Os Contos de Anima - Volume 2 - Capítulo 45

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Com dúvidas em sua mente, Lucet avançou como um raio saltando de árvore em árvore. A distância entre ele e o oponente encurtava cada vez mais a cada salto e a aura poderosa da natureza só crescia, ao ponto de que o garoto sentia seu corpo ficando agitado.

 

— Tch! — ele reclamou ao dar um salto para o lado e chutar uma árvore para se direcionar à próxima, girando o seu corpo no processo e cortando o ar com a garra para destruir o crânio de uma das feras ósseas, parecida com um esquilo, que saltou de um galho acima de si e tentou lhe golpear a cabeça.

 

Ao observar o mapa, percebeu que enquanto saltava nas altas copas da floresta, as feras abaixo já haviam se aproximado muito de sua posição enquanto corriam para proteger seu mestre. — Ah, legal! — Lucet disse ao despedaçar mais um esquilo ósseo — Não bastava esse cara me invocar cem dessas feras, mas ainda por cima ele consegue controlá-las com habilidade o bastante para comandá-las como se fossem tropas, atacando e recuando com facilidade. Já não estava difícil, agora vai ficar pior.

 

Mais uma vez analisando o mapa, ele aterrissou num galho e ali parou, observando a formação do oponente. Graças às quarenta e quatro feras que ele demoliu desde o início do combate, Lucet reduziu o número das tropas do oponente para cinquenta e seis. Além disso, pelo que pôde notar, o oponente não parecia ser capaz de criar mais tão rápido pois, caso pudesse, já o teria feito ao notar a destruição de tantos dos seus soldados.

 

Alguns momentos de estudo depois, Lucet determinou que o oponente era certamente inteligente. Ele dispôs dez elefantes, que ele reconheceu como pontos de aura da vida mais reluzentes no mapa, em volta de si combinados com dez tigres e vinte lobos, enquanto o restante das feras eram criaturas menores que voavam ou aguardavam para atacar furtivamente.

 

— Toda essa recepção só para mim — o garoto riu ironicamente — Me sinto até lisonjeado, heh! — Lucet respirou fundo e então se deixou cair do galho, caindo por alguns instantes antes de chutar a árvore em que estava e saltar para o próximo tronco.

 

Nesses momentos em que “voava” pela floresta, o garoto começou a sentir o quão realmente grandes tinham sido as mudanças do seu corpo. Com seu corpo de quase três anos atrás, ele dificilmente conseguiria se manter por tanto tempo saltando de uma árvore para outra. Além disso, a força do seu braço havia crescido o suficiente para destruir os oponentes de ossos reforçados com facilidade, mas isso ele reconhecia que era obra da garra melhorada.

 

Após alguns minutos, Lucet se viu perto do que havia de mais próximo e parecido com uma clareira que pôde encontrar. Lá, ele conseguiu avistar a figura mascarada com seu cajado cuja orbe verde brilhava como uma estrela e, se não fosse pelo seu Olho do Tirano filtrando quase toda a luz com sua tinge azulada de visão, ele teria sido cegado.

 

Sem perder tempo, ele carregou o máximo de mana que seus músculos da perna suportaram no meio do ar e então, quando tocou seus pés num galho, se inclinou para baixo e, antes de cair, empurrou com as duas pernas com toda a força que pôde. Disparou na direção de um dos elefantes com tamanha velocidade que eles não puderam reagir quando ele pousou como um fantasma e prontamente pisoteou o chão, injetando sua aura de sombras no solo.

 

O chão tremeu por alguns momentos e, antes que os animais ósseos fossem capazes de escapar ou retaliar, lanças de rocha carregadas de mana saltaram feito flechas do solo e impalaram o cerco de quarenta feras, rapidamente destroçando as defesas. Lucet ergueu seu rosto e olhou para o oponente, visivelmente empolgado com um largo sorriso decorando seu rosto.

 

A figura virou-se para Lucet e se ergueu, fincando o cajado no chão, fechando o livro em suas mãos e murmurando algumas palavras. Lucet notou que em seu mapa todos os pontos de luz, com exceção do oponente à sua frente, foram rapidamente desaparecendo.

 

— Então será assim? — Lucet questionou — Não vai usar seu cajado para aumentar seu poder ou para atacar?

 

O oponente deu uma leve chacoalhada com a cabeça e então respondeu com uma voz estranha, que ao mesmo tempo parecia suave como a dos Alfae e feral como a dos Faeram. — Este cajado apenas amplifica minha emissão e controle da energia vital para que eu possa convocar mais servos de ossos — ele disse — Porém, tendo em vista que sua arma e suas técnicas conseguem destruí-los com tanta facilidade, não vejo propósito em continuar usando-o. Além disso, este cajado é frágil demais para usar como um bastão.

 

Isso dito, ele cobriu o cajado e o livro com sua aura verdejante e então, após um gesto de mão, os guardou num equipamento dimensional no formato de um colar que ele usava em seu pescoço. O oponente então se virou para Lucet e disse: — Soube que derrotou uma Faeram quando era mais novo.

 

— Sim, eu derrotei mesmo — Lucet concordou com um aceno da cabeça — Não foi nada fácil, sua raça é muito forte.

 

— Então acredito que já saiba que contra mim você não terá chance alguma, correto? Afinal, você enfrentou uma novata sem experiência de combate real. Se comparar a força dela contra a minha, sofrerá bastante.

 

— E você acha que eu não sei? — Lucet riu e adotou uma posição de combate com seus joelhos levemente dobrados, sua lâmina erguida na altura do pescoço e posicionada horizontalmente — Mas eu não planejo subestimá-lo, ou perder.

 

— Que assim seja, meio-sangue — o oponente respondeu — Espero que me mostre um combate tão interessante quanto os anteriores. — Não se preocupe — Lucet retrucou com um sorriso confiante — Não sou de desapontar!

 

Uma aura verde flamejante cobriu a figura do oponente mascarado ao mesmo tempo que a aura cinzenta de Lucet surgiu como névoa ao redor de si e, com um simples passo de cada um dos combatentes, o conflito iniciou. Lucet pisou com força no chão e acelerou, sua garra cortando o ar diagonalmente no intuito de desferir um grande ataque contra o oponente que também avançava contra si.

 

O mascarado, porém, saltou na direção oposta do corte e desviou do ataque de Lucet, rapidamente pisoteando o chão e acelerando contra o lado desprotegido do garoto que não possuía um braço. O Olho do Tirano em Lucet reluzia levemente com a mana que o garoto infundia nele, dispensando qualquer outra função que não fosse o efeito de desacelerar o mundo aos seus olhos para conseguir reagir.

 

Apesar destes efeitos, porém, Lucet era obrigado a admitir que o oponente era veloz, pois até mesmo no mundo azulado onde o próprio vento parecia se arrastar no espaço, o homem avançava em alta velocidade. Não era nada próximo à velocidade gerada pelo Lampejo, mas ainda assim era algo a que ele não fora capaz de reagir rápido o suficiente.

 

Sem escolha, Lucet jogou seu corpo para o chão e conseguiu desviar da mão do homem que havia estranhamente crescido e se tornado peluda, com garras negras grandes feito canivetes, por um triz não lhe rasgando as vestes e o corpo. Antes que pudesse pensar, Lucet viu a garra do oponente vindo em sua direção de cima no intuito de rasgá-lo em dois.

 

Ele reagiu a tempo e desferiu um corte veloz contra a palma do atacante, facilmente cortando seus pelos, pele e músculos. Se não fosse pela velocidade com que o inimigo conseguira retrair sua mão, Lucet era capaz de apostar que teria lhe decepado uma parte da mão naquele ataque. Mas, sem sequer poder comemorar, o garoto viu um poderoso chute vindo em direção ao seu torso.

 

Sem alternativas, Lucet tensionou o corpo, carregou a região e seu braço com toda mana de que fora capaz e se protegeu o melhor que conseguira. Um baque surdo ecoou alto nos ouvidos de Lucet, seguido de uma imensa dor nas suas costelas e braço que receberam o ataque, o qual acabou por o erguer do chão e mandá-lo voando pelo ar.

 

Porém, sem ter conseguido voar um metro sequer, o oponente o alcançou com uma súbita aceleração. Quando Lucet olhou para os pés do homem, tinham se tornado tais como os de um lobo, com garras negras, ossos longos e pelos cinzentos, facilmente chegando ao garoto e o agarrando pelo braço antes de o virar por cima do corpo e o atirar na direção oposta.

 

Lucet bateu de costas no chão e sentiu um gosto metálico subir à sua garganta, ao passo que seus músculos e ossos protestavam contra o impacto transmitindo ondas de dor. Isso diminuiu por um breve, e doloroso instante, sua capacidade de reação, que o homem aproveitou para chegar até si e o erguer pelo colarinho de sua camisa.

 

O garoto, porém, reagiu e encolheu seu corpo antes de disparar um chute duplo no torso do oponente e usar o impulso para se desvencilhar. No instante que aterrissou, pisoteou o chão novamente e mirou uma estocada contra o peito do mascarado. O oponente respondeu de maneira inesperada, dando dois curtos saltos para trás antes de mirar um chute na mão do garoto.

 

O golpe fez a lâmina negra voar para longe e ser fincada numa árvore, ao passo que Lucet sentiu os ossos da sua mão racharem apesar do reforço de mana. Sem se deixar abater, Lucet pisoteou o chão com força e ergueu uma pedra abaixo de si para lhe dar impulso, disparando feito uma flecha e mirando uma joelhada voadora na direção do rosto do oponente.

 

Ele usou sua mão para puxar a perna do oponente na sua direção e dar a si mesmo ainda mais velocidade, desequilibrando o homem no processo. — Te peguei! — Lucet exclamou quando sentiu seu joelho rachar a máscara e atingir o rosto por trás. O oponente caiu e rolou três vezes para trás antes de saltar e se pôr de pé.

 

Quando Lucet, porém, viu o rosto do guerreiro, ele ficou ambos surpreso e temeroso com a aura assassina que agora irradiava do homem. Diante de si, o homem de feições Alfae se mostrava… Bestial. Apesar de ter características claramente da raça mágica, neste momento algumas delas se mostravam estranhamente feras.

 

Seus olhos pareciam diferentes, um pouco maiores e de cor dourada, com suas orelhas mais grossas e peludas. Uma espécie de pelugem cinzenta cobria parte do rosto, quase como uma barba, ao passo que seu nariz crescia, afinava e começava a parecer algo entre um nariz humanoide e um focinho. O oponente havia se tornado mais muscular, suas vestes ficando mais justas enquanto sua altura havia aumentado dez ou vinte centímetros.

 

— Você é… Como eu? — Ele disse lentamente, sem saber como reagir à súbita revelação. — Não sou como você! — Ele rugiu, sua boca mostrando as presas afiadas — Você é um meio-sangue! Um corvo! Um ninguém! Eu sou qualquer coisa, menos isso! E você vai me pagar pelo que fez!

 

Lucet não teve tempo de terminar sua frase quando o homem desapareceu e, no instante seguinte, reapareceu acertando um soco em seu plexo solar. O golpe o fez não apenas perder todo o fôlego e as forças, como também sair voando por metros e bater contra uma árvore que rachou com o impacto.

 

Cuspindo sangue, Lucet notou seus sentidos falhando. Seus ouvidos zuniam enquanto sua visão rapidamente escurecia, um frio tomando conta de seus membros. Seu corpo parecia rodopiar, o ar se recusando a entrar em seus pulmões por mais que se esforçasse; seu corpo caiu de joelhos no chão.

 

O garoto trouxe uma mão ao peito, apertando desesperadamente enquanto tentava fazer sua mana se mover e estabilizar a região. Porém, antes que conseguisse, sentiu seu corpo ficando mais leve ao passo que viu o rosto estranho do oponente cujas feições descansavam entre os Alfae e Faeram.

 

A grande mão de garras negras e pelos cinzentos se fechou em volta do seu pescoço e rapidamente apertou. Lucet, que neste momento finalmente havia começado a sentir alguns fios de ar em seus pulmões, rapidamente se desesperou pois os necessários goles de ar adicionais não vieram.

 

Seu coração martelava violentamente em seu peito na tentativa frenética de trazer ar para o corpo. Foi então que o garoto, olhando diretamente nos olhos do homem, viu que ele estava se deleitando com o sofrimento alheio, e isso deu a Lucet uma ideia; uma dolorosa, mas provavelmente a única chance de vitória.

 

Ele agarrou o braço do homem e puxou seu torso para cima com tudo que pôde, conseguindo uma pequena chance de respirar com a súbita resistência. Puxou o máximo de fôlego que conseguiu, reunindo suas forças para então desferir um chute no ombro do homem que, apesar de não lhe soltar, relaxou o aperto por tempo o suficiente para que Lucet pudesse tomar outro fôlego.

 

O homem rosnou e então mirou um soco contra o plexo solar de Lucet, mais uma vez o fazendo voar com a força do golpe, colidindo contra uma árvore a alguns metros da anterior. Apesar de um sádico, o homem sabia que não podia dar chances do garoto resistir novamente. Num piscar de olhos, alcançou o garoto e o levantou novamente.

 

Desta vez, com sua mão no formato de uma lança com os dedos retos e esticados, o homem se preparou para dar o golpe final enquanto segurava Lucet pelo pescoço, pronto para lhe arrancar o coração. Com seus olhos ferozes cravados nos do garoto, ele disse num rosnado cruel:

 

— Este é o preço do seu crime, meio-sangue. Nem mesmo a guardiã pode salvá-lo, afinal, você desafiou o rei. Agora pague o preço por sua arrogância e estupidez.

 

Lucet tossiu sangue e então, com um sorriso confiante no rosto, disse: — Vai se ferrar, seu hipócrita! Você é, sim, que nem eu… — ele disse com alguma dificuldade — Aliás, você é pior! Em vez de aceitar sua linhagem e extrair poder disso, fica se escondendo, hah! Covarde!

 

O homem o olhou chocado, a resposta do garoto o distraindo por um segundo, que para Lucet foi mais do que o suficiente. Quando fora golpeado pela segunda vez no plexo solar e fora arremessado na árvore, ele já havia se preparado e concentrado toda sua energia para reforçar o ponto de impacto.

 

Apesar de o impacto contra a árvore ser dolorido, isso não havia sido o suficiente para lhe machucar tanto. Quando pareceu estar convulsionando em busca de ar, na verdade estava apenas fingindo, usando aquele tempo para direcionar vagarosamente sua aura da fé para sua perna direita, a fim de não deixar o oponente descobrir sua farsa.

 

No instante que o inimigo travou de surpresa, Lucet comprimiu a aura da fé depositada em sua perna e, após surgir uma bota dourada em seus pés, executou o Lampejo com apenas uma perna. Desferiu uma joelhada instantânea que partiu pelo menos oito costelas do oponente, fazendo-o cuspir sangue e cair no chão.

 

Sem perder tempo, ao tocar o chão, Lucet saltou e virou uma cambalhota no ar. Executou o Lampejo mais uma vez com apenas uma perna e mirou um golpe com seu calcanhar que reluzia com a bota dourada, instantaneamente acertando o inimigo com um golpe brutal que lhe partiu o esterno e feriu seus órgãos internos.

 

De repente, Lucet sentiu seu tornozelo ser pego pelo oponente antes que pudesse retirar seu pé. Entretanto, completamente enfurecido, o garoto colocou todo o peso de seu corpo sobre a perna presa e carregou-a com energia, invocando a bota dourada antes de executar um Lampejo à queima-roupa no peito do inimigo.

 

A técnica liberou um pulso de chamas brancas antes de empurrar o Alfae para dentro da terra, desvencilhando seu pé no processo. — Tch! — Lucet disse, olhando para o homem agora inconsciente enquanto sentia seu peito com a mão, analisando os ferimentos — Maldito! Me fez gastar aura da fé com você!

 

O garoto falou irritado, caminhando lentamente em direção à árvore onde se encontrava sua arma cravada enquanto cuspia sangue e circulava sua mana para tentar acelerar a recuperação dos danos sofridos.

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