Os Contos de Anima - Volume 2 - Capítulo 01

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Por centenas de anos que ainda iriam vir, o evento catastrófico que deu fim ao paraíso conhecido como Elysium, seria conhecido como a Crusada de Extermínio promovida pela então colossalmente poderosa Congregação de Puritas. Neste dia, a própria Santa Pontifícia de Puritas entrou no combate e enfrentou o líder de Elysium, conhecido como “Cavaleiro de Dragão”, Maximilian Von Hohenheim.

 

Quando combateram, tudo num raio de cem quilômetros tremeu. Enormes rachaduras partiram a terra onde Elysium se encontrava e dezenas de montanhas foram obliteradas com o formidável poder dos combatentes. O confronto, para os espiões de outras nações, fora descrito como a batalha entre um gigante de luz — que portava uma grande espada de luz — contra uma fera vermelha colossal e escamosa, que atacava com magias indescritíveis e seu enorme corpo que por si só era uma arma.

 

Naquele dia, porém, o que a história dos livros não reportou — no qual incluso estão as biografias tardias feitas sobre o ser a seguir — foi o pequeno, porém crucial, impacto daquele que um dia seria reconhecido como o “Monarca da Meia-Noite”.

 

Nesta batalha, o grande governante que na época tinha apenas quatorze anos e havia acabado de descobrir sobre um pouco de suas origens se viu numa situação de desespero onde lutou bravamente contra um paladino de Puritas a fim de salvar sua mestra e mãe adotiva, a guardiã de Lybra, Kaella Rubrum.

 

O combate foi brutal e teria sido fatal para o garoto se não fosse pelo despertar do poder latente deixado por seu pai biológico em seu sangue, que coincidentemente era o mesmo do paladino. O despertar desta nova habilidade usou a própria força vital do garoto como combustível para lhe conceder um poder muito maior que o seu, permitindo-o derrotar o paladino.

 

Poucos sabem deste confronto, e destes, muitos atribuem a vitória do garoto a mera causalidade e sorte. Nenhum destes que atribuem o combate à sorte conseguem chegar a uma explicação do porque o garoto não morreu após o combate, muito inclusive imaginando que o garoto recebeu o auxilio de uma divindade para sobreviver. Mas dentre os raros que conhecem a verdade, diriam que isto não seria uma estimativa tão longe da realidade.

 

「• • • 」

 

Numa terra distante, longe do conflito e destruição causada em Elysium, na morada dos belos seres de juventude eterna cuja maestria arcana é insuperável, no centro de toda pesquisa e avanço neste território, na nação da luz eterna, existe uma organização. Este lugar de mentes brilhantes e pesquisadores incansáveis, um lugar repleto de segredos e conhecimentos exclusivos, se tornou o santuário de um garoto.

 

Um garoto que possuía uma identidade perigosa e que muitos recusavam a aceitar, mesmo dentre esta que era a casa de uma das raças mais sábias de todo o mundo. Já faziam dois anos e nove meses que o jovem se encontrava desacordado. Seu corpo permanecia imóvel e o som de seu respirar era tão baixo que quase o fazia parecer um cadáver se não fosse pelo rubor de seu rosto e o bater do seu coração.

 

Neste tempo, a líder da organização permaneceu a todo momento ao seu lado, observando toda e qualquer mudança no corpo do garoto e preparando dezenas de feitiços, extratos, poções, medicinas, ervas e todo tipo de medida para salvar a vida dele, uma tarefa que ela estava determinada a pagar o custo que fosse caso se revelasse necessário. Apesar de preocupada, a bela líder de pele pálida, cabelos escarlate e olhos violeta jamais deixou de trabalhar e cumprir suas obrigações.

 

Neste momento, ela se encontrava sentada numa mesa provisória ao lado da grande cama que hospedava seu protegido. A mesa, apesar da natureza temporária, era tão boa quanto a que ela costumava usar em suas classes na vila de Elysium: Sólida, espaçosa, e com alguns encantamentos muito úteis para se comunicar com o resto da organização sem precisar se mexer dali que podiam ser facilmente ativados com um mero toque ou gesto de mão.

 

Neste momento ela vestia roupas mais confortáveis. Usava um vestido branco sem mangas muito semelhante ao que usara no dia do ataque a Elysium, com o distinto detalhe de que tinha mais que o dobro de proteções aplicadas do que antes.

 

Mesmo que não tenha ficado com qualquer marca permanente do encontro com o paladino, ela se recusava a ter tal descuido novamente, descuido esse que custou o garoto deitado na grande cama perto de si um braço e quase lhe custou a vida.

 

Ela estava sentada na cadeira, algumas pequenas pilhas de reportes e documentos à sua frente enquanto um quadro flutuante mostrava algumas que ela estudava. Seu rosto demonstrava o imenso tédio e desconforto de sua mente hiperativa de pesquisadora, além das preocupações instintivas de uma mãe.

 

Kaella sabia que Lucet iria ficar bem. O amuleto em seu pescoço, desde o dia que ele perdera o braço no combate e desmaiou ao derrotar o paladino, o guardava a chama da vida e a nutria, impedindo que as garras da morte levasse o garoto embora. Mas, vendo o tempo que passara desde aquele dia, o desespero lentamente agarrava-lhe o coração e a atormentava dia e noite.

 

A promessa divina que o menino carregava o prometia segurança apenas até a data em que completasse seus quinze anos, e para esta data se concretizar não faltavam mais que dois meses, o que a preocupava imensamente.

 

Ela temia que o tempo acabasse e o garoto não acordasse mais, entrando num sono eterno ou morrendo por ter queimado sua força vital para salvá-la, e caso isso acontecesse, ela não tinha certeza se conseguiria se recuperar pelo resto de seus potencialmente eternos dias.

 

Kaella havia ordenado que, com exceção de casos de extrema urgência, todos os contatos consigo fossem realizados através de dispositivos de comunicação mágica.

 

Hoje ela se sentiu muito irritada e frustrada com o trabalho acumulado e a situação de Lucet e por isso, quando bateram na porta do quarto, uma tinge de ira passou por seus olhos enquanto ela se levantou e caminhou até a porta lentamente, fazendo um esforço enorme para não agir de forma exacerbadamente rude para com este visitante.

 

Seus passos, leves, graciosos e mensurados, mal fizeram ruído enquanto andava. Linhas de luz se formaram e reluziram por um instante em seu vestido e sandálias enquanto a aura negra feita tinta da Alfae cobria seu corpo e energizava suas defesas ao passo que um grosso cinto de couro negro repleto de pequenos bolsos com um par de espadas curtas atadas aos lados surgiu na cintura da feiticeira que já se preparava para o combate, seus músculos ocasionalmente tensionando.

 

Ela aproximou sua mão direita ao cabo de sua espada curta quando estava a três passos da porta. Tendo em mente os inúmeros guardas e protetores de Lybra e também todas as proteções implementadas na região, a mulher achava difícil que qualquer um pudesse chegar até aqui sem ser descoberto, mas, como Lucet estava ao seu lado, ela se preparou para agressão máxima e declarou.

 

— Deixei ordens bem claras de que todas as mensagens e comunicações direcionadas a mim devem ser feitas por meios mágicos — Kaella disse, sua voz fria e agressiva — Quem é você e o que faz aqui?

 

Porém, diferente de uma voz intrusa e estranha que esperava, a Alfae escutou um tom antigo e nobre que a muitos anos não fora capaz de escutar.

 

— Sabe que aprecio seu trabalho e compreendo teu dilema, Kaella — A voz disse, paciente — Mas, creio que isto não é um comportamento aceitável para alguém de sua posição, especialmente quando se considera a minha.

 

A porta do quarto emitiu diversos sons e cliques, um relampejo de luz e então lentamente se abriu, como se empurrada por uma brisa. Conforme o espaço ia aumentando, a mente ligeira da Alfae prontamente percebeu que o dono da voz era exatamente quem ela esperava ser. Aguardando na entrada estava um Alfae altivo que parecia inalcançável até mesmo se comparado à Kaella, seu corpo emanava uma pressão invisível que demandava obediência e exalava nobreza e prestígio.

 

Era como se a Alfae estivesse diante de um monumento e não um simples ser como ela. Ele vestia uma simples veste azul celeste simples que cobria todo o corpo, porém com aberturas laterais na região das pernas onde as calças, do mesmo tom da veste, se mostravam e terminavam numa bota negra que ia até a metade da canela do ser.

 

Ao se olhar de perto era possível encontrar entrelaçado às linhas da veste traços de cor dourada, o que indicava que a veste também era reforçada com fios de metal encantado para aumentar a sua durabilidade.

 

Seu cabelo era longo e disposto totalmente para trás, sua cor era dourada, como se fosse feito do mais puro ouro, que reluzia com a luz do ambiente ao passo que seus olhos, igualmente dourados, brilhavam com um poder indescritível que parecia ser capaz de desvendar em instantes qualquer segredo do mundo.

 

Sua pele era pálida, um tom mais escura que a de Kaella, mas ainda assim praticamente branca. Uma de suas mãos repousava na bainha de sua espada atada à sua cintura enquanto a outra segurava alguns papéis luminosos, porém feitos com um material de aparência muito antiga.

 

Kaella relaxou instantaneamente e prontamente se ajoelhou com um joelho, sua cabeça curva, uma de suas mãos cerrada num punho em cima de onde estaria seu coração e a outra virada em suas costas. Ela então disse, sua voz mais receptiva, porém respeitosa e solene.

 

— Vossa Alteza Lucis Regios — ela disse — Seja bem-vindo ao meu humilde aposento. Se me permite inquirir, a que devo esta visita?

 

A atmosfera no quarto permaneceu silenciosa por alguns instantes, porém, logo foi rompida por uma pequena tossida do Alfae na porta, que logo foi seguido por um breve riso, cujo Kaella, que aquela altura também não conseguia segurar mais, acompanhou com seu próprio riso melódico. O Alfae mexeu um dos dedos que reclinava sobre a joia no cabo de sua espada e liberou uma radiante aura dourada que prontamente ajudou a Alfae a se erguer.

 

— Ora, minha velha amiga — ele comentou com um sorriso nos seus finos lábios — Desde quando é tão reverente diante de mim? Desde que a conheci e a nomeei “Guardiã de Lybra”, nunca se portou com tamanha etiqueta.

 

— E quando foi que você se tornou tão imperioso diante de mim, Lucis — Ela riu — Depois que seu pai abdicou do trono para viajar o mundo na fortaleza voadora pessoal dele e você assumiu o posto de monarca de nossa raça, você sempre foi justo, decisivo, mas nunca imperioso. Acordou do lado errado da cama? Ou será que foi Elysia que lhe deixou assim?

 

O monarca gargalhou enquanto estalou os dedos que descansavam sobre o cabo da espada. Uma luz brilhou na porta e ela prontamente se fechou antes de ressoar com vários sons e cliques enquanto as defesas eram reativadas.

 

— Felizmente Elysia tem se contentado com seus deveres como a primeira dama de nossa raça — Lucis disse com um sorriso em seu rosto, seus olhos brilhando com luzes inexplicáveis que certamente escondiam inúmeros segredos — Ela ainda não deseja um sucessor e trabalha arduamente para melhorar as relações com outras raças, além de negociar acordos, resolver disputas e passar julgamentos sobre causas criminais. Nossa união tem sido próspera, muito graças aos seus esforços, minha amiga.

 

— Você nunca esteve tão correta em suas decisões, minha amiga — O monarca concordou, sua expressão gradualmente se tornando mais séria, seus olhos ocasionalmente passando pelas folhas luminosas em sua mão — E em tempos tão atribulados quanto os nossos, toda luz e porto seguro é um auxilio contra as sombrias tempestades que nos cercam.

 

Kaella finalmente observou Lucis com atenção e viu as folhas, sua expressão endurecendo e se tornando preocupada.

 

— A queda de Elysium causou muitas tempestades por toda Anima — Ela falou, sua voz baixa e solene — Percas incalculáveis no progresso das artes, Centenas de relíquias destruídas por aqueles malditos imbecis da congregação, a aniquilação da floresta e dezenas de quilômetros de vegetação e fauna e também… — Ela então pausou, sua expressão se retorcendo levemente enquanto seus olhos corriam a imagem do garoto deitado sobre a cama ao lado de sua mesa.

 

Lucis observou o comportamento da Alfae, seus pensamentos um mistério enquanto uma expressão mais suave e gentil floresceu em sua face. Ele se aproximou da mulher e repousou a mão de sua espada em seu ombro.

 

— O que aconteceu ao garoto foi lamentável — ele a confortou — Mas a morte de um talento como o dele não é a mais devastadora das crises.

 

Rápido feito um relâmpago, o rosto da Alfae se virou e o olhou diretamente nos olhos. Uma aura negra e violenta irrompeu de seu corpo enquanto todo seu corpo tensionou, prestes a atacar. Seus olhos brilhavam perigosamente como relâmpagos enquanto ela falou, lenta e agressivamente.

 

— Ele. Não. Morreu!

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