Os Contos de Anima - Volume 2 - Capítulo 02

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A aura da Alfae, negra como tinta, já era normalmente ameaçadora. Era a demonstração de um poder invasivo e misterioso, algo que podia alcançar e atacar a todos , mas que, simultaneamente, demonstrava uma proteção poderosa aos seus aliados. Nos anos em que conheceu a guardiã, o monarca Lucis já tivera a oportunidade de confrontar sua súdita.

 

Ela era formidável em combate, não por seu poder puro – pois esta não era sua especialidade –, mas por sua agilidade e estratégia. Diversas vezes ele foi capaz de observar a proeza tanto tática quanto mágica da mulher.

 

Contudo, neste momento, ela irradiava algo muitas vezes mais perigoso do que ele já fora capaz de presenciar. Se antes ela era uma estrategista e aliada em quem ele sempre poderia contar e confiar em suas habilidades , agora ela se mostrava hostil e letal, como uma adaga pressionada contra sua garganta.

 

Olhar para ela naquele momento fazia com que o monarca se visse frente a uma fera selvagem, tenaz e imparável diante da morte, ferrenhamente determinada a exterminá-lo se ele desse mais um passo errado ou falasse qualquer palavra que fosse. Qualquer pessoa diferente dele teria se submetido a essa aura e teria se curvado diante deste poder , porém, ele não era outra pessoa.

 

— Humpf!

 

Uma aura azul explodiu do corpo do monarca e sobrepujou em meros segundos a aura negra , fazendo-a retroceder tanto que ela não conseguia sair mais que dez centímetros para fora do corpo. Os olhos do monarca reluziam com poder e dignidade ao passo que sua aura apenas aumentava em intensidade.

 

De começo, a aura azul era muito próxima a algo transparente, quase ilusório , mas conforme o monarca exercia seu poder, a aura se tornava mais densa, quase sólida, e sua cor se tornava mais vívida.

 

Ao passo que Lucis, por fim, deixou de aumentar a pressão, Kaella já se encontrava de joelhos que partiam o chão reforçado com mana. Seu poder envolvia a sala de tal maneira que mais parecia um profundo oceano repleto de misteriosas luzes e sons, com movimentos esguios por todos os lados de criaturas indistinguíveis.

 

— Ainda pensa em me desafiar, Kaella? — Ele disse, sua voz ecoando pelo espaço azul — Já lhe mostrei devida gratidão e respeito neste tempo em que retornaste, e ainda assim, ousa erguer suas garras na minha direção?

 

Kaella, cuja fúria fora freada pelo intenso poder do monarca, começou a raciocinar melhor, sua mente agora uma bagunça de emoções. Ela juntou o pouco de força que ainda conseguia expressar diante de tamanha pressão e começou a falar.

 

— Parabéns pelo avanço, Vossa Alteza — Ela disse deferencialmente — É uma honra vivenciar a majestade de uma “Lei”.

 

Talvez as palavras da Alfae tiveram algum efeito em acalmar o monarca, pois em seguida a aura começou a diminuir sua pressão ao ponto de a permitir se levantar, ou ao menos isso foi seu pensamento inicial. Contudo, quando se deu conta do que realmente estava acontecendo, ela quase caiu de joelhos novamente, reverenciando o novo poder presente. A aura oceânica foi sendo suprimida por um novo poder que imperou ao irromper na atmosfera do local.

 

Se antes a sala parecia um oceano profundo, agora parecia mais uma pintura vazia. Antes mesmo que o poder do monarca pudesse ser analisado e apreciado por Kaella, o mesmo foi vítima da supressão alva e qualquer esperança da mulher de aprender um pouco mais sobre o reino das “leis” foi dizimada.

 

Tudo desapareceu e o que sobrou no espaço foram apenas as auras de Kaella e Lucis que desesperadamente resistiam o novo poder , e a imensidão do poder branco e dourado que acobertou a tudo que tocara com tinges de pura luz que atribuía uma tonalidade sacra para o espaço.

 

O par nada podia ver, ouvir, sentir ou fazer diante de tal força. Era como se o poder majestoso do monarca fosse apenas uma tosca piada frente a tal manifestação energética que o fazia sentir, tal como muitos que o veneravam, pequeno e frágil, como uma criança a enfrentar um adulto.

 

Fora do espaço daquele quarto onde o par enfrentava esta situação, as restrições e reforços mágicos postos sobre o território da casa real de Lumina não surtiam qualquer efeito e essencialmente eram como se não existissem.

 

Não havia nenhum sinal de alarme ou problema e todos continuavam tranquilos com seus afazeres e rotinas. Nos grandes salões sociais, viajantes de toda estirpe e raça conversavam e negociavam sob a proteção, julgamento e regras da bandeira da raça dos mais poderosos magos de toda Anima.

 

Nestes salões, conhecidos também como “Salões Mercantes da Coroa”, todos eram não apenas bem-vindos, mas incentivados a vir. Com diversas regras para a proteção dos negociantes, juízes imparciais advindos dos Alfae e numerosos métodos para garantir uma justa transação entre os pares, o ambiente era muito atrativo para qualquer que fosse o ser desejando comprar ou vender.

 

Graças à imensa popularidade e reputação da raça de seres eternamente jovens e sua colossal sabedoria em quase todo tipo de estudo e assunto, além de seu caráter como raça de negociantes imparciais e geralmente bem lucrativos, os Alfae atraíam para estes salões sob a vigilância direta do monarca uma variedade de produtos tão grande, que eram reputados com a seguinte frase.

 

— Se quer achar alguma coisa, vá aos salões dos jovens eternos, se lá não encontrar, então é mais fácil que desista pois o que procura provavelmente não existe, e se existir, já tem um dono muito ganancioso.

 

A frase não apenas se referia aos mercantes e viajantes que por ali passavam com frequência trazendo oportunidades para quem fosse capaz de obtê-las, mas também aos estoques de itens raros que estavam sob a guarda do monarca e sua corte mágica.

 

Além de realizarem trocas entre si, muitos dos viajantes e mercantes iam aos salões em busca de itens raros, afinal, até onde sabiam, dificilmente existiria outro lugar em Anima que pudesse conter seus prêmios desejados, pois, se o que buscavam não estivesse no coração de toda a magia, diplomacia e negociação de Anima, onde exatamente deveria estar?

 

Longe da explosão de luz branca, muito distante de qualquer multidão ou olhos bisbilhoteiros, num salão mais longínquo onde agora apenas transações mais reservadas e de pequena escala com grande preço eram realizadas, um trio de figuras encapuzadas de vestes negras se encontrava sentado diante de um par de senhores Alfae em vestes verde-esmeralda.

 

Diante deles havia uma mesa circular feita de mármore repleta de linhas, escritas e símbolos que ocasionalmente liberavam partículas de luz e pulsos de som enquanto continham dentro de uma bolha de luz que flutuava no centro da estrutura um pequeno baú.

 

O baú era mais ou menos do mesmo tamanho de uma caixa de joias , e, de acordo com o andar da discussão entre os cinco, carregava algo imensuravelmente mais valioso que qualquer gema ou pedra preciosa que possa ser encontrada nas profundezas da terra.

 

— Sabemos que encontrá-lo não foi nada simples para vocês, mestres Alfae — Um dos três encapuzados disse, sua voz soando um tanto como metal enferrujado rangendo ao ser dobrado — Afinal, este item é algo que, fora dos pertences de nossa mestra, é praticamente inexistente e como ela, mesmo desejando alcançar o herege, não pode se dar ao luxo de desperdiçar um dos últimos deste produto existentes em seu estoque, nos foi dada a missão de encontrar um por quaisquer meios necessário, mas felizmente, os salões mercantes não decepcionam com sua maestria e riquezas de raridades.

 

— Mas ainda assim — A figura encapuzada logo ao lado da primeira continuou — Seu pedido para barganha é simplesmente inaceitável. Pedir por um medalhão prometido em troca de um compasso celeste é desigual e simplesmente não podemos aceitar. Ouro, joias, tesouros de todos os tipos, técnicas e até informações privilegiadas podemos oferecer, mas uma dádiva divina só pode ser ofertada por nossa mestra, não possuímos esta autoridade.

 

— Está, porém, é a nossa exigência — Interrompeu um dos Alfae — Com muito esforço fomos capazes de encontrar esta relíquia numa ruína de nosso povo, uma particularmente perigosa, devo dizer.

 

— Exatamente — Continuou o segundo — Grandes sacrifícios foram feitos para assegurar vosso pedido. Um preço justo é sempre oferecido por qualquer tesouro, esta é a lei dos salões mercantes. Vinte guerreiros Alfae de elite pereceram na exploração para assegurar que isto retornasse, se não conseguíssemos uma recompensa adequada por este compasso, como deveríamos explicar as famílias destes nobres falecidos a sua morte que fora, essencialmente, em vão para obter uma coisa que Alfae nenhum é capaz de usar sem requerer ainda maiores sacrifícios?

 

O pequeno baú flutuava calmamente dentro da bolha de luz. O clima tenso da negociação não surtia nenhum efeito sobre o item, por mais que a essa altura os dois grupos já estivessem pressionando um ao outro com suas auras brilhantes.

 

De um lado da mesa, o trio de vestes negras irradiava chamas brancas de seus corpos enquanto que do lado oposto, o par de vestes esmeralda irrompia com ondas verdejantes de poder e, mesmo em desvantagem numérica, conseguia manter uma leve vantagem no embate energético.

 

— Não sejam presunçosos, elfos — A figura encapuzada do meio rosnou, sua voz tão seca que parecia ter areia raspando dentro de sua garganta — Sabem bem quem é nossa mestra e seu poder, ousam nos pressionar?

 

— Talvez em outro lugar — Disse um dos Alfae lentamente, um leve sorriso cruel surgindo em sua expressão pálida — Não ousaríamos, mas aqui, no coração de nossa raça, sim, nós ousamos.

 

Mal as palavras do Alfae tiveram tempo de ecoar quando os cinco simultaneamente retraíram sua energia e olharam numa direção específica. Seus instintos gritaram e eles conseguiram se proteger a tempo de uma onda invisível de força que, se não fosse por retraírem seu poder e reforçar todas as suas defesas, teriam sido exterminados ali e agora.

 

Os Alfae sabiam imediatamente que se tratava da câmara onde a guardiã da Lybra cuidava de uma criança em coma há mais de dois anos , mas, não sabiam o que exatamente os alarmava tanto.

 

Até onde seu conhecimento alcançava, aquele quarto era um local de repouso e não deveria conter quaisquer medidas ofensivas desta escala, apesar da qualidade das defesas instaladas no local. O trio encapuzado, porém, apesar de não fazer nem a mais remota ideia de que espécie de lugar existia naquela direção, sabia exatamente o que os chamava a atenção. Apesar de invisível, a familiaridade com a imensa aura vinda dali era inconfundível, afinal, era esse mesmo tipo de aura que eles utilizavam.

 

Mas, os três logo chacoalharam suas cabeças e dispensaram esta ideia. A aura ali, se comparada a deles, era como a de uma montanha encarando um fragmento de pó, infinitamente superior. Naquele instante, apesar de não saberem disso imediatamente, os três tiveram uma revelação que mais tarde os permitiu avançar em seu treinamento, e também os trouxera grande perigo perante sua mestra.

 

Aquele poder não era simplesmente superior ao deles, era algo mais significante que isso, era como se o que eles usavam fosse apenas uma sombra, uma mera cópia fajuta de uma cópia mal feita daquele poder.

 

Os cinco se levantaram num piscar de olhos e, tentando disfarçar suas intenções, rapidamente inventaram desculpas para sair dali e disparar naquela direção. O par de Alfaes desapareceu num corredor aleatório e começou a contatar todos que conseguiam, averiguando reportes de danos e prejuízos ao misterioso ataque aos aposentos da guardiã. Descobriram que o monarca havia entrado na sala momentos antes para conversar com a guardiã, mas que não saíra desde então.

 

Aparentemente, a onda de força apenas atingiu seres vivos, deixando todo material inorgânico intacto ao seu toque destrutivo. Mais de cem jovens cadetes Alfae em treinamento nas arenas de combate morreram com os restos da força misteriosa, dezenas de guardas, serviçais e instrutores, além de centenas de viajantes e mercantes de outras raças que estavam nas área dos Salões Mercantes foram severamente feridos pelo “ataque” surpresa.

 

Os salões reais prontamente foram postos em estado de emergência e começaram a ser selados. Os guardas capacitados para combate estavam a postos e ajudaram os esquadrões médicos que em instantes surgiram através de diversos portais ligados a outras estruturas da capital a identificar e resgatar os Alfae em risco de vida que ainda poderiam ser salvos.

 

Com eficácia exemplar, os profissionais reduziram grandemente o que poderia ter sido uma grande perda para as forças Alfae e ainda por cima, tal como esperado da raça com a reputação de melhores e mais habilidosos negociantes e mercadores de Anima, conseguiram gerar um grande lucro com primeiros socorros e subsequente tratamento hospitalar.

 

O trio encapuzado, porém, fugiu rapidamente dos salões. A onda de força era um sinal, um que procuravam mas não tinham esperanças de encontrar sem o tesouro que estavam negociando. Mesmo assim, como se a providência do verdadeiro deus estivesse ao seu favor, sua busca foi um inesperado sucesso.

 

Mas a situação não era simples. Mesmo sabendo da localização da promessa divina, não podiam simplesmente ir atrás dela quando ela estava na capital da monarquia de uma das cinco grandes com apenas o seu presente poder.

 

Portanto, sua ideia era escapar da capital o quanto antes e chamar por reforços para que pudessem infiltrar novamente e recuperar o item. O destino, por outro lado, tinha outros planos para o trio, e antes mesmo que pudessem chegar ao portal mais próximo para escaparem do território real, um flash de luz verde brilhou em frente aos três sem lhes dar um instante sequer antes de os envolver e, no momento seguinte, desaparecer, levando o trio consigo sem deixar qualquer rastro que os seres tivessem existido.

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