente um armamento sagrado, só que com a energia de centenas de pessoas o amplificando — Iogi começou a explicar — E certamente requer uma quantidade colossal de aura para ser construída, por isso, quem está nos atacando são os paladinos e estes são os usuários mais poderosos de aura que existem atualmente.
— Você, que tem como herança a aura condensada em seu sangue e nunca a utilizou, obviamente seria suprimido pelo poder que eles passaram anos treinando, aperfeiçoando e utilizando. Ou se preferir, é mais fácil dizer que a qualidade do poder deles é muito superior ao do seu, por isso, eles são capazes de suprimir seu sangue apenas com suas auras, o que te deixa em uma posição severamente prejudicada.
— Droga… — Lucet reclamou — Não tem nada que eu possa fazer contra isso?
— Infelizmente, garoto — Iogi respondeu com um chacoalho da cabeça — No seu caso específico não, a não ser que consiga despertar e utilizar esse poder.
Iogi pensou por um instante em falar do poder do amuleto do garoto que, para a surpresa do Gnoma, ainda estava em seu peito. Mas no momento em que tentou comentar, uma pressão esmagadora surgiu em seu corpo e ele se sentiu como se estivesse de frente com uma montanha prestes a ser jogada sobre si.
Ele prontamente cerrou os dentes e, quando a pressão sumiu do seu corpo, ele xingou em sua mente. “Droga! Um poder desse nível com certeza seria útil nessa batalha! Mas seja lá o que for isso, não quer deixar de forma alguma que o garoto saiba de sua real identidade ou funções” ele pensou, sua brilhante mente formulando hipóteses sobre o funcionamento do amuleto.
Enquanto o par conversava, os outros mestres também agiram conforme suas próprias práticas e implementaram suas engenhosas, apesar de apressadas e incompletas, defesas. Os Alfae presentes desapareceram na direção de certos pontos e até mesmo diretamente se ajoelharam ali, suas mãos brilhando com uma fortíssima mana colorida.
Eles encostaram suas mãos no chão, círculos arcanos com inscrições e símbolos complexos surgiram no solo e a partir de cada círculo quatro linhas foram disparadas em direções aleatórias que cortavam o chão com uma linha de luz e rapidamente se conectavam com outros círculos.
Alguns segundos depois, Elysium reluzia com linhas, símbolos, inscrições e círculos que, se vistos de cima, formavam um grande círculo mágico que cobria toda a extensão da vila. Uma tempestade parecia estar prestes a se formar devido a toda mana que estava sendo movimentada pelos Alfae naquele momento.
Um comando numa língua desconhecida foi ouvido e, com um último esplendor luminoso, seis pilares mana surgiram ao redor da vila que se curvaram e convergiram, conectando suas pontas acima da multidão e formando uma abóbada.
Lucet observou, entre espasmos dos seus músculos e cambaleios devido a sua fraqueza, o surgimento dessa defesa e reparou que cada um dos pilares continha a mana de um dos elementos.
A primeira era uma coluna feita de luz branca, a segunda era uma feita de escuridão cinzenta e fumegante, a terceira era um pilar flamejante de violentas chamas vermelhas e douradas, o quarto era uma colossal coluna de ar giratório que ameaçava arrancar as construções e casas como se fosse um tornado, o quinto era uma pilastra de rochas de múltiplas cores e gemas luminosas e o último era uma coluna de água que surgirá como se disparada de um geiser.
— Veja, garoto, essa formação arcana é o “Domo Perfeito Hexa-elemental” — O Gnoma disse rindo, orgulhoso, ao apontar para os pilares — Esta é uma criação de Elysium e não existe em outro lugar.
— Perfeito? — Lucet questionou, rindo — Isso aí no máximo é um esqueleto de um domo, está longe de ser perfeito.
Como se ouvindo a dúvida do garoto, os pilares elementais então começaram a girar. No primeiro momento foi extremamente devagar, praticamente imperceptível, mas logo, o movimento foi acelerado a uma velocidade absurda a ponto de que os elementos começaram a se fundir criando uma verdadeira tempestade de mana acima de Elysium. Lucet ficou assustado, como é que essa bagunça deveria os proteger? Isso mais parecia que os iria destruir a qualquer momento!
Lucet olhou para o Gnoma que parecia ler sua mente e o respondeu apenas o gesto de apontar um dedo para a tempestade acima, um largo sorriso em seu rosto. A velocidade de rotação continuava aumentando sem um limite aparente para o quão rápido a tempestade era capaz de girar.
Com o passar dos segundos, o garoto se via cada vez mais intrigado. Como exatamente um tornado não tinha se formado com tanta velocidade sendo aplicada na tempestade? Será que essa coisa ia explodir? Para sua felicidade, a pergunta foi rapidamente respondida quando a tempestade simplesmente se dispersou e, em seu lugar, um domo azulado semi-transparente foi criado.
Iogi riu alto.
— Perfeito o suficiente agora para você, pequeno corvo? — ele questionou.
— S…Sim! — Lucet respondeu, impressionado — Perfeito!
— Deu muito trabalho criar isso daí — Iogi explanou — Um time de Gnomas especializados em formulação arcana e estrutura mágica foi encarregado de criar os circuitos de ativação, nós demoramos dez anos para criar a estrutura base dessa belezinha. Depois disso, uma equipe de Alfae com imensas reservas mágicas e com aptidão máxima passaram mais dez aprendendo e praticando a implementação desta formação e, descontando às duas vezes que esta magia fora conjurada antes para fazermos testes com os níveis de resistência e quantidade de mana gasta por minuto, esta é a primeira vez que esta maravilha surge no mundo e mesmo que conjurada meio às pressas, a defesa provida deve nos ganhar algum tempo.
Lucet queria fazer mais questões, pois com a existência do Domo ele sentiu um pouco da pressão em seu corpo diminuir, e apesar de não ser uma grande diferença, já era o suficiente para tornar a fraqueza tolerável e permitir que ele começasse a se recuperar.
Antes que pudesse continuar seus questionamentos ele sentiu sua força de vontade finalmente falhar, e com os joelhos tremendo ele colapsou e caiu sentado, seu corpo inteiro reclamando do imenso desconforto de ter seu poder drenado.
Como não tinha como interferir no combate que estava prestes a acontecer, ele resolveu recuperar suas forças para que agir para se proteger caso fosse necessário. Após instantes refinando mana, ele finalmente pode acessar seu cinto dimensional e tirou de lá algumas poções que tinha reservado para recuperar sua mana e stamina mais rapidamente, que prontamente tomou.
Enquanto o garoto se recuperava, Kaella finalmente se levantou, sua expressão um tanto severa. Lucet estava concentrado em se recuperar, portanto, a Alfae se comunicou inicialmente apenas com Iogi.
— Não consegui contatar Maximilian — ela disse, sua voz carregada de nervosismo.
— Ora, Guardiã — Iogi riu — Está com medo do combate?
— Sabe que se for preciso, não sou de hesitar numa luta, Iogi — Ela retrucou com um sorriso frio — Mas, nem todos aqui tem meu poder ou o seu. Nisso ela apontou com os olhos para o garoto que estava concentrado em se recuperar.
— Mesmo com a proteção do domo, que enfraqueceu os efeitos do selo de fé, ainda não estou conseguindo acessar o plano das sombras para escapar daqui com ele — ela continuou — Preservar a minha vida é bem mais fácil do que preservar a vida dele. O amuleto que ele tem pode até protegê-lo, mas até quando? Qual é o limite? Quais são as condições de proteção? Eu simplesmente não posso confiar a vida do meu aluno em algo tão… Incerto.
Iogi concordou com um aceno da cabeça enquanto mexia em sua barba.
— Você tem algum plano?
— Um plano e uma esperança — ela respondeu — Minha esperança é que Maximilian aja e consiga abrir uma brecha no selo de aura com seu poder extradimensional para que possamos escapar, mas caso isso não venha a acontecer, então meu plano é usar a brecha criada pelo intervalo do ataque da grande espada para escapar. Manter um selo de fé desse nível deve custar uma quantidade imensa de aura, portanto, no momento que mobilizarem esse ataque, acredito que por alguns breves instantes a efetividade do selo será reduzida consideravelmente, o bastante para que eu possa usar o passo do corvo para desaparecer daqui com o garoto.
— Vai ser arriscado, e o tempo para reagir será curtíssimo — ele respondeu, preocupado — acha que consegue?
— Não tenho certeza — ela disse, visivelmente estressada — Mas terei de fazer dar certo.
Os dois discutiram mais alguns assuntos relacionados a manobras defensivas, combate, rotas de fuga para os civis e outros detalhes da situação e depois ficaram em silêncio enquanto observavam a situação.
Eles perceberam que a espada dourada, apesar de ameaçadora, ainda se encontrava instável e parecia estar prestes a explodir a qualquer momento, porém, antes que ela pudesse comentar sobre a oportunidade, houve uma mudança.
Das posições de onde os pilares de luz antes haviam irradiado sua energia para formar o gigantesco armamento, cinco figuras voaram com majestosas asas flamejantes de cada ponto, somando um total de cem de guerreiros. Suas asas incandescentes brilhavam com luz branca e dourada que, ao refletir nos metais de suas armaduras, faziam os usuários parecerem verdadeiros seres celestiais.
A centena trajava armaduras escarlates com cruzes douradas no peito e ombros, empunhavam uma espada dourada com joias vermelhas cintilantes na mão direita e um grande escudo vermelho com o símbolo “XIII” marcado em letras douradas garrafais na mão esquerda.
Eles eram imponentes, contendo cada um uma aura assustadora que, quando combinada com seus elmos vermelhos que permitiam os oponentes ter apenas um mísero vislumbre dos olhos que brilhavam com poder, os tornava ainda mais terríveis, sua mera aparição causando terror nos habitantes que no momento não podiam fazer nada senão desesperadamente tentar evacuar, muitas vezes derrubando e pisoteando qualquer que entrasse em seus caminhos, enquanto os mestres e os guardas se preparavam para o combate.
Logo, murmúrios e sussurros começaram a tomar conta dos mestres que demonstravam expressões cada vez mais contorcidas e desesperadas.
— Não pode ser… — um Alfae disse incrédulo — eu imaginei que fossem de Puritas, mas nunca pensei que mandariam estes maníacos para cá.
— A décima terceira divisão de combate — um Gnoma falou assustado.
— O esquadrão escarlate — Um humano se pronunciou.
— Os paladinos sangrentos — disse um guarda particularmente velho que segurava sua lança com tal força que a mesma tremia e ameaçava se partir diante dos nós brancos dos dedos do homem.
— A centúria do extermínio — disse um Faeram, qualquer semelhança de esperança totalmente drenando de sua expressão.
Lucet neste momento havia se levantado, pois estava sentindo a pressão em seu corpo aumentar novamente. Ao se erguer viu que todos, inclusive sua mestra e o Gnoma Iogi, olhavam atônitos para o grupo de guerreiros alados que havia surgido no céu escurecido e iluminavam toda a floresta com sua enorme aura radiante.
Ele, confuso com todo esse alvoroço, estava prestes a questionar sobre a identidade desse grupo misterioso quando o mesmo bradou com vozes amplificadas que faziam o ar vibrar e retorcer.
Um dos guerreiros voou mais à frente e ergueu sua lâmina aos céus antes de declarar.
— Senhores, eu lhes pergunto — ele disse — Quem está aí!?
— Somos da santa congregação de Puritas — eles bradaram em resposta — Somos os soldados Iscariot!
— Então, Iscariot — ele continuou — eu lhes pergunto, o que carregam em sua mão direita?
— A lâmina do nosso castigo! — eles responderam.
— Me digam, Iscariot! — ele prosseguiu — eu lhes pergunto, o que carregam em sua mão esquerda?
— O escudo da nossa sentença! — eles rugiram.
— ENTÃO! — ele urrou, batendo sua espada em seu escudo, frenesi em sua voz — Iscariot, eu lhes pergunto! Quem são vocês!?
— Somos apóstolos, mas não apenas apóstolos — dessa vez todos responderam em uníssono, incluindo o guerreiro destacado — Somos seguidores, porém, não apenas seguidores. Somos fiéis, porém, não apenas fiéis. Somos soldados, porém, não apenas soldados. Somos aqueles que seguem o verdadeiro senhor, que se curvam para pedir seu perdão e se erguem para eliminar seus inimigos com a cólera divina!
O poder dos cem apenas aumentava, suas asas crescendo em tamanho e brilho forçando os seres abaixo a cobrirem os olhos para se protegerem da luz e incendiando os topos das árvores com as plumas de suas auras.
— Somos os únicos que balançam suas espadas, servem morte como ceia, os soldados do senhor! Somos assassinos, um grupo de exterminadores. Somos a mão da fúria, a calamitosa punição e o julgamento divino, somos Iscariot!
— Quando chegar o nosso fim vamos atravessar nossos corações com nossas lâminas e partir nossos crânios com nossos escudos e então formaremos um grupo de espectros, nos ergueremos em formação e traremos o desespero a todos que ousaram desafiar nosso deus, pois tal é o nosso desejo!
Os cem ergueram suas lâminas ao céu que instantaneamente irromperam com chamas brancas e brilharam como estrelas e, como se em resposta ao gesto, fizeram com que a colossal espada dourada começar a brilhar e replicar as ações da centena de lâminas brilhantes, lentamente se erguendo em direção ao céu.
Tudo ficou em silêncio, porém, apesar de todos os bloqueios e barreiras, um frio e mortal sussurro adentrou os ouvidos e mentes de todos os habitantes de Elysium quando o homem que havia se destacado da centúria murmurou, seus olhos fechados.
— Desapareçam, Hereges.