Os Contos de Anima - Volume 1 - Capítulo 31

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Um grande barulho de vidro se partindo ecoou antes do círculo mágico estilhaçar, um enorme rasgo no espaço tomando seu lugar. A zona rompida parecia tentar se remendar às pressas, sugando toda e qualquer energia disponível para tentar selar o buraco e impedir a entrada do intruso nesta dimensão.

 

Quando Lucet olhou para dentro da zona partida sentiu seu olho pulsar, mas, diferente das outras ocasiões onde ele pulsava para extrair uma informação, desta vez o olho parecia celebrar a chegada do ser que invadia o plano de Anima de maneira tão violenta.

 

A espada estava prestes a alcançar o rasgo dimensional e Maximilian, quando dela saiu o que parecia ser uma descomunal árvore vermelha que laceou a lâmina com seus cinco poderosos galhos, impedindo o ataque com imensa facilidade.

 

Quando todos olharam, viram que aquilo não era uma árvore, mas sim um imenso braço coberto de escamas vermelhas e brilhantes como rubis com cinco poderosas garras negras presas a dedos que mais pareciam troncos de pequenas árvores de tão grossos que eram.

 

— Não creio ter dado permissão para vocês começarem a festa sem mim — A voz rugiu, um riso cruel laceado com a fala.

 

Em seguida, um segundo braço agarrou a borda do burado e pressionou com força, rachando ainda mais o tecido dimensional do lugar antes de agarrar uma zona particularmente mais grossa de espaço e puxar um par de ombros colossais que prontamente se ergueram e revelaram duas asas firmemente dobradas que tentava se encolher e não encostar nos fragmentos de dimensão nas bordas do rasgo.

 

— L… largue nossa arma, demônio! — O paladino Alexander urrou, fúria e, surpreendentemente, medo acompanhando sua voz — Saia de seu esconderijo e nos enfrente!

 

— Ora — A voz desatou em risos — Então as pombinhas brilhantes resolveram criar coragem para me desafiar? Pois bem! Como desejar!

 

As asas, assim que libertas das restrições da passagem, se esticaram e lançaram uma sombra sobre Elysium antes de baterem uma única vez e arrastarem para fora do buraco uma fera escarlate corpulenta com uma enorme cabeça com cinco grandes olhos que mais pareciam janelas para o abismo, um poderoso par de pernas e uma cauda tão imensa que mais parecia uma grande serpente vermelha quando cortava o ar com seus movimentos.

 

A cabeça era do tamanho de uma casa e tinham grandes presas amareladas que pareciam espadas em sua enorme bocarra enquanto seus olhos possuíam, tal como o olho direito de Lucet, pupilas no formato de fendas, com a diferença de que apenas um era dourado e vermelho muito mais intensos do que os do garoto, contendo nos outros olhos outras cores. Neste instante, uma voz desesperada soou nos ouvidos do homem que havia trazido a fera a este mundo e agora se encontrava acima da cabeça do meio.

 

— Maximilian! O que está fazendo!? Porquê trouxe Dracul até aqui!? — Kaella gritou, angustiada — Você sabe que trazer ele por inteiro vai fazer com que a própria dimensão cobre sua vida como preço!

 

Maximilian, porém, apenas riu com a informação e disse.

 

— E você acha que eu não sei, minha cara Alfae? — ele respondeu — Porque acha que demorei tanto para reagir ao ataque? Não foi fácil convencer ao meu velho amigo a correr esse risco comigo.

 

— Mas… Porque? — ela questionou — Com seu espaço independente você poderia facilmente os exterminar, porque trazer ele?

 

— Porque eles não são minha preocupação — ele respondeu, seu rosto sorridente finalmente assumindo uma feição sombria — ela é.

 

— Ela? — Kaella perguntou, confusa.

 

Os paladinos de repente se ajoelharam no ar, suas espadas cruzadas sobre seus peitos.

 

— Nós saudamos a santa pontifícia! — eles bradaram — Porta voz do verdadeiro senhor e guia de Puritas!

 

Uma poderosa luz branca dispersou as nuvens tempestuosas e aniquilou as tribulações enquanto uma silhueta envolta em luz surgia em meio aos céus. A luz era opressivamente poderosa ao ponto de que mesmo com a imponente presença de Dracul bloqueando a maioria de seus efeitos, Lucet ainda sentiu uma imensa fraqueza que o fazia sentir cada vez mais dificuldade em permanecer em pé.

 

— Droga… de novo não! — ele exclamou, se apoiando nos joelhos com as mãos para se manter em pé, seu fôlego laborado.

 

Foi então que uma voz suave, que parecia extremamente entediada, soou nas mentes de todos.

 

— Falso paraíso, destruído. Desistam e entreguem o garoto meio-sangue, e sua morte será rápida e indolor — ela disse como para quem fala com uma criança que obviamente deve obedecer seus comandos.

 

— Há muito tempo não nos vemos, Leona — Maximilian disse com um largo sorriso — Vejo que continua tão autoritária quanto a última vez. Sério mesmo que mobilizou todo esse poderio de Puritas apenas para capturar o garoto? Ou será que acredita mesmo que estas pombas de luz vão fazer alguma diferença em nosso combate?

 

A figura luminosa parecia não ter ouvido, tendo permanecido em silêncio, aguardando a resposta aos seus comandos. Os mestres Alfae aproveitaram a brecha causada pela chegada de Dracul para usar seus variados métodos de fuga e escapar do campo de batalha, Iogi e Albus, a conselho de Kaella também recuaram para seus próprios esconderijos.

 

Apenas Lucet e Kaella, que não conseguiram aproveitar a brecha, restavam ali, incapazes de mergulhar nas sombras ou utilizar os portais, que agora estavam inutilizáveis devido à massiva aura da pontifícia, para fugir. A figura abruptamente expandiu ao ponto de igualar Dracul em tamanho antes de agarrar o cabo da espada dourada e puxar para si, assimilando seu poder e fazendo com que o armamento emanasse reluzisse como nunca antes.

 

Dracul foi forçado a largar a lâmina, pois quando o poder da oponente foi injetado na arma ele sentiu que perderia os dedos se não o fizesse. Lucet, porém, observava, não maravilhado com esse poder como de costume, mas sim horrorizado. Quando a figura agarrou o cabo da espada o garoto viu a aura e a força vital de todos os paladinos, com exceção de Alexander, serem drenados até que fossem transformados em pó para alimentar o poder do colosso de luz e sua lâmina.

 

— Liona, vejo que seus truques não mudaram, será mesmo que você não aprendeu nada nestes anos todos e continua usando seus métodos bárbaros de sacrifício? — Maximilian zombou.

 

Desta vez, porém, a figura respondeu.

 

— Como luto não lhe diz respeito — ela disse friamente — Os servos do verdadeiro senhor ficam felizes em doar sua vida para o bem maior.

 

— Até sua resposta continua a mesma desde a última vez que nos enfrentamos! — Maximilian gargalhou — Realmente você não mudou em absolutamente nada.

 

A figura respondeu com desdém ao dizer, a espada agora erguida sobre sua cabeça.

 

— Não há porque mudar aquilo que já é perfeito, velho tolo.

 

— Mas o sentido da vida é a mudança — ele retrucou — a evolução e o aprendizado. Permanecer por eras a fio insistindo em ideias retrogradas, isso sim é tolice.

 

A figura aparentemente já havia esgotado sua paciência, pois instantes depois ela agarrou o cabo da espada com sua outra mão, e com as duas desferiu um corte vertical mirando cortar a fera e seu cavaleiro em dois num único ataque.

 

Dracul já esperava o ataque e prontamente inclinou a parte direita do seu corpo para trás, desviando do ataque por um fio antes de disparar sua mão esquerda na direção do pescoço da figura, pronto para lhe rasgar a garganta com suas garras negras.

 

A figura se moveu como se tivesse previsto isso e girou a lâmina, disparando um corte diagonal ascendente que forçou Dracul a retrair seu braço e recuar com um bater de suas asas, cruzando vários metros num instante, do contrário teria perdido seu membro no ataque. Os olhos tinham, cada um, uma coloração diferente.

 

O olho direito inferior era, tal como o olho de Lucet, vermelho e dourado, já o olho esquerdo inferior possuía uma íris esbranquiçada fazendo-o parecer uma pérola enquanto o olho logo acima deste possuía uma íris azul de um tom profundo como o dos oceanos.

 

Por fim, o olho esquerdo superior tinha uma íris de cor verde-esmeralda enquanto o olho logo no centro da testa, acima dos outros, possuía uma íris escura como a própria noite. Os cinco pares de olhos possuíam poderes formidáveis que pertenciam, com exceção de Lucet, apenas a Dracul e neste combate, a fera não tinha a menor intenção de regular o uso de qualquer um deles.

 

— Me entregue a verdade! — a fera declarou — O futuro não escapa da minha vigília!

 

A fera escarlate bateu suas asas novamente e cruzou a distância entre ela e a figura num piscar de olhos, o olho dourado e o esbranquiçado reluzindo enquanto avançava. A figura disparou um corte horizontal contra a besta, que, para sua surpresa, foi em vão, pois a fera facilmente desviou do ataque ao bater as asas e se erguer para o alto.

 

A figura então disparou um corte vertical ascendente, mirando novamente partir a besta em dois, mas esta apenas virou o corpo para o lado antes de usar sua cauda para agarrar o cabo da espada e a mão que a segurava e impedir a figura brilhante de fazer qualquer outro corte.

 

— A uma distância maior — Dracul confessou num falso tom lamentoso — Isto provavelmente não funcionaria, mas, eu duvido que à queima-roupa isto não te afete pelo menos um pouco!

 

— Petra! — ele rugiu.

 

O olho verde-esmeralda reluziu por um instante, disparando em seguida um raio de luz verde na direção da figura. A figura parecia ter notado o perigo e tentou desviar, mas como tinha uma de suas mãos presas a cauda da besta, ela foi forçada a abandonar a espada para conseguir erguer no último segundo um de seus braços à frente se seu rosto, impedindo que a luz lhe atingisse onde deveria estar sua face e semblante luminoso.

 

— Tch! — Maximilian reclamou, um tom brincalhão na voz — Está ficando velho, meu amigo? Estou preocupado com seus olhos… Porque foi que errou? Está ficando cego por acaso?

 

— Ora, cale a boca, Maximilian — Dracul retrucou rindo — Tente você acertar um raio petrificante num objeto em movimento!

 

Kaella, devido ao seu vasto conhecimento sobre as artes arcanas, era versada em vários feitiços complexos das mais variadas naturezas, porém, o que ela viu a seguir foi definitivamente surpreendente.

 

A luz verde atingiu o braço de aura branca e, para a surpresa da Alfae, a própria energia foi instantaneamente destruída e transformada em rocha pelo ataque de Dracul. Além disso, a petrificação estava lentamente se espalhando e, dado o devido tempo, certamente petrificaria todo o corpo luminoso.

 

— Mas… Como? — A elfa questionou confusa — Como foi que ele petrificou energia? Não tem feitiço ou coisa neste mundo que faça isso.

 

— Neste mundo — Dracul respondeu com um sorriso lotado de lanças brancas que ele chamava de dentes — Não significa que em outros não existe, garotinha, o poder é algo curioso e pode se mostrar de diversas formas.

 

Porém, a figura agiu decisivamente e, usando seu armamento dourado, decepou o próprio braço como se não fosse nada demais. O braço petrificado despencou em Elysium e derrubou várias casas com seu impacto antes de se despedaçar enquanto rolava pela vila.

 

— Humph — a figura bufou — Acha que isso irá me parar, Maximilian?

 

— De forma alguma, minha cara Liona — ele respondeu aos risos, chacoalhando sua mão enrugada — Sei que este gigante de luz é apenas uma projeção de aura e que você está longe de tomar qualquer dano real, mas, mesmo você tendo drenado a força vital de quase cem seguidores, ela ainda não é ilimitada. É só uma questão de tempo até que eu e Dracul a derrotemos.

 

— Isso é o que veremos! — A figura finalmente pareceu se enfurecer e ordenou num berro — Alexander! Capture o garoto meio-sangue! Mate a elfa!

 

— Como ordenar, Santa Pontifícia — o homem respondeu, solene.

 

O paladino se ergueu, suas asas novamente estendidas. Ele apontou sua espada na direção de Lucet e Kaella e disse com um sorriso frio em seus lábios.

 

— Sua hora chegou, hereges — ele sorriu cruelmente — E eu terei o prazer de exterminar vocês e seus caminhos pecaminosos, pessoalmente!

 

Ele então disparou com um bater de asas na direção do par, tão rápido que o par apenas conseguia ver um borrão de luz cruzando o espaço.

 

Dracul tentou impedir, movimentando um de seus braços para mirar um ataque no paladino, mas ele foi impedido pela pontifícia que prontamente regenerou seu braço de aura e voou em sua direção desferindo um corte diagonal que forçou a fera a recolher seus membros e desviar.

 

— Me desculpe, Kaella — Maximilian disse num suspiro — Eu e Dracul ficaremos ocupados demais lutando contra ela, não poderemos ajudar.

 

Kaella apenas respondeu com um chacoalho da cabeça e tirou de sua bolsa dimensional duas espadas curtas que empunhou e assumiu uma postura baixa, pronta para combate, sua aura negra novamente se manifestando como uma chama sombria ao redor de seu corpo.

 

Lucet, por outro lado, ainda estava enfraquecido e não conseguiu fazer mais do que extrair uma de suas garras da joia de seu cinto e erguer na altura do pescoço.

 

Ele não assumiu uma posição de combate, pois sabia que se o fizesse iria perder o equilíbrio e cair, portanto, permaneceu em pé. Não demorou mais que alguns segundos antes do paladino aterrissar em frente ao par causando um leve tremor na terra, suas gargalhadas ensandecidas ecoando pelo espaço.

 

Mal houve tempo para o par processar o impacto quando Alexander saltou em sua direção empunhando uma espada brilhante carregada de aura que ele usou para desferir um feroz corte vertical, tentando partir a elfa em dois com um único ataque. As lâminas da Alfae brilharam com um lustro negro ao passo que ela injetou sua mana no armamento.

 

— Ela ergueu as espadas acima da sua cabeça e as usou para bloquear o ataque enquanto procurava uma abertura para revidar, porém, diferente do que a feiticeira esperava de suas defesas e reforços arcanos, ela não foi capaz de aguentar a força do paladino louco e se viu forçada a redirecionar o ataque para o chão.

 

A espada colidiu com as pedras do pavimento e a terra abaixo com um baque surdo, erguendo uma nuvem de poeira e disparando fragmentos de rocha para todos os cantos. Kaella, graciosa como uma brisa, deu um passo e usou a espada para saltar sobre o homem, aterrissando atrás de suas costas antes de girar o corpo e desferir um ataque na direção da nuca do guerreiro com total intuito de decapitá-lo e encerrar logo o combate.

 

Porém, como se tivesse olhos atrás da cabeça, o paladino desviou do ataque ao dobrar os joelhos e curvar a coluna que logo torceu para arrancar sua espada do solo e disparar um corte horizontal na cintura da elfa. Desta vez a Alfae não teve tanta sorte.

 

Ela conseguiu erguer suas lâminas a tempo para bloquear o corte, mas, o ataque carregava tamanha força que acabou atingindo de tal maneira que a fez ser arremessada no ar por alguns metros antes de cair, suas lâminas lascadas no local de impacto por mais que ela tivesse reforçado os objetos com feitiços e mana.

 

Sem dar tempo que ela recuperasse o fôlego, o paladino correu em sua direção. Desta vez, ao invés de tentar cortá-la, ele trocou seu método de ataque e bateu suas asas para acelerar seu ataque, executando uma estocada com sua espada, mirando no coração da Alfae. Os reflexos da mulher, porém, não perderam em nada para essa nova tática, pois ela desviou da investida com um passo lateral, antes de girar o corpo e mirar suas espadas no meio das costas do guerreiro.

 

Alexander girou seu corpo no meio do ar e acertou um chute nos braços da elfa, fazendo-a largar as espadas antes de cair no chão e rapidamente se erguer empunhando sua espada. Ele desferia ataque atrás de ataque que Kaella, agora desarmada, era forçada a desviar desesperadamente, pois qualquer golpe lhe custaria a batalha, e por consequência, sua vida. E assim eles prosseguiram batalhando por vários minutos.

 

Lucet, que normalmente mal seria capaz de acompanhar uma batalha deste nível, olhava para eles assustado. Seu olho da providência o permitia enxergar tudo com mais facilidade e precisão, podendo até mesmo desacelerar sua percepção da batalha para que ele pudesse avaliar com mais clareza, mas, o que ele estava assistindo não parecia um combate, mas sim uma dança.

 

Era tudo tão fluido e rápido, como se já tivessem ensaiado esses movimentos juntos milhares de vezes. O garoto estava tão assustado quanto maravilhado pelo alto nível desta luta e se via perdido pensando se algum dia conseguiria chegar nesse patamar. Porém, seu sonho desperto não pode durar muito quando notou que Kaella começou a cair em desvantagem, e logo, falhou em desviar totalmente um ataque.

 

A lâmina dourada cravejada de joias errou seu alvo, porém, o paladino viu sua chance e disparou seu braço, suas mão como uma garra dourada, e agarrou a elfa pelo pescoço antes de a erguer, seus dedos vagarosamente fechando ao seu redor.

 

Kaella tentou resistir e chutou repetidas vezes a armadura do maníaco com suas pernas cobertas de mana sombria, mas os ataques foram em vão, pois a alva aura ardente em volta do homem reforçava seu armamento e praticamente negava os reforços da elfa.

 

Lucet, vendo isto, entrou em desespero.

 

— Droga! — ele berrou angustiado — Larga ela! Larga minha mestra!

 

O paladino e Kaella que se encaravam ferozmente, mas quando a angústia do garoto os alcançou, ambos viraram os olhos, igualmente surpresos, mas por motivos diferentes.

 

A elfa o olhava com uma expressão que claramente o dizia “O que você está fazendo aí ainda!?”, mas Lucet apenas a olhava com um interminável desespero e teimosia nos olhos, se recusando a sair dali qualquer que fosse a consequência.

 

Já o paladino o olhou, seus olhos cheios de arrogância e zombaria e soltou uma gargalhada.

 

— Ora, ora, elfa — ele disse em meio a risos zombeteiros — mas que aprendiz mais leal! Mesmo que isso lhe custasse a vida ele continuou aqui aguardando seu retorno. Se ele não fosse um mestiço imundo, eu até o elogiaria, mas é uma pena que ele nasceu um herege, do contrário eu mesmo lhe convidaria para ser meu aprendiz.

 

Lucet, que a essa altura já estava possesso com uma mórbida determinação, retrucou com um tom ácido.

 

— Nem se você fosse a própria pontifícia eu aceitaria um aprendizado com você! — ele disparou — Se você fosse um milhão de vezes mais forte, ainda assim não seria nem um por cento do que minha mestra é!

 

Um traço de ira cruzou os olhos do paladino. Por um breve instante ele considerou estraçalhar o moleque com sua espada antes de espancar o que restar com seus punhos até que não sobre nem as cinzas desse pirralho impertinente, mas, ao se lembrar do comando da pontifícia, ele rapidamente suprimiu esses pensamentos e disse num tom perigoso.

 

— Não me force, garoto — ele disse — A santa pontifícia me comandou a lhe capturar, mas, nunca me disse que você tinha que ir intacto. Acho que ela não deve sentir falta de uma perna… ou duas.

 

O homem certamente esperava muitas coisas quando declarou sua ameaça. Ele esperava ver o sangue desaparecer do rosto do garoto quando sua feição se tornasse pálida com medo, esperava ver seu corpo tremer aterrado com sua formidável presença e até mesmo chegou a imaginar o garoto urinando em suas calças de puro horror diante de seu poder, mas, o que ele realmente encontrou estava longe de qualquer uma das suas mais extravagantes fantasias.

 

Quando ele olhou para Lucet, o que ele viu foi, não uma criança teimosa, mas sim uma besta olhando de volta para ele. Talvez fosse o olho de fera que o dava a impressão de que cada segredo seu estivesse exposto ou simplesmente era a fúnebre determinação que brilhava nos olhos do garoto, não demonstrando nem o menor traço de medo ou relutância em face da dor, ou morte que poderia lhe ocorrer, mas, ele nunca em sua vida se sentiu tão intimidado por uma coisa tão fraca e absolutamente frágil quando o garoto diante de si.

 

Foi então que mais uma surpresa tomou conta da mente do homem quando Lucet, que até aquele momento apenas o encarava, finalmente agiu. Ele começou a andar na direção dele. Eram passos vagarosos e extremamente laborados, mas sem sombra de dúvidas, eram pequenos progressos que iam lhe alcançar.

 

A atitude foi tão bizarra nos olhos do paladino sanguinário que sua mente travou, incapaz de processar, sua mente contendo apenas o questionamento de exatamente aonde foi que o garoto tinha arranjado um olhar tão ferrenho quanto aquele.

 

O homem não conseguia, inclusive, detectar qualquer sinal de fraqueza que outrora ele notara no garoto. O seu andar era firme e decidido, seus olhos travados nos olhos do guerreiro, absolutamente determinado a não desgrudar a conexão visual por um segundo que fosse, como se estivesse determinando o vencedor apenas nesta batalhas de olhares.

 

— Eu falei… — O garoto falou lentamente, sua voz gradualmente se aprofundando — Solta ela.

 

Tap… Tap… Tap… Os passos ecoavam no campo de batalha pareciam tão silenciosos quanto a própria morte.

 

Lucet, sua voz fria e imperiosa, mais uma vez falou.

 

— Solta ela…

 

O paladino gargalhou, finalmente escapando da confusão da sua mente.

 

— Soltar ela? Que piada! — ele riu — As ordens da pontifícia são absolutas! Além do mais — ele soltou uma risada particularmente cruel — O que exatamente um pirralho mestiço como você pode fazer para me impedir de matá-la? Você mal consegue andar direito!

 

— Eu falei — E dessa vez uma força descomunal permeou a voz do garoto — SOLTA ELA!

 

Uma onda de choque explodiu com a força da voz do garoto que soltou um grito que mais parecia um rugido de uma fera ancestral.

 

Lucet, possesso de uma inexplicável força, desatou a correr mais rápido do que nunca antes fora capaz, seus passos deixando rachaduras e depressões no solo enquanto atravessava os metros entre eles em questão de segundos, uma aura invisível se formando ao seu redor.

 

Kaella olhava para ele totalmente confusa e assustada, de onde surgiu essa força? Até momentos atrás, ele mal conseguia se manter de pé! O que estava acontecendo com o menino?

 

Antes que ela tivesse a chance de contemplar mais a ideia, o garoto os alcançou e saltou, disparando um corte na jugular do homem.

 

— SOLTA ELA! — ele gritou, sua energia flutuando a níveis nunca antes vistos por Kaella.

 

Porém, a força do paladino, mesmo diante do súbito aumento de poder do garoto, ainda era extremamente superior a dele.

 

Seus reflexos de anos de combate e treino ainda eram afiados demais para que ele pudesse superar com seu desespero, e, com um simples tapa com as costas de sua mão em seu rosto, Alexander fez Lucet voar por dezenas de metros antes de colidir com a parede de uma casa que acabou por desabar com a força do impacto.

 

— L.. Lucet! — Kaella gritou angustiada.

 

— Mas olha só! — Alexander zombou — Parece que o “poderoso” Lucet falhou em salvar sua amada mestra. Que foi, garotinho? O titio Alexander te bateu com força demais?

 

— Eu falei pra você… — A voz do garoto ecoou pelo próprio espaço, aparentemente desimpedida dos escombros sobre si — SOLTA ELA!

 

Uma segunda onda de choque explodiu e arremessou os escombros para o ar numa velocidade que mais pareciam terem sido disparadas por uma catapulta. No instante em que o paladino ainda processava o berro, Lucet saltou para fora da casa e aterrissou sobre seus quatro membros, parecendo mais fera do que gente.

 

Ele se ergueu e urrou novamente enquanto disparava na direção do homem ainda mais veloz que antes, veias saltadas começando a decorar sua pele.

 

— SOLTA ELA!

 

Numa fração de segundo o garoto alcançou o paladino, sua lâmina negra em mãos. Mas, mesmo tendo demonstrado ainda mais poder, diante da rica experiência de combate e o poder do homem, outro tapa foi tudo que bastou para lançar Lucet voando como uma bala de canhão na direção de outra casa, colidindo com a estrutura e demolindo o lugar.

 

— N… Não… — A voz do garoto ecoou no espaço, alta e penetrante como um tiro, mas suave, feito um sussurro — Não… V… Vou deixar… Machucar ela… S… Solta… Ela…

 

Lucet, desta vez, se levantou com bastante dificuldade. Seus ossos doíam, e mesmo em seu estado de fúria, ele sabia que tinha ao menos uma dúzia de rachaduras espalhadas por seu corpo, isso sem contar seu rosto que ardia e sua cabeça que parecia girar.

 

No meio dos escombros ele agarrou a cabeça e respirou fundo, tentando estabilizar seu equilíbrio, e, após alguns instantes, ele começou a mover as pedras para fora do seu caminho, gradualmente emergindo do entulho diante dos olhos de sua mestra e do seu oponente.

 

— Olha só! — Alexander gargalhou — Ele ainda consegue se erguer! Mas que elfa sortuda você é, com um aluno dedicado desses dá até para duvidar se ele não é teu filho — ele riu — Mas como eu sei quem são os pais porcos dele… Porque será então que ele não desiste?

 

— O que exatamente lhe dá força? Me diga, elfa, que coisas obscuras você fez com a mente desse garoto para ele ser tão leal a você?

 

Kaella ficou em silêncio, seus olhos fitando apenas o garoto que mais uma vez se erguia, a garra que ela lhe dera de presente no último aniversário firme em sua mão que já ficava branca com o tamanho da força que ele estava exercendo. Os olhos dela encontraram os de Lucet, ela dizendo tudo que podia com seu olhar, implorando para que ele fugisse.

 

Lhe prometendo que daria um jeito de escapar e que o foco agora era a segurança dele, mas, para o desespero da mulher, tudo que ela encontrou nos olhos do garoto foi uma determinação letal que iria erguer o corpo do garoto quantas vezes fosse necessário para cumprir seu objetivo de salvar a vida dela. Fios de lágrimas correram pelo rosto da Alfae enquanto ela tentava se soltar com todas as suas forças.

 

Sua aura negra feito tinta batalhava ferozmente contra a aura branca flamejante do paladino, porém, sem qualquer sucesso.

 

Ela chutava, socava, atacava com joelhos e cotovelos e até mesmo tentava conjurar algum feitiço, mas, o sufocamento e a dor a impediam de se concentrar o suficiente para tal. A aura do paladino era como chama, extremamente quente, e tudo que ela conseguia fazer era não ser queimada pelas labaredas brancas.

 

Foi então que algo inesperado surgiu na vista do par de oponentes. Lucet que até aquele momento estava apenas aumentando seu poder inexplicavelmente, uma aura invisível surgindo ao seu redor, manifestou a verdadeira razão da súbita amplificação de seus poderes.

 

A aura do garoto, antes apenas uma pressão, ganhou cor e ganhou forma ao irradiar uma luz dourada na forma de um chama muito similar a que cobria o paladino.

 

As veias saltadas em seu corpo agora brilhavam na mesma tonalidade da aura, parecendo circuitos de ouro que ocasionalmente pulsava. Ele ergueu sua lâmina negra e apontou na direção do cavaleiro. O garoto fechou seus olhos e respirou fundo.

 

O ar começou a distorcer ao redor de Lucet enquanto a seu novo poder parecia ser compresso, sua aura flamejante diminuindo cada vez mais antes de convergir em sua mão.

 

O poder brilhante pulsou uma última vez e então, com uma explosão de luz que forçou até mesmo o paladino cercado de luz a fechar seus olhos, um novo armamento se manifestou no corpo do menino.

 

Quando o paladino abriu seus olhos novamente, ele viu algo que o deixou chocado. A mão do garoto, antes nua, agora estava coberta por uma manopla dourada cravada de runas acompanhada de armadura que cobria o braço até a junta do ombro.

 

A adaga negra que ele empunhava não existia mais, em seu lugar, a manopla segurava uma grande espada de fio dourado e vinco negro. Lucet então se pronunciou, sua voz firme e um tom mais grave do que antes.

 

— Alexander — Ele disse, seus olhos agora fixos no homem, suas palavras lentas e enraivecidas — Larga a minha mãe!

 

— Mãe? — O paladino disse, compreensão subitamente brilhando em seus olhos — Mas é claro! Agora essa determinação toda faz sentido! O verme meio-sangue que nunca viu os pais se apegou a coisa mais próxima para chamar de mãe, e ainda por cima, essa elfa burra aceitou e o trata como filho! Hah! Isso sim que é uma piada de qualidade!

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