Os Contos de Anima - Volume 2 - Capítulo 46
Retirando sua arma da árvore, Lucet grunhiu com o esforço ao sentir a dor das trincas nos ossos do seu braço e mão. Além disso, quando respirou com um pouco mais de esforço para tentar suportar com mais facilidade a dor, sentiu pontadas dolorosas em seu plexo solar, esterno e costelas.
Ao circular sua mana pela região, ele notou que os ossos e tecidos estavam danificados, contendo trincas e lesões internas consideráveis. “Droga!”, Lucet reclamou em sua mente, “Lutar corpo a corpo com o cara sem usar o lampejo logo no início para poupar energia foi uma péssima ideia!”.
Ele se repreendeu internamente por não ter acabado com o oponente rapidamente. Reconhecia agora que, se tivesse ido com força total desde o princípio, talvez não estivesse tão arrebentado naquele momento crítico da batalha.
O garoto então se direcionou e caminhou devagar na direção do centro da arena, onde daria de cara com a Alfae de cabelos prateados, sua última e certamente mais difícil oponente. O desafio era ainda maior pelo fato de ela não ter gasto uma gota de energia.
Ela havia apenas o assistido lutar, aproveitando cada segundo para analisar friamente toda a sua capacidade de combate anterior. — Bem — Lucet suspirou — Ficar reclamando não irá ajudar em nada, então é melhor eu focar em recuperar o pouco de força que conseguir.
Como não havia tempo para preparar uma poção agora, ele precisava confiar em sua recuperação natural. Respirando devagar para conter a dor latente, Lucet acalmou seu coração que, há pouco, martelava contra o peito e lhe causava um bocado de desconforto físico.
Ele guardou a adaga em sua bainha e caminhou lentamente, tentando o melhor que podia estabilizar seus ferimentos ao passo que buscava recuperar sua reserva de mana. Após alguns minutos de caminhada, logo chegou novamente ao “túnel” de árvores no centro da arena.
Ele virou seus olhos para o lado norte e avistou a Alfae vestida em branco, com cabelos prateados e olhos violeta. Ela já trazia sua varinha na mão esquerda e a espada na direita, caminhando em sua direção com um leve sorriso confiante nos lábios.
— Não pôde esperar, foi? — Lucet riu, tossindo com dor — Seu colega mal foi derrotado e você já está aqui pronta para me enfrentar? Diferente de todos os oponentes anteriores, a Alfae riu e, com uma voz suave e encantadora, respondeu de forma animada.
— Mas é claro que estou — ela disse, com um sorriso tão belo que Lucet ficou distraído por um instante antes de chacoalhar a cabeça para retomar o foco — Aliás, eu estive esperando para enfrentá-lo esse tempo todo.
— É o quê? — Lucet perguntou confuso — Se estava tão ansiosa assim, por que não se ofereceu para ir primeiro? — Ele tentava entender a estratégia da guerreira à sua frente enquanto recuperava o fôlego.
— Que espécie de guerreiro avança cegamente contra seu oponente se tem a oportunidade de estudá-lo e conhecer sua força, e fraqueza, com antecedência? — Ela retrucou com um riso gracioso, cobrindo a boca com o pulso da mão que segurava a varinha.
— Tch! — Lucet bufou, tendo que concordar com o raciocínio dela — Decisão inteligente. Então me diga, o que achou do que viu? — Ele queria saber o quanto ela havia conseguido decifrar de seus movimentos.
— Impressionante! — Ela respondeu, acenando a cabeça empolgada — Simplesmente impressionante! Você é um Corvo, mas luta com o poder de um paladino e ainda por cima manipula a terra de forma singular.
— Como se não bastasse, ainda tem a “Garra do Corvo” como arma, que é feita para combater aqueles que se especializam em magia, como eu. E ainda tem um corpo muito forte, com excelentes reflexos e percepção extraordinária; você é simplesmente impressionante, Lucet.
— Hehe — Lucet deu um risinho — E sabendo de tudo isso, ainda quer lutar comigo? Tem tanta confiança assim na sua vitória? — Ele a desafiou, mesmo sentindo o peso de seus ferimentos internos.
— Se você estivesse lutando contra mim com a mesma integridade física do início, eu não teria certeza, mas no seu estado atual…. Digamos que vai ser bem difícil você ter qualquer chance de sequer encostar um dedo em mim, quem dirá sonhar em me derrotar?
— Oho… — Lucet disse, sorrindo com uma determinação reluzente nos olhos — Não vou conseguir sequer encostar em você? Agora você pediu, garota. Se prepara para uma senhora derrota, pois eu ainda tenho alguns truques na manga.
— Digo o mesmo para você, Lucet — ela respondeu com um riso, parando a alguns metros de distância dele. Uma aura etérea e enevoada surgiu ao seu redor enquanto ela assumia uma posição de combate com os joelhos levemente dobrados.
— Antes de começarmos — Lucet disse, sacando a garra da bainha com um movimento preciso — Será que poderia me dizer seu nome, senhorita “estou prestes a ser derrotada”?
— Só se você conseguir me derrotar, senhor “estou prestes a tomar uma surra” — ela retrucou com sua própria provocação e riu, demonstrando que não se deixava abalar pela retórica do garoto.
Sem dizer mais uma palavra, Lucet soltou um breve riso antes de disparar na direção da Alfae. De repente, sentiu um frio se aproximando com grande velocidade e viu dez lanças de gelo voando em sua direção, prestes a acertá-lo em cheio.
“O quê? Quando foi que ela…” ele gritou mentalmente, assustado com o ataque que sequer teve a chance de detectar a conjuração. O garoto se jogou no chão, mirando um chute deslizante nas pernas da Alfae, usando a garra para defletir as duas lanças de gelo mais próximas.
A Alfae saltou para o lado e cortou o ar verticalmente com sua espada de lâmina azulada como uma safira, mirando o pescoço do oponente. Lucet reagiu a tempo e bloqueou o ataque, desviando-o para cima e fazendo a lâmina arrancar um naco de terra do solo.
Isso desacelerou a reação dela por um momento precioso. Ele então contraiu o corpo e, usando sua aura cinzenta na forma de pequenas mãos, se impulsionou para frente antes de rolar e se erguer com agilidade.
Antes que pudesse se defender, sentiu novamente o frio e viu uma lança de gelo prestes a penetrar seu peito. Por sorte, seu braço já estava no movimento de subida, permitindo-lhe ativar a aura da fé instantaneamente.
Cobriu o membro com a armadura dourada para golpear a lança no último segundo, estraçalhando o gelo. Ele se ergueu por completo e desfez a proteção luminosa, optando por cobrir o corpo com um manto de sombras para dificultar a visão da oponente.
Lucet saltou na direção da Alfae, desferindo um corte horizontal reverso mirando o peitoral dela. Sua intenção era demolir a armadura com as propriedades antimágicas de sua lâmina. A garota saltou para trás para desviar do perigo iminente.
No instante seguinte, ela desferiu uma estocada rápida contra o peito dele. Lucet virou o torso para a direita e desviou; a falta de um braço proporcionou a oportunidade de girar a lâmina na mão e realizar um corte horizontal que ela não pôde evitar.
No momento em que a lâmina negra atingiu a ombreira, a defesa encantada se desfez como manteiga sob uma faca quente. Devido à facilidade do corte, uma linha escarlate surgiu no braço da garota e o sangue começou a manchar sua manga e a pingar no chão.
Ela retraiu o braço e, mais uma vez, Lucet sentiu uma brisa congelante vindo em direção ao seu estômago. O garoto girou o corpo rápido o suficiente para evitar a perfuração total, mas acabou sofrendo um corte raso no abdome.
O ferimento não sangrou por ter sido instantaneamente selado pelo frio do gelo. Os olhos do par se fitaram com um ânimo que não pertencia a uma batalha mortal e ambos riram logo em seguida, reconhecendo o valor um do outro.
— Você é boa, garota — Lucet disse, com um largo sorriso — E muito rápida com esses tiros de gelo! Não consegui nem mesmo ver quando disparou seus ataques!
— Rápida? — ela sorriu — E você, que conseguiu desviar tantas vezes? É o quê então? E essa sua garra? Ela é diferente, não era para demolir minha armadura de adamantina encantada com tanta facilidade!
— E tem mais — Lucet continuou — Você estava errada. Eu já consegui encostar em você. Parece que não vai ser tão fácil assim me derrubar, não? — Ele apontou para o pequeno corte que havia feito.
— Pelo jeito você é ainda melhor do que eu esperava — ela concordou — Mas ainda não é bom o suficiente. Lucet sentiu novamente o ar esfriar e viu vinte lanças aparecerem a menos de um metro de si, vindo de todos os lados.
“O quê!? Mas como é que ela fez isso!?” O garoto pensou, preocupado com a duração de sua aura. Sem opções, Lucet concentrou energia e conjurou o escudo dourado, projetando o domo protetor decorado com runas luminosas sobre sua cabeça.
— Me entregue a verdade! — declarou imperiosamente. Seu olho direito transformou-se no olho de fera, com pupila vertical e íris vermelho-dourada, permitindo-lhe rastrear a origem dos ataques no mundo desacelerado.
Ele descobriu que, na mão esquerda da Alfae, parcialmente escondida, a varinha ainda reluzia com resquícios de mana enevoada. “Aquilo deve acelerar a conjuração”, concluiu, decidindo que precisava se livrar do objeto antes de finalizar o combate.
As lanças de gelo explodiram contra o domo dourado, erguendo uma névoa gélida sem causar danos reais à proteção. Lucet desfez o domo, restando-lhe apenas um uso do lampejo, e saltou para disparar um chute contra o braço esquerdo da garota.
A Alfae tentou retrair o membro, mas sentiu uma imensa dor nas costelas e no braço, sendo forçada a largar a varinha enquanto era arremessada para o lado pela força do impacto. Com apenas meio uso da técnica sobrando, Lucet executou um último lampejo.
Ele a tropeçou, fazendo-a cair de costas no chão. Lucet prontamente avançou sobre ela, parando a lâmina negra a menos de um centímetro de sua pele pálida. — O que você disse sobre eu te derrotar? — ele perguntou ofegante, com um sorriso triunfal.
A Alfae, contudo, não parecia desanimada. Ela riu e Lucet sentiu uma leve pontada nas costelas: era a ponta da espada azulada da garota cutucando-o através de um furo em sua roupa, no que seria um golpe mortal simultâneo.
— Que você não ia conseguir — ela respondeu, mantendo o olhar firme no dele.
— Empate? — ele sugeriu, percebendo que ambos estavam em posição de xeque-mate.
— Empate — ela concordou com um aceno leve — E apesar de não ter me derrotado — ela continuou num tom um pouco mais baixo e suave — meu nome é Luna.